O Globo, Ciência, p. 25
21 de Dez de 2009
'O Brasil saiu do armário'
Minc anuncia fundo para o Cerrado, mais transparência e articulação com países emergentes
Eliane Oliveira
Brasília
Passada a ressaca de Copenhague, quando líderes das principais economias do mundo tiveram um desempenho pífio ao negociar um acordo para minimizar os efeitos do aquecimento global, o Brasil já prepara medidas de curto prazo para se fortalecer na próxima reunião da ONU sobre o clima, que ocorrerá daqui a um ano, no México. Entre as medidas a serem adotadas estão a criação do Fundo Cerrado - semelhante ao que já existe para a Amazônia -, a implementação de uma rede de monitoramento de informações e acertos com outros países emergentes.
- Finalmente saímos do armário no sentido ambiental e a repercussão foi muito positiva para o Brasil, apesar do fracasso das negociações - avaliou o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc.
O ministro se referiu ao fato de o país, sempre criticado por causa do desmatamento na Amazônia, ter recebido vários elogios durante a conferência, com o discurso feito de improviso pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo Minc, Lula chegou a hesitar em falar no evento.
O ministro afirmou que o governo brasileiro também está disposto a dar maior transparência ao uso dos recursos do Fundo Amazônia, "sempre levando em conta a soberania nacional". Já foram aprovados cinco projetos e a expectativa é que, já em janeiro de 2010, outros dez saiam do papel. Minc explicou que a ideia é criar, em conjunto com o BNDES, um site na internet divulgando ações e resultados.
- Com isso, esperamos acabar com essa paranoia de alguns países doadores, que não se sentem estimulados a contribuir, por não saberem o que está sendo feito com o dinheiro - disse o ministro.
Lula busca aliados internacionais
Minc adiantou que Lula deve sancionar, provavelmente amanhã, o Plano Nacional de Combate aos Efeitos das Mudanças Climáticas, já aprovado no Congresso. O plano tem como meta principal uma redução progressiva do desmatamento na Amazônia na próxima década.
- Temos a obrigação moral de tocar para valer nosso plano - disse o ministro.
A busca de aliados internacionais também está nos planos do governo.
Lula orientou o governo federal a entrar em contato com os países em desenvolvimento e as nações mais pobres, criando uma situação de solidariedade. Assim, ficará mais fácil enfrentar os ricos na próxima conferência e cobrar resultados.
- Levamos em conta que quem emite muitos gases-estufa, como Brasil, China e África do Sul, deve cortar muito também - ponderou Minc. - Mas não é o caso dos países mais pobres.
Estes precisam de apoio, como recursos para combater, por exemplo, a desertificação na África.
Quanto ao Fundo Cerrado, o ministro adiantou que o mecanismo será criado nos mesmos moldes do já válido para a Amazônia, que conta com a contribuição de doadores internacionais.
Com o novo projeto, o governo pretende aumentar a área do Cerrado ocupada por reservas legais. Hoje, este índice é de apenas 20%, o que mostra como o bioma ainda é pouco protegido. Na Amazônia, este percentual já chega a 80%.
Minc revelou que o último dia da Conferência de Mudanças Climáticas da ONU em Copenhague foi "um dos dias mais tristes" de sua vida.
Os EUA, segundo o ministro, foram os grandes responsáveis pelo clima ruim que pairou sobre o evento.
- A COP-15 foi marcada por posições egoístas de países, com cada um olhando para o seu umbigo. Houve até mesmo discussões ideológicas, como a Venezuela e Cuba, que, sem nunca terem se destacado nas lutas ambientais, rejeitaram o acordo final, apenas para se contrapor aos EUA
Para China e EUA, COP-15 foi 'positiva'
No dia seguinte ao fim da COP15, a conferência recebeu definições opostas entre alguns de seus participantes. China e EUA, os dois maiores emissores de gases-estufa, consideraram o encontro "positivo". Cuba e Bolívia, por outro lado, estão entre as nações que criticaram a falta de resoluções concretas.
Assessor da Presidência dos EUA, David Axelrod definiu o acordo firmado na capital dinamarquesa como "um grande passo à frente". Segundo ele, a conferência só não teria cumprido seu papel "se tivesse havido um colapso nas negociações".
A chanceler alemã Angela Merkel também preocupou-se em desfazer o clima de frustração.
Em entrevista ao jornal "Bild am Sonntag", ela julgou a COP-15 como "o primeiro passo em direção a uma nova ordem climática mundial - não mais, embora não menos do que isso".
Em nota divulgada ontem, Yang Jiechi, ministro das Relações Exteriores da China, classificou os resultados da COP15 como "significativos e positivos", por darem respaldo a um princípio do Protocolo de Kioto, segundo o qual todas as nações têm responsabilidades "comuns mas diferenciadas".
Já o boliviano Evo Morales convocou para uma "mobilização contra o fracasso" da COP15, anunciando que organizaria um encontro alternativo. E o exlíder cubano Fidel Castro dedicou sua coluna "Reflexões" a Copenhague, acusando o encontro de não ter sido democrático e definindo o discurso do presidente dos EUA Barack Obama como "enganador.
O Globo, 21/12/2009, Ciência, p. 25
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.