O Globo, Economia Verde, p. 27
Autor: VIEIRA, Augusto
03 de Out de 2013
O custo do descaso
Agostinho Vieira
Pode parecer estranho para os mais jovens, mas nos anos 70 eram comuns os debates sobre os males do cigarro.
Não havia dúvida entre os médicos de que o fumo era uma das principais causas do câncer de pulmão. No entanto, interesses econômicos bem estruturados tentavam fazer crer que isso não era verdade. Ou, no mínimo, que não havia uma certeza absoluta. Na dúvida, por que largar o prazer?
O tempo se encarregou de acabar com a polêmica. Hoje, só fuma quem realmente quer e não se importa com as tristes imagens estampadas nas embalagens. O cigarro do século XXI é o aquecimento global. O último relatório do Painel Intergovernamental de mudanças climáticas (IPCC), divulgado na semana passada, aumentou o grau de certeza de que o planeta está ficando mais quente. A temperatura deve subir entre 3"C e 4"C até o final do século e há 95% de chances de que essas alterações sejam causadas pelas atividades humanas. Apesar das evidências, ainda é enorme o número de céticos que se recusa a enfrentar seriamente o problema. Temos os bem intencionados, que discutem pontos específicos do relatório e ajudam a ciência a avançar. Mas há também os céticos profissionais, que são pagos e bem pagos para criar confusão. No fim da fila estão os céticos amadores. Aqueles que gostam de ser do contra. Não leram nada, não se informam, mas não querem acreditar. Para estes, o melhor remédio são doses homeopáticas de precaução. Imaginar, por um minuto, que eles possam estar errados. E se os cientistas estiverem certos e o planeta estiver mesmo aquecendo? Não seria melhor fazer alguma coisa logo? E se o cigarro causar mesmo câncer? Talvez fosse prudente trocar os dois maços diários por um cigarrinho depois do café. De qualquer maneira, se as ponderações científicas e o bom-senso não funcionarem, restam os fortes argumentos econômicos. Um bom exemplo disso é um estudo feito por um grupo de pesquisadores do Instituto de Economia da UFRJ, liderado pelo professor Carlos Eduardo Young. Eles calcularam as perdas econômicas decorrentes dos eventos climáticos que aconteceram no Estado do Rio de Janeiro entre 2000 e 2010. Principalmente as inundações e as quedas de barreiras. As conclusões são impressionantes. Os danos no período ficaram entre R$ 48,4 bilhões e R$ 54,5 bilhões. O equivalente a 1,3% de todo o PIB do estado, em 2010. De acordo com o Atlas Brasileiro de Desastres Naturais, 89% dos eventos climáticos extremos no Rio estão relacionados com chuvas fortes, inundações e desabamentos. Em dez anos, foram 520 desastres, mais de 300 mil desalojados, quase 70 mil desabrigados e 3,4 milhões de afetados. O pior é que o número de casos e de vítimas cresce ano a ano. Entre 1991 e 2000 foram registrados apenas 37 eventos, com cinco mil desabrigados, 23 mil desalojados e 246 afetados. Três razões explicam esse crescimento, todas verdadeiras. A primeira é que as estatísticas estão mais confiáveis. A segunda explicação, e a mais lamentável, é que temos um número maior de pessoas vivendo em áreas de risco. Frases como "minha família sempre viveu aqui" ou "não tenho para onde ir" ainda são muito comuns. Sem contar a falta de ação do poder público para retirar esses moradores e a aposta, mais do que equivocada, de que um raio que não cai duas vezes no mesmo lugar. A terceira razão, menos óbvia, é o aquecimento global. Não dá para garantir que um evento específico em março de 2013 tenha sido causado pelas mudanças climáticas. Mas é certo que o aumento da temperatura do planeta está tornando esses desastres mais frequentes e intensos. Os dados mostram isso, só no Rio foram 70 registros em 2007, mais de 100 em 2009 e 140 em 2010. O levantamento dos pesquisadores da UFRJ revela que Petrópolis foi o município mais atingido entre 2000 e 2010, com 28 ocorrências, contra 27 de São Gonçalo e 19 de Angra dos Reis. Só em Petrópolis, nesses dez anos, os prejuízos chegaram a R$ 255 milhões, aproximadamente 3,6% do PIB municipal. Importante lembrar que o estudo vai até 2010 e, portanto, não considera a grande tragédia de 2011, que matou mais de 900 pessoas na Região Serrana. Os cálculos da pesquisa consideram itens como infraestrutura, habitação, agricultura, comércio e meio ambiente. Não levam em conta as mortes e os prejuízos emocionais. Todos incalculáveis. Enquanto isso, os investimentos em prevenção e mitigação dos riscos continuam engatinhando. Certamente, sairia muito mais barato prevenir do que remediar.
R$ 54,5 bi
Foi o tamanho das perdas econômicas decorrentes dos eventos climáticos no Estado do Rio entre 2000 e 2010. O valor, calculado por pesquisadores da UFRJ, equivale a 1,3% do PIB e considera, principalmente, os efeitos das inundações e dos desabamentos.
O Globo, 03/10/2013 Economia Verde, p. 27
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