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O clima do planeta em compasso de espera

O Globo, Razão Social, p. 4-5
19 de Jan de 2010

O clima do planeta em compasso de espera
Especialistas convidados para encontro da Folha de São Paulo analisam o resultado da Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas, realizada em Copenhague

Amelia Gonzalez
amelia@oglobo.com.br
Enviada especial a São Paulo

Que a Conferência das Partes sobre Mudança Climática (COP-15), que terminou em 18 de dezembro do ano passado, foi um fracasso, nenhum dos quatro debatedores do encontro promovido pelo jornal "Folha de São Paulo", na capital paulista, discorda. Os motivos que levaram a este fracasso nas negociações entre os 192 países que estavam reunidos para tentar chegar a um acordo para ajudar o mundo a enfrentar o aumento da temperatura e evitar que ela avance, no entanto, têm explicações diferentes.
Para o cientista político Sergio Abranches, "o sistema da Organização das Nações Unidas (ONU) está sem fôlego", o que explicaria a dificuldade em se acertar algum acordo.

- O modelo assemblista por unanimidade da ONU torna impossível fechar um acordo. Ali estavam representantes de 192 países, entre os quais um grupo grande de vítimas das mudanças climáticas sem ter condições de fazer nada porque não são emissores relevantes; um grupo pequeno de países petrolíferos que estavam ali só para sabotar acordos e um grupo pequeno de potências econômicas, que são elas as maiores responsáveis pelas emissões. Qualquer um pode vetar, e desta forma só é possível chegar a um mínimo denominador comum disse ele.

Abranches, no entanto, viu alguns avanços, não sob o ponto de vista climático, mas político. Carlos Cavalcanti, diretor de meio ambiente da Fiesp acredita que "a identidade de interesses de Estados Unidos e China é que levou ao fiasco";
- O que se viu foi uma estratégia de negociação muito inteligente por parte desses dois países. O presidente Barack Obama chegou a Copenhague sem poder oferecer muita coisa, não tirou a carta da manga que todo mundo esperava porque não tem respaldo de lei no seu país ainda. A China, por sua vez, teve pouco o que fazer, não se desgastou no debate porque todo o foco estava sobre os Estados Unidos - disse ele.

Já para o professor da Universidade de São Paulo (USP) e escritor José Eli da Veiga, "era impossível imaginar qualquer acordo como fruto de uma reunião de 192 países que começou sem um documento razoável".

-Acho que não devemos entrar muito nessa discussão. Se tivesse havido o tal milagre que o presidente Lula muito propriamente evocou, ele teria acelerado o processo de um acordo. Mas, como não houve, o que se abre agora é que precisamos esperar que a lei americana seja aprovada para pensarmos em metas com base legal.

E, quando sair isso, o país que não estiver fazendo esforço no sentido de uma transição para uma economia de baixo carbono, investindo em tecnologias para isso, ele vai enfrentar barreiras comerciais. Precisamos nos preparar para isso - disse o professor.

O professor da Universidade de Brasília e especialista em relações internacionais Eduardo Viola alertou para o fato de que estamos vivendo um período de "uma precária governança global, não só climática, como de segurança, para a dinâmica do mundo".

- O ponto chave é que, se não houver uma negociação, entre as potencias mundiais, para limitar as emissões de carbono, o país que decidir iniciar a transição para uma economia de baixo carbono vai perder competitividade com relação aos outros.

Neste sentido eu acho que uma negociação, criar um acordo internacional que limite emissões de carbono tem uma importância fundamental. E a dificuldade de negociação que se viu entre China, Estados Unidos e União Européia é gravíssimo para o sistema internacional, com repercussão para outras áreas - disse o professor.

Assumindo-se um politicólogo, Sergio Abranches, embora concorde que foi muito frustrante para a maioria das pessoas não ler nos jornais sobre um acordo ou tratado entre as nações no sentido de livrar o planeta dos impactos causados pela mudança do clima, disse que ele próprio não estava esperando muito.

- Eu esperava só um momento político que permitisse sair fora do impasse da convenção do clima, que já existe há dez anos. E isso começou a acontecer: as grandes potências climáticas se reuniram para conversar e para discutir sobre o que fazer. E houve o consenso de que, qualquer que seja o sacrifício, uma coisa é certa: precisa financiar a adaptação dos países mais pobres - disse ele.

