CB, Economia, p. 14
03 de Nov de 2005
O clima que destrói a economia
Mudanças climáticas cada vez mais intensas causam prejuízos crescentes que podem chegar ao recorde de US$ 113 bilhões este ano, frente a US$ 55 bilhões de 2002. Agricultura e energia no Brasil podem ser afetadas
Ricardo Allan
Da equipe do Correio
A elevação da temperatura média da Terra, que vem ocorrendo nos últimos anos, não terá conseqüências apenas ambientais. Caso o fenômeno se confirme nos próximos anos, os efeitos econômicos serão enormes em médio e longo prazos. No pior cenário, imaginado principalmente por organizações ambientalistas, o aquecimento teria potencial para provocar uma recessão mundial ou até mesmo um colapso econômico. Na hipótese menos catastrófica, mais comum na análise de economistas, os reflexos vão desde a elevação do preço do petróleo à escassez de energia, passando por graves prejuízos à atividade pesqueira e pela redistribuição da produção agrícola no mundo. Alguns países sairiam ganhando e outros, perdendo.
A comunidade científica ainda não sabe ao certo se o calor atual faz parte de uma tendência crescente, que continuaria décadas à frente, ou de um ciclo passageiro, a ser substituído no futuro por um período de esfriamento. O fato incontestável é que este ano já é o mais quente de que se tem registro, com temperatura média 0,75 grau acima do verificado entre 1950 e 1980. Em Brasília, chegou-se a 34 graus, próximo do recorde registrado em 1963. Muitos cientistas relacionam o derretimento das calotas polares, a elevação do nível dos mares e o número inédito de furacões no Golfo do México ao aquecimento, principalmente no Hemisfério Norte. A causa do calor extremo seria o maior volume de emissões de gases, como o dióxido de carbono.
"A tendência é o crescimento, ano a ano, do número de eventos severos, como secas, inundações e furacões, com cada vez mais prejuízos físicos e econômicos", afirma o doutor em ecologia Carlos Rittl, coordenador da campanha de clima da organização ambientalista Greenpeace no Brasil. Ele cita projeções da Organização das Nações Unidas (ONU) segundo as quais os prejuízos com desastres climáticos podem chegar ao valor total do Produto Interno Bruto (PIB) mundial em 2065, caso o aquecimento continue a aumentar na proporção atual. "Se nada for feito para reduzir o volume de emissões e tentar reverter o aquecimento, estamos nos aproximando de um colapso ambiental e econômico."
Segundo projeções de organismos multilaterais coletadas pelo Greenpeace, os custos com a recuperação de áreas devastadas por desastres climáticos têm aumentado nos últimos anos. Em 2002, as estimativas foram de US$ 55 bilhões, passando para US$ 60 bilhões em 2003 e US$ 75 bilhões no ano passado. A previsão para este ano é de US$ 113 bilhões. Só o Katrina, furacão que arrasou Nova Orleans (EUA), gerou um prejuízo de US$ 20 bilhões. Mais modesto, o Catarina, que atingiu Santa Catarina em 2004, custou cerca de R$ 1 bilhão, no que foi considerado a primeira ocorrência de um furacão em território brasileiro. O subproduto de tudo isso é o encarecimento dos seguros.
Rittl acredita que o planeta está dando repetidos sinais de que pode estar no limite. Além dos furacões, ele lembra da seca em regiões brasileiras que antes não sofriam com o fenômeno, como no Sul do país, o que acabou elevando o preço dos produtos agrícolas no mercado interno e catapultando a inflação. O período seco na Amazônia também está sendo atípico, afetando muito a pesca nos rios, atividade econômica essencial na região. Mantido o atual ritmo, a projeção é de alta entre 1,5 e 3,5 graus na temperatura nos próximos cem anos.
O economista Jorge Madeira Nogueira, professor responsável pelo mestrado em Gestão Econômica do Meio Ambiente da Universidade de Brasília (UnB), acredita que o mais provável é a humanidade desenvolver tecnologias que diminuam a emissão de gases, preservando o nível de conforto das pessoas. "Como não temos certeza se o aquecimento será permanente ou não, a melhor política é a cautela para evitar que o pior cenário aconteça. Há motivos para começarmos a nos preocupar, mas não para pânico", pondera. "É preciso encarar o problema agora e evitar decisões que gerem danos irreversíveis, mas alarmismo atrapalha."
