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O contrário da memória

Revista Piauí n. 116, mai., 2016, p. 52-58
31 de mai de 2016

O contrário da memória
Vida, morte e vida da língua geral

Branca Vianna

São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, fica a 858 quilômetros da capital do estado - são quatro dias de barco ou duas horas e meia de bimotor. É uma das cidades mais ao norte do país, na divisa com Venezuela e Colômbia. É tão perto da fronteira - doze horas de barco, distância que em dimensões amazônicas equivale a um pulinho - que os rebeldes das Farc, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, descem o rio para fazer compras na cidade. Quando há um cessar-fogo entre governo e guerrilheiros, o comércio local, que já não é dos mais pujantes, sente o baque.
O município ganhou fama em 2002 por ter oficializado três línguas indígenas, além do português. Disso se depreende que deveria haver funcionários falantes de tukano, baniwa e nheengatu nas escolas e repartições públicas, no batalhão do Exército, nos hospitais, no Banco do Brasil, na casa lotérica que faz as vezes de agência da Caixa Econômica e no fórum de Justiça.
Muitos de seus habitantes não falam português, ou falam mal. São indígenas que vivem no interior e vão à cidade em busca de assistência médica ou benefícios como aposentadoria, Bolsa Família e auxílio-maternidade. A lei, no entanto, não pegou. Em todas as instituições publicas só se fala português. O nheengatu é ensinado como segunda língua em apenas duas escolas indígenas em bairros da periferia.
Nas ruas de São Gabriel é o contrário: uma algaravia de nheengatu, tukano, wanano, pira-tapuyo, kubeo, baniwa, kuripako, yanomâmi, hupda, dow. Também se ouve espanhol, de colombianos que por lá se estabeleceram ao serem expulsos de suas terras pelos guerrilheiros. Na cidade há um cônsul honorário da Colômbia, responsável por ajudar os conterrâneos nos trâmites para a obtenção de visto de trabalho e licença para abrir comércio - atividade a que a maioria dos fugidos se dedica.
Cerca de 80% do município é constituído de terras indígenas demarcadas. No perímetro urbano, 57,8% dos moradores se identificaram como indígenas no último censo do IBGE, de 2010. Adeilson Lopes da Silva, ecólogo do Instituto Socioambiental, ISA, uma organização não governamental muito ativa na região, afirma que nos últimos cincos anos houve um êxodo do interior para a zona urbana e hoje o número está mais perto de 70%. Segundo o IBGE, é o município de maior população indígena do país.

Branca Vianna é linguista, intérprete e professora da PUC-RJ.

Revista Piauí n. 116, mai., 2016, p. 52-58

http://revistapiaui.estadao.com.br/materia/o-contrario-da-memoria/

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