A questão mais preocupante, para José Eli da Veiga, é o fato de o debate sobre a Conferência ficar concentrado no fato de ter sido ou não um fracasso. Para ele, isso pode levar o público a deduzir que a transição para uma economia de baixo carbono, que na opinião do economista já começou depois do relatório do IPCC (2007), vá sofrer alguma interrupção:
- Houve uma percepção muito séria a partir de 2007, quando os cientistas passaram a nos dizer que o aquecimento global vai trazer sérias consequências (pelo relatório do IPCC) e que, portanto, os países têm que descobrir uma forma para lidar com isso.

Por quê? Em princípio, haveria uma espécie de altruísmo coletivo com relação às futuras gerações, mas este é um secundário. Há outro, muito importante, que é o da segurança energética. Há um consenso de que, a partir de meados deste século, o petróleo entrará em fase de extinção. Portanto, nenhum país poderá se dar ao luxo de ficar dependente do petróleo, o que coloca para os negócios uma perspectiva muito clara de que a próxima etapa de desenvolvimento do capitalismo vai se dar em torno das inovações na área energética que poderão fazer essa transição para uma economia de baixo carbono.

Representando ali o setor empresarial, Carlos Cavalcanti concorda que é preciso debater a questão sobre inovações, mas quer que a discussão seja feita sobre uma base real. Para o executivo, que representa o setor energético, não adianta falar em mandar fechar os altos-fornos que usam carvão mineral porque eles, simplesmente, não podem usar outra fonte de energia. A solução seria, então, acabar com este modelo de produção.

Somos a favor do carbono verde, sim. Mas só vamos mandar fechar os altos-fornos se o resto do mundo também fechar os seus. Se a China continuar, como ainda continua, trabalhando com altos-fornos, vamos perder na competitividade, vamos ter desemprego em massa no Brasil, vamos ter que passar a importar aço e tecnologia. Precisamos enfrentar este debate com bases sérias porque senão ficamos numa situação em que o discurso não tem vínculo com a realidade - disse ele.

De qualquer maneira, a certeza é que nada acontecerá de verdade, pelo menos a nível global e oficial, enquanto o senado dos Estados Unidos não votar uma lei e liberar o presidente Obama para fazer uma negociação mais sólida. A apatia no evento do presidente mais poderoso do mundo foi notada e observada por todos. A segunda questão que se coloca para o futuro, segundo Sergio Abranches, é que a reunião que a chanceler alemã Ângela Merkel está convocando para Bonn seja um encontro do G20 (países que representam 85% do PIB do mundo) e não mais uma reunião preparatória para a próxima Conferência das Partes que acontecerá este ano no México.

Se não der para acontecer um tratado internacional sobre o clima, um acordo entre os principais emissores, para mim, já seria muito bom - disse ele.
Eduardo Viola: "Estamos vivendo uma precária governança global, não só no clima como na segurança, para a dinâmica do mundo"
José Eli da Veiga "Era impossível imaginar um acordo fruto de uma reunião de 192 países que começou sem um documento razoável"
Sergio Abranches: "Houve consenso de que é preciso financiar a adaptação dos países pobres"
Carlos Cavalcanti: "A identidade de interesses de Estados Unidos e China é que levou ao fiasco"

Próxima reunião do Basic vai acontecer em Nova Dehli, na Índia, amanhã

Será amanhã, em Nova Delhi, a primeira reunião, pós COP-15, do Basic. O grupo é formado pela Índia, Brasil, China e África do Sul e tem o objetivo de criar uma rede de informações que viabilize troca de experiências, criação de estratégias comuns para o comércio internacional e colaboração acadêmica, no que se refere às mudanças climáticas.

A reunião foi convocada pela Índia e, segundo a secretária de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente, Suzana Kahn, não terá um tema específico. A intenção é repassar o que foi discutido em Compenhague.

- É uma agenda geral, com a idéia de debater quais foram as lições aprendidas e preparar uma série de encontros para o ano de 2010. A idéia com tudo isso é poder trocar experiências.

Quando se trata, por exemplo, de redução de emissões de carbono é importante avaliar quais são os critérios que cada país adota e estabelecer uma plataforma comum de informações e dados observa.

Ao longo do ano passado, os quatro países foram se aproximando informalmente e, em Compenhague, se fortaleceram. Lá eles fizeram uma reunião, que contou com a presença do presidente Barak Obama.

- A presença do presidente Obama foi uma demonstração de que este grupo pode ser empoderado analisa Suzana Kahn.

Ela acredita que a troca de experiência entre os quatro países é de extrema importância, pois todos são emergentes e com uma participação mundial expressiva em emissões de carbono.

O Globo, 19/01/2010, Razão Social, p. 4-5

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