Nogueira destaca os prováveis efeitos na agricultura. Alguns países, como Estados Unidos, Canadá e China, seriam beneficiados pelo aumento da temperatura. As projeções mostram que regiões frias nesses países esquentariam, beneficiando a agricultura pelo aumento da área de plantio, do número de colheitas, da variedade de culturas e da produtividade da terra. Nesses mesmos locais, também aumentaria o volume de chuvas, outro fator essencial para a prática agrícola. O Brasil sairia perdendo porque a chuva diminuiria em seu território, com a seca no Nordeste ficando mais séria. Haveria uma rearrumação geral da atividade agrícola no mundo, com alteração nos preços relativos dos produtos.
A diminuição dos leitos dos rios pode afetar muito seriamente a produção de energia em países com matriz essencialmente hidrelétrica, como o Brasil. O pior é que a redução na oferta viria no mesmo momento do aumento do uso, o que certamente provocaria escassez. O caso do petróleo também é exemplar. O produto é duplamente afetado: os furacões atacam áreas produtoras, reduzindo a extração, e o consumo tende a aumentar. Além disso, as reservas devem se exaurir ainda neste século. O resultado dessa combinação deve ser um salto nas cotações do óleo bruto e no preço dos combustíveis.
Ainda há tempo para reverter
Embora ainda não exista certeza sobre se o aquecimento global será permanente, numa coisa os especialistas concordam: ainda há tempo para evitar prejuízos ambientais e econômicos mais graves. Os países precisam tomar logo decisões que diminuam as emissões de gases e o desflorestamento. O principal empecilho para os planos de salvamento, entretanto, é seu alto custo. Mudar a estrutura da produção industrial e os hábitos das populações demanda um esforço de adaptação, tanto econômica como cultural. A conta é imediata, mas os benefícios só aparecem no futuro, o que desestimula os investimentos necessários para o surgimento de uma economia ecologicamente correta.
"Existem soluções técnicas para reduzir as emissões, mas a transição é muito cara e exige mudanças na base industrial e nos costumes. Isso é difícil de enfrentar", afirma o economista Jorge Madeira Nogueira, professor da Universidade de Brasília (UnB). A novidade no mercado internacional são os automóveis triflex, combinando o uso de baterias elétricas, gás natural e gasolina, o que diminui a emissão de gás carbônico. As indústrias que usam energia de queima de carvão, comuns em países como a China e a Índia, podem se modernizar e explorar outros combustíveis, como o biodiesel - a expansão econômica desses dois países é responsável por boa parte do aumento das emissões nos últimos anos.
Para Nogueira, os governos têm que tornar economicamente interessante as adaptações na base industrial. Do contrário, elas não serão feitas. O mesmo raciocínio vale para as políticas de combate ao desmatamento na Amazônia. Segundo o economista, os pastos e plantios estão avançando sobre a floresta porque os produtores rurais conseguem rentabilidade maior nessa área do que em suas regiões de origem. A terra é mais barata e virgem para as culturas, o que aumenta a produtividade. "O desmatamento é causado por fatores econômicos e só será revertido por incentivos econômicos. Sem eles, nem toda a frota de helicópteros do mundo será suficiente para coibir o abate das árvores", prevê.
O governo brasileiro quer usar o dinheiro obtido na venda de créditos de carbono (quotas de redução das emissões) para investir em projetos de energia "limpa", como os de produção a partir dos gases emitidos nos depósitos de lixo. Uma equipe do Banco Mundial (Bird) esteve no Brasil há duas semanas para estudar a correlação entre a matriz energética brasileira e o clima. "Foi um primeiro contato, que pode dar em futuras parcerias", afirma Henri Kistler, assessor da Secretaria de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda. Para ele, se os agentes econômicos estivessem esperando uma recessão por motivos ambientais, os mercados futuros já estariam antecipando os efeitos, o que não ocorreu até agora. (RA)
CB, 03/11/2005, Economia, p. 14
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