O Globo, Rio, p. 11
02 de Abr de 2009
O caos é verde
Protesto do Greenpeace na Ponte gera engarrafamento e mais poluição
Paula Autran, Ruben Berta e Taís Mendes
As palavras de ordem "clima e pessoas primeiro", adotadas pelo Greenpeace durante a manifestação que parou a Ponte Rio-Niterói ontem de manhã, pareciam ironicamente invertidas: foram justamente os motoristas presos num engarrafamento que chegou a 18km - e os gases de efeito estufa liberados por seus carros -- os maiores prejudicados pela ação dos ativistas ambientais. Segundo cálculos da ONG Iniciativa Verde, com base na quantidade de veículos que cruzam a ponte no horário, o congestionamento que durou a manhã inteira gerou uma emissão extra de dióxido de carbono (CO²) da ordem de 20 toneladas - sem contar os veículos pesados. Para compensá-la, seria necessário o plantio de aproximadamente cem árvores.
Com o objetivo de fazer um alerta sobre o aquecimento global para os integrantes do G20, que se reúnem hoje em Londres, a manifestação começou às 7h. Enquanto 11 ativistas paravam o tráfego de uma faixa de rolamento no sentido Rio, na altura do vão central, outros dez faziam um rapel para estender uma faixa de 50 metros de largura por 30 metros de altura com os dizeres "Líderes mundiais: clima e pessoas primeiro", em inglês. O protesto tumultuou o trânsito até a Rodovia Niterói-Manilha e também em Niterói e São Gonçalo. Os 21 manifestantes foram levados algemados para a delegacia da Polícia Federal em Niterói.
Segundo a concessionária Ponte S/A, o tempo médio de travessia entre 7h e 11h passou de 30 minutos para uma hora e dez minutos ontem.
Como resultado, dos 24 mil veículos que costumam cruzar a ponte neste horário, só passaram 17.500. O cálculo considerou ainda o consumo médio de gasolina de um veículo parado (1,4 litro por hora); o tipo de combustível usado pela frota do Rio (um terço usa álcool e dois terços, gasolina); e o rendimento médio de um motor a álcool (70% do de um motor a gasolina).
- Calculamos a emissão de gases com base nos 40 minutos a mais que os veículos levaram para fazer a travessia. É possível dizer que, de um modo geral, esses carros acabaram emitindo aproximadamente o dobro do que emitiriam de CO² - explica o engenheiro Ricardo Dinato, coordenador de inventário de emissão de gases de efeito estufa da Iniciativa Verde, que preferiu não julgar a ação do Greenpeace. - Não nos cabe criticar. Preferimos nos ater ao lado técnico da questão
Ato em hora de rush revolta motoristas
O protesto terminou por volta das 10h, com a chegada de reforços do Núcleo de Operações Especiais da Polícia Rodoviária Federal. Os dez ativistas que fizeram rapel aguardaram pendurados a chegada de técnicos de manutenção da ponte para serem içados e levados para a delegacia. Quatro carros dos manifestantes tiveram que ser rebocados para liberar a pista. O trânsito só se normalizou no fim da manhã.
A manifestação revoltou motoristas. A estudante de medicina Marcelle Rodrigues Pereira, de 23 anos, desistiu no meio do caminho de chegar ao trabalho, na Santa Casa de Misericórdia, no Centro do Rio. Ela saiu de Icaraí por volta das 7h10m, tentou uma saída alternativa, pelo Centro de Niterói, para chegar à ponte, sem sucesso.
- Por que prejudicar a vida de quem estava precisando trabalhar, só aumentando o trânsito e a poluição? - perguntou.
A publicitária Renata Pereira Santos, de 27 anos, não escondeu a raiva com o protesto.
Em vez de levar uma hora, ela passou quase duas horas e meia no ônibus até conseguir chegar ao trabalho:
- Não sei como permitiram que eles fizessem isso. Alguém poderia ter impedido, conseguiram provocar um verdadeiro caos.
Luiz Fernando Vieira era outro revoltado:
- Eles gastam anos para convencer um indivíduo a aderir à sua causa, mas minutos para arrebanhar milhares de antipatizantes.
O superintendente do Sindicato das Empresas de Transportes Rodoviários do Estado do Rio (Setrerj), Márcio Barbosa, considerou a manifestação "desastrosa". Ele disse que viagens de ônibus entre o Rio e Niterói, que costumam durar uma hora e dez minutos, passaram de duas horas ontem. Com isso, foi necessário aumentar o número de veículos em circulação para tentar atender aos usuários.
- O protesto pode ter um efeito moral, mas as pessoas tiveram o seu direito de ir e vir cerceado. A ponte deveria ter um plano de contingência para situações desse tipo.
A concessionária Ponte S/A informou que o protesto foi detectado "em tempo real" e que todas as providências possíveis foram tomadas de forma imediata. Cerca de 20 funcionários trabalharam na fluidez do trânsito. Os veículos usados pelos manifestantes foram rebocados em 40 minutos, após a autorização da PRF, pois foram abandonados sem as chaves. A concessionária informou ainda que apenas uma faixa de rolamento foi afetada.
No meio da tarde, os 21 ativistas foram liberados pela PF. Eles não foram indiciados nos crimes contra a segurança aeronáutica e marítima, desacato a autoridade e bloqueio de via de segurança nacional, conforme solicitado pela PRF.
- Quero pedir desculpas aos moradores de Niterói e de São Gonçalo pelo transtorno e agradecer porque, de certa forma, foram parceiros involuntários do protesto - disse o coordenador da manifestação, Paulo Adario, diretor da campanha Amazônia do Greenpeace. - Nossa intenção era interditar a pista por apenas 15 minutos, mas a curiosidade pública complicou o trânsito porque muitos reduziam a velocidade para observar. Logo depois chegou o reforço e a confusão gerou um congestionamento muito maior do que o esperado.
Questionado sobre as consequências do congestionamento provocado pelo protesto, que acabou gerando uma emissão maior de gases na atmosfera, Adario destacou que as pessoas deveriam usar menos seus carros e mais os transportes coletivos.
- Às vezes, a luta por um planeta melhor pode gerar um trânsito um pouco pior.
Manifestações polêmicas e com repercussão
Desde a sua fundação, em 1971, o Greenpeace se caracterizou por protestos polêmicos e midiáticos em defesa do meio ambiente. Em outubro daquele ano, foi realizada a primeira manifestação do grupo, contra testes nucleares dos EUA na região das Ilhas Aleutas, no Pacífico Norte. Num pequeno barco de pesca, um grupo de ativistas tentou impedir um teste, mas foi expulso da região pela guarda costeira americana. Se não conseguiu impedir o teste, o incidente pelo menos ganhou as manchetes dos jornais.
No Brasil, a primeira ação do grupo ocorreu em 1992, às vésperas do início da Conferência Mundial do Meio Ambiente: manifestantes fincaram 800 cruzes no pátio da usina nuclear de Angra para lembrar o aniversário da explosão da usina de Chernobyl. Em 2002, a entidade estendeu uma faixa no Cristo Redentor.
O Globo, 02/04/2009, Rio, p. 11
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