VOLTAR

O cassino agrícola

O Globo, Opinião, p. 6
Autor: FANJUL, Gonzalo
24 de Ago de 2010

O cassino agrícola

Gonzalo Fanjul

O economista britânico John Maynard Keynes tinha opiniões bem definidas sobre os mandarins financeiros do seu tempo: "Sugerir à City de Londres - centro financeiro da capital da Grã-Bretanha - que realize uma ação social em benefício do bem público é como discutir a Origem das Espécies com um bispo." Quase um século depois, os mercados se tornaram mais complexos e sofisticados, mas a maneira como os especuladores se aproveitam da debilidade ou da inexistência de regulação em benefício próprio mudou muito pouco.

Este é o caso do mercado de alimentos, onde as consequências do laissezfaire econômico ultrapassam os limites da decência.

Nos últimos três anos, os preços dos alimentos básicos sofreram em todo o mundo as variações mais expressivas já vistas em décadas. As causas deste ciclo de altas e baixas incluem uma combinação de fatores conhecidos que resultaram na diminuição da oferta e no aumento da demanda como a produção de biocombustíveis e o incremento do consumo de carne na Ásia. Mas há também outras variáveis envolvidas, tais como a desmedida especulação financeira. Quando a maioria dos setores tradicionalmente rentáveis perderam fôlego nas bolsas de valores da Europa e dos Estados Unidos, os especuladores voltaram sua atenção para a comercialização de matérias-primas como trigo, milho e soja, que passaram então a receber o mesmo tratamento financeiro que um chip ou uma hipoteca.

Os produtos financeiros, como os dos mercados de futuro e de opções que garantem a entrega das mercadorias em prazos e preços pré-acordados, são um recurso comum de compradores e vendedores para reduzir o risco inerente a qualquer mercado de produtos agrícolas. Mas dificilmente isso descreve o que tem acontecido nos últimos anos. A vertiginosa escalada inicial dos preços atraiu especuladores de grandes empresas como a Goldman Sachs e JP Morgan, que desenvolveram instrumentos derivativos e índices combinados de matérias-primas, multiplicando dessa forma as oportunidades financeiras mas também os seus riscos associados, tornando a agricultura mais um de seus cassinos.

No primeiro trimestre de 2008, enquanto os preços dos alimentos básicos subiam, os investidores aplicavam nesse mercado o montante de um bilhão de dólares por dia. A maior parte dessas aplicações era feita em forma de operações bilaterais, sem qualquer controle das bolsas de valores. Tais aplicações são conhecidas como operações OTC. Somente no mercado de trigo esses índices chegaram a dominar, em julho de 2008, 42% do mercado dos Estados Unidos. A crise precipitou a fuga maciça de capitais a partir destes e de outros mercados, e com ela a queda acentuada nos preços dos produtos em 2009.

A especulação tem contribuído para um mercado com preços mais elevados e menos previsíveis e as consequências são sentidas na maior parte dos países mais pobres do mundo. A Oxfam tem testemunhado como a extrema volatilidade nos preços dos produtos alimentícios afeta os consumidores e os produtores em situação de pobreza, incapazes de resistir às variações bruscas do mercado ou de explorar as oportunidades que ele oferece. Do Camboja à Nigéria ou à Guatemala, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) estima que o número de pessoas que passam fome aumentou durante este período em mais de 250 milhões, superando, pela primeira vez na História, um bilhão de seres humanos.

O que podemos fazer? Muitas medidas de reforma e regulação dos mercados financeiros que estão sendo aprovadas nos Estados Unidos e em outros países - como a transparência, a regulação dos derivativos e operações de controle de OTC - deverão limitar a atuação dos especuladores. Mas é necessário considerar medidas preventivas adicionais no caso de um mercado tão sensível para o bem-estar humano e determinante para a garantia do direito à alimentação. Esta é uma área onde a responsabilidade do G20 é inevitável e onde representantes do governo brasileiro, por exemplo, devem exercer a mesma liderança que demonstraram em casa com a implementação de políticas contra a fome que garantem a justiça alimentar, admiradas em todo o mundo. O resto é tratar câncer com aspirina.

Gonzalo Fanjul é diretor da organização não governamental Oxfam Internacional.

O Globo, 24/08/2010, Opinião, p. 6

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.