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O canto triste de Maamá Dobaquê, o último pajé

Página 20-Rio Branco-AC
Autor: Juracy Xangai
29 de nov de 2004

Francisco Nonato Rufia é o depositário de todo o conhecimento recolhido por seus antepassados ao longo de milhares de anos

Em sua casa de paxiúba coberta com palha de jaci, Francisco Nonato Rufia Kaxinawá recebe os visitantes sob um teto forrado de feixes de amedoím recém-colhidos da praia. Ele fala pouco, presta muita atenção ao que lhe dizem e, sempre que pode, põe no colo um dos muitos netos que esta vida lhe deu.

Na aldeia Porto Rio, há pelo menos seis dias de batelão subindo o rio Purus a partir da cidade de Sena Madureira, Francisco é mais conhecido como "Maamá Dobâquê", que aos 60 anos de idade, 20 filhos e muitos netos, a cada entardecer olha triste para o horizonte fitando o rio que passa como a vida e não esconde sua profunda tristeza por ser o último pajé dentre as 12 aldeias Kaxinawás da Terra Indígena do Alto Purus.

"Minha mãe era Timá e aprendi tudo o que sei com meu pai conhecido como Tãnâ que era pajé antes de mim. Com ele passei vários anos aprendendo tudo sobre a cultura do povo Kaxinawá, o que significa cada coisa, de onde elas vem, a agricultura, tudo", afirma ele sem alterar a voz ou exaltar-se em qualquer sentido.

Grande na sua simplicidade ele esclarece que a formação de um pajé Kaxinawá consome alguns anos, pelo menos cinco deles dedicados a dietas rigorosas e ao aprendizado da cultura física e espiritual de sua gente. Aprende brincadeiras de criança, os jogos e festa de adultos, como também o preparo de remédios, as canções, além do segredos da caça, pesca, da agricultura e da alma.

"Nós gostamos de nos divertir, as crianças brincam e os adultos também, é bom, todos tem que brincar. Nossa grande festa é o Mariri, todos participam dela, dançam e cantam, comem bastante. A gente usa nas costas um enfeite com pena de gavião real, ele serve para nos dar mais força e saúde", garante.

Em tempos antigos não havia uma aldeia sem pajé e, a maioria dos antropólogos considera que a inexistência dele causa um rompimento dos mais jovens com as tradições de seu povo o que vai matando sua cultura.

Mais que curandeiro, o pajé é o depositário de todo o conhecimento recolhido por seus antepassados ao longo de milhares de anos e sua morte é como a destruição de uma verdadeira biblioteca de saberes sobre como viver na floresta.

Vivendo numa aldeia em que a maioria dos moradores estão convertidos à igreja Assembléia de Deus, Francisco não teve dentre os jovens nenhum que quisesse dedicar-se a aprender a arte que tem garantido a sobrevivência de seu povo em incontáveis gerações. "Eles não se interessam em aprender. Eu não sei escrever falo com o coração aberto, só que eles não entendem, mas quando estão doentes vem de todas as aldeias perguntar qual é o remédio ou para ficar se tratando até poder voltar para casa".

A cada entardecer, volta a fitar o rio e entristece. Diante da realidade de sua idade avançada e da falta de um aprendiz, quando perguntado sobre o que acontecerá quando ele morrer responde compassivamente. "Acabou!" E continua com seu jeito "zen" na certeza de que faz a sua parte.

Iriqui, a esposa do pajé

Nascido em meio a um povo no qual os rapazes se casam aos 15 ou 16 anos e as meninas entre 12 e 14, Francisco foi mais tardio, casou-se aos 20 com Albertina Oliveira Kaxinawá, mais conhecida entre seu povo como Iriqui.

O fato de ser esposa do pajé não lhe dá regalias, pelo contrário, deve ser exemplo para as mais jovens e mostrar como se comporta uma verdadeira esposa Kaxinawá.

Desde que foi morar com Francisco, há 40 anos, ela se levanta logo que o dia clareia, ateia fogo à lenha do fogão de barro, põem sobre ele um panelão de água para ferver com uma porção de bananas compridas. Em torno da panela e junto às brasas arruma outras bananas bem maduras.

O sobrinho que mora com eles vai chegando molhado do lago de onde traz algumas branquinhas, um bodó, um grande caranguejo e alguns peixinhos.

A neta, também Iriqui, vai tirando a barrigada dos peixes e põe na bacia enquanto a avó sai e volta pouco tempo depois com um maço de folhas de sororóca. A neta observa silenciosa quando ela pega meia dúzia de folhas para formar uma canoa onde deposita dois ou três peixes antes de dobrar o maço ao meio e amarrar as pontas.

Com calma vai ajeitando os pacotes de sororóca sobre a grade que já serviu de proteção a um ventilador e agora arde sobre as brasas do fogão de onde acaba de sair a panela das bananas.

Enquanto assam-se os peixes, Irquiri derrama a água do panelão em outra vasilha e as bananas sobre uma gamela de madeira. Sem pressa começa a amassar as bananas uma a uma até que tudo se transforme numa massa disforme que vai misturar à água do cozimento para formar um saboroso mingau.

Por tradição e costume, oferece os alimentos aos visitantes e espera que eles comam primeiro enquanto os da casa apenas olham. Em seguida reúne-se a família para saborear o moquém de peixe com alguns pingos de limão ou pimenta, conforme a preferência, junto com a banana assada. Por último, toma uns bons goles de mingau (mani mutsá).

Depois do quebra jejum, as mulheres se dividem, umas cuidando das panelas, pratos e talheres, outras seguem para o roçado buscar o de comer no almoço. Os homens e rapazes decidem se vão pro roçado, pra pescaria, pra caçada ou pra a rede. Vida de índio não tem relógio, não tem dia de semana, não tem pressa para nada, mas tem fartura.

Depois que volta do roçado, Iriqui varre o terreiro, junta os basculhos sobre um couro de veado para arrastá-lo em seguida por uma alça de couro que faz as vezes de carrinho de mão levando o lixo ao monturo. Senta-se para fiar algodão que usará para fazer faixas para o braço e a cabeça, embornais, redes, o que alguém estiver precisando.

Entardece. Ela vai à cacimba banhar-se, volta trazendo um panelão d'água sobre a cabeça. Ajeita os cabelos e senta-se sem pressa na rede carregando uma das netas que não esconde a satisfação. Afinal de contas, ninguém vive só para trabalhar, ninguém vive amor e sem carinho.

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