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O 'ciclo mortal' da Amazônia

O Globo, Sociedade, p. 24
03 de Abr de 2017

O 'ciclo mortal' da Amazônia
Desmatamento reduz umidade, gera secas e amplia perda da cobertura florestal

SÉRGIO MATSUURA
sergio.matsuura@oglobo.com.br

Sob constante pressão do desmatamento e ameaçada pelas mudanças climáticas, a Floresta Amazônica corre o risco de entrar num "ciclo mortal" que pode levar o ecossistema a se transformar em algo mais parecido com o Cerrado. De acordo com um estudo liderado por pesquisadores do Instituto Potsdam de Pesquisas sobre o Impacto Climático, baseado na Alemanha, a perda de cobertura florestal provoca uma redução na umidade do ar, desequilibrando o sistema e tornando outras regiões mais suscetíveis ao desflorestamento. Modelos computacionais indicam que sob condições de seca essas perdas adicionais, classificadas como "autoamplificadas", variam entre 10% e 13%.
- Sabemos que a redução das chuvas aumenta o risco de perdas florestais e, por outro lado, as perdas florestais intensificam as secas. Por isso, mais secas levam a menos florestas, que geram mais secas e assim por diante - afirma Delphine Clara Zemp, pesquisadora do Instituto Postdam e líder do estudo publicado em março na revista "Nature".
Esse efeito dominó tem potencial para desestabilizar o equilíbrio do ciclo das águas na Amazônia. Hoje, a umidade penetra no continente vinda do Oceano Atlântico, carregada pelos ventos alísios até o Andes. Durante o percurso, essa umidade se condensa em chuvas torrenciais, que suportam a riqueza do bioma. Mas grande parte dessa água, em média 70% nas áreas de floresta tropical, retorna para a atmosfera pela evapotranspiração - evaporação da água no solo e da transpiração das plantas - e continua o seu caminho em direção ao interior do continente.
Em áreas com a vegetação típica do Cerrado, só 57% do vapor d'água retorna para a atmosfera. E essas perdas vão se acumulando ao longo do caminho, aumentando o risco de secas nas regiões mais internas do continente e a consequente perda de cobertura florestal.
- A região da Amazônia possui dois estados de equilíbrio possíveis. Um deles é o atual, de floresta tropical, e o outro é o de Cerrado. Nós temos a floresta tropical porque as condições de umidade, com muitas chuvas, e de temperaturas amenas são favoráveis - explica Henrique Barbosa, pesquisador do Instituto de Física da USP e coautor da pesquisa. - Se você reduz as chuvas e aumenta as temperaturas, que é o que está acontecendo, o Cerrado passa a ser favorecido.
De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o desmatamento voltou a crescer na Amazônia brasileira. No ano passado foram desmatados 7.989 km², aumento de 29% em relação ao ano anterior. Além da atividade humana local, a região sofre com a pressão global das mudanças climáticas: desde 2005, foram três períodos de seca intensos. As projeções indicam a ocorrência mais frequente de eventos climáticos extremos, com secas fortes e prolongadas.
- Mais do que determinar o que vai acontecer, esse estudo serve como um alerta - acredita a pesquisadora Marina Hirota, da Universidade Federal de Santa Catarina e coautora do estudo, ressaltando que não concorda com a previsão de savanização da Amazônia. - O que nós sabemos é que esse círculo vicioso, essa desestabilização, provoca perdas na floresta sem que o homem tenha que ir lá e desmatar.
BOA NOTÍCIA
Apesar das previsões, o estudo indica forte resiliência do ecossistema amazônico. Por ser heterogêneo, as diferentes espécies de plantas resistem de formas diversas aos períodos de seca e fornecem maior resistência às alterações nos regimes de precipitação.
- Uma pessoa tem dez vasos com espécies de plantas diferentes na varanda, precisa viajar e pede para o vizinho regar. Por mais que ele regue todos os dias, ele coloca menos ou mais água, perturbando o sistema. Na volta da viagem, quatro plantas morreram, mas seis sobreviveram. Essa é a resiliência da heterogeneidade - exemplifica Marina. - É isso o que acontece na Amazônia. Em regiões diferentes, as florestas são diferentes, e algumas porções podem não sobreviver, mas outras certamente irão.
Carl Schleussner, outro coautor do estudo, concorda que com as mudanças nas chuvas previstas para o fim deste século, a Amazônia não morrerá.
- Mas grandes partes certamente estão em risco - alerta Schleussner.

O Globo, 03/04/2017, Sociedade, p. 24

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