O Globo, Economia, p. 27
Autor: VIEIRA, Agostinho
04 de Set de 2014
O campo se veste de noiva
Agostinho Vieira
Não há nada de estranho ou de inusitado no assédio que os três principais candidatos à presidência fazem aos representantes do agronegócio. Afinal de contas, eles representam 25% do PIB, um terço dos empregos formais e a maior parcela das nossas exportações. A cada visita que Dilma, Marina e Aécio fazem a um dos inúmeros eventos do setor, novos ajustes são feitos no vestido da cobiçada noiva.
O problema é que não existe um interlocutor, são vários. Os interesses dos produtores de grãos do Mato Grosso nem sempre são os mesmos de quem planta cana em São Paulo ou arroz no Rio Grande do Sul. O pessoal da soja é responsável pela indicação do atual ministro da agricultura e tem uma relação razoável com a presidente Dilma. Já os usineiros estão eufóricos com as promessas de Marina de priorizar o etanol. No fundo, todos gostariam mesmo que Aécio estivesse mais bem colocado nas pesquisas, mas sabem que poderão trabalhar com o futuro presidente, seja ele quem for.
Até Marina Silva, que um dia já foi considerada adversária, aparece como uma boa alternativa. Principalmente se fizer um governo de coalizão com o PSDB. A oposição que a candidata fazia à nova versão do Código Florestal é coisa do passado. O mesmo vale para as críticas fortes aos transgênicos, que agora vivaram um dado da realidade. Alguns acreditam que a senadora, se eleita, criará o sonhado superministério da agricultura, englobando a Pesca e o Desenvolvimento Agrário.
Apesar das diferenças que dividem os diversos segmentos do setor, há uma pauta básica que eles esperam ver atendida. O item um é crédito. O item dois é crédito. E o item três também é crédito. Todos subsidiados. Depois disso vem infraestrutura para escoar a produção, investimentos em inovação e tecnologia, o fortalecimento da Embrapa e a criação de um novo seguro agrícola.
Mas há também uma agenda ligada à sustentabilidade que vem crescendo muito nos últimos anos. É claro que entre colher lucros e plantar árvores, não há qualquer dúvida sobre qual será a escolha. A novidade, no entanto, é que após anos de debates eles já não tratam o tema como ameaça e falam em oportunidades.
O novo Código Florestal prevê, por exemplo, o replantio de alguma coisa entre 18 milhões de hectares e 22 milhões de hectares de florestas. São poucos os que ainda torcem o nariz para estes números. A implantação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) ainda caminha lentamente, mas permitirá identificar com precisão as áreas de produção e as que precisam ser preservadas. Mas é no Programa ABC (Agricultura de Baixo Carbono) que estão as maiores novidades.
Ele cria linhas de financiamento a juros baixos para os produtores que adotarem práticas sustentáveis. Como recuperação de pastagens degradadas, plantio direto, fixação biológica de nitrogênio e tratamento de dejetos de animais. Até agora, 20 mil agricultores já receberam esses recursos, mas a burocracia do Banco do Brasil e a concorrência de outras linhas de crédito têm dificultado o avanço da iniciativa. Esta semana, a FGV-SP divulgará um documento analisando o projeto e sugerindo aos presidenciáveis medidas para tornarem o processo mais ágil.
Com a queda do desmatamento na Amazônia nos últimos anos, a agropecuária nacional passou a ser a principal responsável pelas nossas emissões de gases de efeito estufa. Mas isso deve mudar rapidamente. De acordo com o professor Eduardo Assad, da Embrapa, só a fixação de carbono nas plantações de cana-de-açúcar, representará uma redução de 60 milhões de toneladas de CO2/ano. O que equivale a tudo que as indústrias brasileiras emitem hoje.
O Brasil tem atualmente 60 milhões de hectares de áreas plantadas, que produzirão, este ano, cerca de 160 milhões de toneladas de grãos. A expectativa é de que essa produção supere as 300 milhões de toneladas nos próximos anos, só com os ganhos de produtividade. Mas a melhor notícia é que ainda há espaço para crescer, talvez até dobrar o que se produz, sem que seja preciso derrubar nenhuma árvore.
O caminho é transformar os 50 milhões de hectares de pastagens degradadas e os 11 milhões de hectares de florestas degradadas em sistemas agroflorestais. Com atividades agrícolas, pecuárias e florestais sendo realizadas numa mesma área. O mundo espera que sejamos capazes de alimentar grande parte dos nove bilhões de habitantes que ocuparão o planeta em 2050. É possível. Temos gente e tecnologia para enfrentar esse desafio de forma sustentável. Basta querer.
O Globo, 04/09/2014, Economia, p. 27
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