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O desafio da cultura indígena

Revista Geográfica Universal, n. 65 abr. 1980, p. 56-69
Autor: PERET, J. Américo
30 de abr de 1980

O desafio da cultura indígena

Texto e fotografias de
J. Américo Peret

O que se sabe realmente do índio brasileiro? Qual era a sua população original? Como tem sido percebida sua imagem nos inúmeros contatos com os brancos, durante toda a história? Existem duas formas de entender o índio: em função dos contatos indiscriminados com os brancos, e por seus valores culturais autênticos, que permanecem intatos.
Nossa história registrou como primeira biografia do índio brasileiro a carta de Pero Vaz de Caminha, escrivão da frota de Cabral, ao rei de Portugal, D. Manuel I: "Bem curados, limpos, gordos, formosos, gentis, de olfato aguçado, sentido atento e capazes de perceber os mais leves ruídos e odores..." Depois, durante os primeiros séculos de exploração, defesa e ocupação de nosso território, surgiram os mais graves problemas entre os nativos e os colonizadores. E os índios, que haviam sido considerados bons e hospitaleiros, passaram a ser vistos como selvagens, irracionais, privados até de alma. O Papa Paulo III, para conter as violências, publicou um breve "reabilitando os índios no seu verdadeiro reino zoológico, declarando-os seres humanos". Mas, por questões políticas, esse breve foi revogado no ano seguinte (1538).
Mais tarde, o Padre Antônio Vieira declarou que só no Maranhão e apenas de 1600 a 1632, dois milhões e quinhentos mil índios foram mortos pelas guerras, escravidão e doenças, sob a responsabilidade dos europeus.
E só quase três séculos depois Rodolfo Miranda, ministro da Agricultura, com o Decreto n.o 8.072, de 20 de junho de 1910, criou o Serviço de Proteção aos Índios (atual FUNAI - Fundação Nacional do Índio), cuja administração confiou ao então Coronel Rondon.
Em seu relacionamento com frentes pioneiras alguns grupos indígenas foram absorvidos completamente. Outros não resistiram aos choques interétnicos, e seus remanescentes sobrevivem aculturados à margem de nossa sociedade. Os restantes, assistidos nas reservas, conservam seus reais valores culturais intocados, não obstante os contatos com os brancos e com outros grupos indígenas.
Pergunta-se como um povo tão primitivo pode preservar informações tão antigas e, de certa forma, atuais? Como consegue perpetuar suas tradições? Na maioria das sociedades tribais, existe uma escola-internato, com denominação própria: Aruanã-Hetô (Casa das Máscaras Sagradas), dos índios Karajá; Ngóbe (Casa do Homem), dos Kayapó; Tapanauánã (Casa das Flautas), dos Os Kamaiurá (Tupi) vivem no Estado de Mato Grosso, e o contato com a Funai não chegou a alterar sua cultura. O guerreiro Kamaiurá (foto na página anterior) usa plumária, colares de moluscos e pintura vermelha do urucum e preta do carvão. Já os Kayapó (jê) habitam o Pará. O menino da foto em cima está pintado com tinta de jenipapo (azulada), que lhe identifica o clã e a idade.

Revista Geográfica Universal, n. 65 abr. 1980, p. 56-69

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