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O desafio atual é diminuir o ritmo de produção de alimentos

OESP, Paladar, p. D3
17 de Ago de 2017

O desafio atual é diminuir o ritmo de produção de alimentos
Os problemas em relação à sustentabilidade que nossa cadeia enfrenta não dizem mais respeito à busca de área de produção, mas à maneira como se produz

Roberto Smeraldi

A pós-verdade cultiva especial apego ao mundo da comida e é generosa em memes fantasiados de ciência. Um dos mais frequentes - que se infiltra até no power point de executivos de renome - reza assim: "de acordo com a FAO, o mundo terá de dobrar a atual produção de cereais, para alimentar 9 bilhões de pessoas em 2050".
A FAO jamais defendeu tamanha extravagância: mas em que medida a propagação desse meme tem a ver com nossa tarefa de cozinheiros?
Aos fatos: em 2012, a FAO publicou um estudo estimando que a produção agregada de alimentos deveria aumentar em 60%, em relação à média do período entre 2005 e 2007, para atender a "demanda" comercial projetada para 2050. Ora, a existência de uma demanda comercial nada tem a ver com "alimentar pessoas". De um lado, os que não têm dinheiro nem sequer perfazem a demanda e, por outro, os que perfazem a demanda comem pouco mais da metade do que se produz, mesmo que um terço deles coma demais.
Sendo que de 2005 para cá a produção de alimentos já subiu expressivamente, e a projeção de aumento da demanda por cereais é inferior à da média agregada de todos os alimentos, na realidade o aumento projetado na demanda por cereais - em relação ao momento atual - não passa de 30%. Ou seja, no atual ritmo de aumento de produção, de 1,9% ao ano, chegaríamos a atender a projeção de demanda para 2050 já por volta de 2035.
Em outras palavras, o desafio atual é o de diminuir o ritmo de crescimento da produção, não de aumentá-lo, mesmo sem considerar perdas e desperdício de comida. Já se a preocupação fosse aquela de alimentar pessoas... bem, os 2.068 milhões de toneladas de produção anual de cereais no período 2005-2007 já eram bem superiores aos 1.500 mi/t que são projetados como efetivamente consumidos em 2050. Isso porque as projeções da FAO assumem, para 2050, o mesmo padrão atual de perdas e desperdício, pelo qual apenas a metade dos cereais produzidos é efetivamente consumida (e uma pequena parte, transformada em combustível).
Estudo publicado na semana passada na Bioscience da Oxford University Press - por um grupo de cientistas agrícolas de universidades americanas (Hunter et al.)- oferece boa visão atualizada do estado da arte nas estimativas de demanda. Nada disso alterará os ingredientes das receitas dos memes, mas é um bom instrumento nas mãos de quem - como o cozinheiro - busca planejar o melhor uso do alimento.
Primeiro, significa que os desafios de sustentabilidade que enfrenta nossa cadeia não dizem mais respeito à busca de mais área para produzir, e sim à maneira que se produz, principalmente em termos de poluição ambiental, emissão de gases estufa e saúde do consumidor. Segundo, que na medida em que a curva de aumento da demanda agregada está prestes a se esgotar, vai se tornar ainda mais crucial a qualidade do que se produz e o que se produz. Por exemplo, a demanda por leite e laticínios é a única - entre os grandes componentes da alimentação - que terá ainda razoável crescimento per capita tanto no mundo desenvolvido, quanto naquele em desenvolvimento. Finalmente, que os profissionais mais desejados e disputados em todos os elos da cadeia - no campo, na logística, na cozinha... - serão aqueles mais preparados para reduzir as perdas, com tecnologia e criatividade.

OESP, 17/08/2017, Paladar, p. D3

http://paladar.estadao.com.br/noticias/comida,o-desafio-atual-e-diminui…

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