O Globo, Sociedade, p. 24
Autor: SOLHEIM, Erik
14 de Jun de 2017
'O custo da adaptação é menor do que a inércia ao aquecimento global'
Diretor-executivo da ONU Meio Ambiente, norueguês elogia progresso mundial desde a Rio 92, mas critica avanço do desmatamento no Brasil
Erik Solheim
De que forma a Rio 92 transformou o mundo nos últimos 25 anos?
Vivemos melhorias significativas. A expectativa de vida e o tempo da população na escola aumentaram, doenças como cólera e poliomelite foram praticamente erradicadas. Mesmo em países que estão vivendo crises econômicas atualmente, como o Brasil, o desenvolvimento é inegável. Obviamente ainda há problemas. A poluição atmosférica, por exemplo, é o fator que causa mais mortes no mundo. As mudanças climáticas são cada vez mais preocupantes, e a pobreza extrema aflige um bilhão de pessoas.
O senhor teme que outros países sigam os EUA e deixem o Acordo de Paris?
Não. Agora o comprometimento é total. A China, por exemplo, já percebeu o potencial do investimento em energias renováveis. Não é apenas uma ação ambiental, e sim uma nova oportunidade de negócios.
Se todos os países cumprirem as metas que divulgaram no ano passado, o planeta vai aquecer 3 graus Celsius, índice maior do que o tolerável, segundo os cientistas. O senhor acredita que os chefes de Estado estão dispostos a assumir mais despesas?
O custo da adaptação é menor do que a inércia ao aquecimento global. Brasil, China, Índia e União Europeia já sabem disso.
Como será o clima do planeta nos próximos 25 anos?
Há uma mistura cada vez mais perigosa entre política e meio ambiente. Fui recentemente à Somália e vi que um milhão de pessoas deixaram os campos e vivem em tendas. Estão migrando para as cidades, porque a seca devastou as plantações. Em países como Síria e Sudão do Sul, é difícil distinguir os estragos causados pela guerra e pelas mudanças climáticas.
E o Brasil, qual é o nosso papel para o desenvolvimento do planeta?
É um país muito importante porque, além de sua grande extensão, é um dos mais urbanizados. Por isso, tem um histórico de poluição que exige providências imediatas. Manter a integridade dos ecossistemas também é um desafio, particularmente na Amazônia, onde o desmatamento voltou a crescer nos últimos dois anos. E isso pode piorar, considerando que existem leis tramitando no Congresso Nacional que propõem a redução de áreas protegidas.
O Globo, 14/06/2017, Sociedade, p. 24
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