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O cético do clima

O Globo, Ciência, p. 50
08 de Mar de 2007

O cético do clima
Cientista alega que ainda é cedo para saber o real impacto da ação humana

Roberta Jansen

A elevação das temperaturas globais é praticamente consenso entre os cientistas.Mas em que medida ela é causada pela ação do homem a partir da Revolução Industrial é motivo de debate. O cientista Alberto Setzer, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que coordena a parte de meteorologia do Programa Antártico, é um pouco mais cético do que a maioria de seus colegas no que diz respeito a estabelecer uma relação tão direta entre a ação humana e o aquecimento do planeta.

- As pessoas acham que tudo o que ocorre hoje é aquecimento global, como se houvesse um termostato que agora foi regulado para cima. Mudanças no padrão de circulação (de vento e mares) sempre ocorreram. Já houve mudanças climáticas dramáticas no passado - afirma o pesquisador. - Claro que a ação humana contribui, como está ocorrendo agora, mas essas mudanças de circulação são comuns. É bom lembrar que há 20 mil anos a América do Norte e a Europa eram cobertas por geleiras que sofreram um degelo natural.

Os estudos de Setzer revelam um dado que, se confirmado, pode alterar as teorias sobre o aquecimento. Suas medições mostram, sim, um aumento acentuado da temperatura média na Península Antártica de 1998 a 2005. No entanto, dados mais recentes sugerem que as médias podem estar caindo.

- Estamos constatando um declínio nessa região. Não sabemos ainda o que vai acontecer, mas vamos esperar - diz o pesquisador.

Segundo ele, outro aspecto a ser levado em conta é o fato de que todas as alterações climáticas estão restritas à Península Antártica.

O continente e as ilhas que o cercam têm 14 milhões de quilômetros quadrados - o equivalente às áreas somadas de Brasil, Uruguai, Chile, Peru e Bolívia. A Península, por sua vez, é uma cordilheira, com pouco mais de 2.500 quilômetros de extensão. No interior do continente antártico não se registrou até agora nenhuma alteração: as temperaturas médias se mantêm inalteradas entre 50 graus Celsius negativos e 70 graus celsius negativos.

- Fora a área da Península, o resto está muito estável e não está sendo afetado - diz o glaciologista Jefferson Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do sul. - Mas é preciso levar em conta que estamos falando de um volume de gelo enorme, de uma espessura de até 4,8 mil metros. Não se pode esperar mudanças bruscas.

Visões de uma terra desconhecida
Mapa revela detalhes inéditos da Antártica

As agências americanas de espaço e de pesquisa geológica combinaram mil imagens do satélite Landsat 7 para criar o mais detalhado mapa da Antártica. O Mosaico de Imagens Landsat da Antártica (Lima, na sigla em inglês) mostra o continente gelado com detalhamento dez vezes superior ao melhor mapa disponível até agora. Ele é um dos 228 projetos desenvolvidos no Ano Polar Internacional, iniciado este mês, e pode ser visto na internet no portal http://lima.usgs.gov .

- Essas imagens nos dão, com um grau incrível de detalhes, aspectos da cobertura de gelo da Antártica e servem como fonte sobre muitas regiões que nunca foram mapeadas - afirmou Robert Bindschadler, cientista-chefe do Laboratório de Ciências da Hidrosfera e da Biosfera da Nasa, que supervisionou a seleção das imagens usadas para criar o mosaico.

A resolução dos sensores do Landsat é bem maior do que a da maioria das câmeras digitais, segundo Bindschadler:
- É possível registrar variações sutis da superfície que nos revelam o fluxo do gelo e as alterações na cobertura.

Com o novo mapa, os pesquisadores poderão, por exemplo, obter visões mais detalhadas dos vales secos da Antártica, localizados entre as camadas de gelo. Até hoje estavam disponíveis apenas imagens aéreas desses locais. O mosaico oferece imagens de alta resolução. Com a tecnologia do Landsat 7 os cientistas conseguiram produzir imagens muito limpas, praticamente sem nuvens.

Por meio do portal, na internet, cientistas, professores e estudantes poderão analisar regiões específicas da Antártica e ajustar os controles para diferentes níveis de detalhe.(R. J.)

O Globo, 08/03/2007, Ciência, p. 50

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