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O caos do lixo urbano

O Globo, Opinião, p. 7
Autor: SARAIVA, Henrique
24 de Set de 2008

O caos do lixo urbano

Henrique Saraiva

O resultado da pesquisa realizada em cidades brasileiras pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser) sobre "Mudanças Climáticas" foi manchete da página de Ciência do GLOBO. Impressionantes 71,9% dos entrevistados se declaram "altamente motivados" para aprender mais sobre o tema, considerado "prioridade nacional" por 68%. O interesse dos entrevistados teve origem no trabalho vencedor do Prêmio Nobel da Paz 2007, o Relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC/ONU) elaborado pela nata mundial de cientistas e pesquisadores, inclusive brasileiros.

Entre os cinco desafios ambientais mais citados, quatro têm relação com a gestão do lixo urbano:
Recursos hídricos: ameaçados por mais de 100 mil toneladas de lixo diariamente lançadas nas encostas e nos leitos de rios, além da contaminação das reservas subterrâneas pelo chorume dos lixões e aterros irregulares;
Redução da emissão de gases e aquecimento global: o biogás dos aterros, segundo o IPCC, é responsável por 5% do total dos gases estufa. Na Europa novos aterros de material biodegradável estão proibidos desde 1999. No Brasil, onde cerca de 60% do lixo urbano é orgânico, a solução de enterrar lixo é praticamente a única adotada. Estamos na contramão.

Energia: o lixo urbano é fonte de energia alternativa na Europa, na Ásia e nos EUA há mais de uma década. Mais de 130 milhões de toneladas de lixo por ano geram potência equivalente a uma Usina de Itaipu. Aqui esse combustível é enterrado!

Sendo atributo constitucional dos municípios, a gestão do lixo urbano deveria ser um dos temas centrais nas plataformas dos candidatos às próximas eleições. É um problema cuja solução dependerá exclusivamente dos prefeitos eleitos.

E vejam que o IPCC/ONU até brindou os candidatos com uma proposta para elaboração de suas plataformas de campanha. O capítulo "Gestão do Lixo Urbano", do premiado Relatório, oferece como diretrizes: incentivar o reúso e a reciclagem; evitar novas fontes de geração de biogás, usando o lixo orgânico e o não-reciclável como combustível em usinas de lixo com recuperação de energia; reduzir as emissões de biogás dos aterros existentes, captando o metano para gerar energia ou simples queima.

Usinas ambientalmente corretas de aproveitamento energético do lixo não-reciclável são economicamente viáveis e podem ser implantadas em parceria com a iniciativa privada. No Brasil, além da energia elétrica, as usinas podem gerar os Créditos de Carbono.

A situação caótica da destinação final do lixo urbano no Brasil precisa ter um fim. Os próximos prefeitos só precisam decidir quando vão começar a socorrer o planeta. O problema é deles, mas afeta a todos nós, povo e eleitores de hoje.

O Globo, 24/09/2008, Opinião, p. 7

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