OESP, Negócios, p. N6
03 de Mai de 2010
O brasileiro que perdeu a empresa para o J.P. Morgan
Para tentar retomar o negócio que fundou, Pedro Moura Costa, pioneiro do crédito de carbono, enfrentou uma verdadeira epopeia
Melina Costa
O carioca Pedro Moura Costa é dono de uma biografia extraordinária. Aos 46 anos, ele já foi pesquisador na Universidade de Oxford, desenvolveu o primeiro sistema de certificação de crédito de carbono do mundo e fundou a EcoSecurities, empresa que se tornou líder na comercialização desses créditos. Seus estudos para o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (em inglês, IPCC) receberam o Prêmio Nobel da Paz junto com o ex-vice-presidente americano Al Gore.
No fim do ano passado, Costa protagonizou o episódio mais malsucedido de sua trajetória - mas não menos extraordinário. Depois de uma série de desentendimentos com o conselho de administração da EcoSecurities, que tinha o capital aberto na Bolsa de Londres, ele deixou a gestão da companhia e viveu uma verdadeira epopeia para tentar retomar o seu controle. Com a ajuda do banco BTG Pactual, Costa fez três ofertas hostis, mas acabou perdendo para o banco J.P. Morgan a empresa que ele mesmo fundou e liderou por mais de dez anos.
"Foi um turbilhão de emoções", disse Costa, por telefone, de sua casa em Oxford, na Inglaterra. "Se eu tivesse conseguido recuperá-la, trabalharia com o todo o entusiasmo. Mas, como a gestão não estava de acordo com o que eu acreditava, preferi me distanciar." Ao final de seis meses de disputa, Costa vendeu sua participação de 10% na EcoSecurities para o banco americano.
A sucessão de fatos narrados por Costa ao Estado demonstra o drama de uma situação ainda incomum entre empresários brasileiros: a perda do controle de suas próprias empresas. "Aqui, a maioria dos empresários que vai à bolsa mantém grande parte do capital. Na Europa e nos Estados Unidos, há mais companhias pulverizadas", diz Ricardo Fontes, professor de finanças da Insper.
Os desentendimentos entre Costa e o conselho começaram a se manifestar no início do ano passado, com o aprofundamento da crise financeira global. Na época, Costa ocupava a presidência da EcoSecurities. A ação da companhia, que atingiu £ 4,20 em 2007, chegou a valer apenas
£ 0,17 no começo de 2009.
De seu lado, o conselho independente defendia a cartilha óbvia dos tempos difíceis: cortes, cortes e cortes. Já o empresário acreditava que as reduções acabariam custando a liderança da EcoSecurities. Costa também se ressentia do que considerava um excesso de controles.
"A empresa estava sendo mais direcionada para a contenção de riscos que para o crescimento. Isso não pode acontecer em uma atividade essencialmente nova, como a de crédito de carbono", diz. "A EcoSecurities sofria com a influência negativa de um conselho que não entendia o setor."
Na defesa de uma gestão mais agressiva, Costa sugeriu o fechamento de capital - as ações em baixa foram a motivação extra. "A intenção era não ter de divulgar todos os nossos passos e agir mais rapidamente", diz. O problema era convencer o conselho.
Diante dos embates, Costa deixou a presidência. "Achei que seria melhor comprar a empresa que tentar trocar o conselho, o que considero uma atitude drástica e traumática", diz. Seu primeiro passo foi procurar o BTG Pactual. "Queria o apoio de um grupo brasileiro e fiquei sabendo que eles eram agressivos em aquisições", diz. Juntos, o banco e o empresário formaram a joint venture Guanabara Holdings.
Leilão. Menos de dois meses depois, Costa fez sua primeira oferta hostil pela EcoSecurities, a um preço de £ 0,60 a ação. A partir daí, o que se viu foi um verdadeiro leilão. A empresa de energia EDF resolveu fazer sua própria oferta, no valor de £ 0,75. A ameaça fez com que Costa costurasse um acordo com a concorrente, que passou a fazer parte de seu consórcio.
Como a oferta da Guanabara foi considerada inadequada pelo conselho, Costa fez mais uma, de £ 0,77, também rejeitada. Foi lançada, então, a proposta final, de £ 0,90. Dias depois, porém, o conselho da EcoSecurities anunciou que estava em negociações com mais um possível comprador. Tratava-se do banco J.P. Morgan, que ofereceu £ 1 por ação e, cerca de dez dias depois, aumentou para £ 1,05. Por esse valor, os acionistas - inclusive Costa - aceitaram. "O preço estava inflado. Então, passamos de comprador a vendedor", diz Costa. Em dezembro do ano passado, depois de concluir a aquisição, o J.P. Morgan fechou o capital da EcoSecurities.
A disputa pela Ecosecurities aconteceu em meio à incerteza no mercado de crédito de carbono. Hoje, esse negócio é guiado pelas regras estabelecidas no Protocolo de Kyoto, que vence em 2012 e ainda não tem um substituto. Além disso, o aumento do rigor da Organização das Nações Unidas (ONU), responsável por gerenciar esse mercado, tem atrasado uma série de projetos de companhias como a EcoSecurities (desde a sua fundação, há 13 anos, a empresa nunca deu lucro).
Para o J.P. Morgan, que pagou um preço considerado alto até para o seu fundador, isso não parece problema. "Uma parte significativa do valor do investimento está no período pré-2012", diz o banco em resposta. "Estamos confiantes que regulações serão implementadas e permitirão que esse mercado evolua. Também estamos altamente focados em atingir a lucratividade".
Costa não só concorda que há futuro para o mercado como acredita que a EcoSecurities contribuiu para esse fim. "Não me arrependo de ter aberto o capital da EcoSecurities. Foi importante para estimular o crescimento do setor que, há alguns anos, era ficção científica", diz.
Batalha
Abr. 2009
Diante de discordâncias com o conselho, Pedro Moura Costa deixa a presidência executiva
da EcoSecurities
Jun. 2009
Com o BTG Pactual, Costa faz a primeira oferta hostil pela empresa, por £ 0,60 a ação
Jun. 2009
Costa fecha um acordo com a EDF, empresa de energia que também havia apresentado uma oferta pela EcoSecurities. Depois, o empresário fez a sua segunda oferta, de £ 0,77 a ação
Set. 2009
Costa apresenta a sua oferta derradeira, de £ 0,90 por ação
Set. 2009
O J.P. Morgan faz uma oferta pela EcoSecurities de £ 1 a ação e, em seguida, aumenta o valor para £ 1,05
Out. 2009
A oferta do J.P. Morgan é aceita pelos acionistas e Costa vende sua participação na empresa
OESP, 03/05/2010, Negócios, p. N6
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100503/not_imp546043,0.php
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