VOLTAR

O Brasil que esta mudando (e poucos percebem...)

JT, Artigos, p. A2
Autor: MATIAS, Antonio Jacinto
17 de Jan de 2004

O Brasil que está mudando (e poucos percebem...)

Antonio Jacinto Matias

No pequeno município baiano de Lençóis, na Chapada Diamantina, a 410 quilômetros da capital Salvador, a maioria das famílias sobrevive com renda mensal abaixo de R$ 70,00, quase sempre garantida por "mães lavadeiras" ou avós aposentadas. Neste cenário, é fácil imaginar crianças sem estudo e sem futuro. Mas Lençóis, surpreendentemente, desafia as previsões mais pessimistas. Desde 1999, as crianças da cidade beneficiam-se do trabalho desenvolvido por uma ONG local, a Associação Grãos de Luz, que implantou um dos mais importantes e consistentes programas sociais do País, integralmente dirigido à educação.
O Grãos de Luz e Griô, como é chamado, venceu o Prêmio Itaú-Unicef Educação & Participação 2003 concorrendo com 1.834 programas inscritos por ONGs de várias regiões do Brasil. Seu maior mérito é provar que, com criatividade e perseverança, pode-se tornar menos difícil o cotidiano de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade e abrir-lhes a possibilidade de um futuro melhor, fortalecendo, ao mesmo tempo, os vínculos com a terra.
Graças a esse programa, os 9 mil habitantes de Lençóis, 92% deles com raízes afro-indígenas, podem orgulhar-se de uma atitude social transformadora, que garante a crianças e adolescentes o acesso a atividades complementares à escola, como artesanato, música e dança. A idéia central dos idealizadores do Grãos de Luz e Griô é valorizar a cultura popular - arte, brincadeiras, danças e cantigas ajudam a preservar tradições e buscar raízes, resgatando com pesquisas e relatos orais os costumes do povo da região.
Um programa como esse, que envolve escola, comunidade e família, é um exemplo de inovação num Brasil que está mudando, mas poucos percebem, e onde há milhares de ONGs atuando a favor da educação. Para essas entidades não existem problemas, mas desafios: trata-se de garantir que crianças e jovens se reconheçam como sujeitos ativos e participantes de seus grupos sociais.
Outro programa que merece destaque é o terceiro colocado (Poty Reñoi), que surpreendeu pelo inusitado. Na região de Dourados, a 280 quilômetros de Campo Grande (MS), a ONG Kaiowá/Guarani atua na reserva indígena Tey Cuê, na Aldeia Caarapó, atendendo adolescentes com dificuldades para freqüentar a escola, pois precisam trabalhar para ajudar no sustento da casa. São mais de 600 famílias das etnias caiovás e guaranis, quase 4 mil pessoas, que vivem em precárias choupanas de madeira e sapé, cercadas de pequenas roças de milho, mandioca, feijão e arroz.
Desde o início do Poty Reñoi há dois anos, houve grandes avanços - e é este Brasil que precisamos aprender a enxergar e admirar. É claro que, obrigados pela pobreza, os índios ainda deixam a aldeia em busca de trabalho no corte da cana e muitos voltam viciados em drogas ou álcool. Também ocorrem ainda casos de gravidez precoce, outra das causas da evasão escolar. Mas hoje crianças e adultos ocupam o tempo com uma série de atividades educativas, relacionadas à realidade da aldeia. Há aulas de artesanato, agricultura, dança e música. As crianças estudam o guarani e os professores nativos resgatam junto aos adolescentes as tradições do povo indígena. Sem dúvida, são programas que revelam um Brasil que desperta orgulho, que está mudando, e poucos percebem...
A mudança no comportamento da população atendida por esses projetos é nítida e significativa, mas todos eles padecem de um mesmo mal: a falta de sustentabilidade, causada pela carência de recursos ou de gestão.
Iniciativas como o Prêmio Itaú-Unicef, que há oito anos identifica e incentiva o trabalho educacional de ONGs de todo o País, precisam multiplicar-se, de forma a garantir que projetos fundamentais para a construção de um Brasil melhor não sejam interrompidos, mas ampliados e fortalecidos.
Pelo menos 60% das empresas brasileiras fazem algum tipo de investimento social, um movimento que gera o equivalente a cerca de 1,5% do PIB ao ano, perto de R$ 19 bilhões. Esse valor parece, a princípio, muito significativo, mas o fato é que boa parte dele resume-se a doações e ações isoladas, sem foco definido e, portanto, sem resultados efetivos. Ainda há muito espaço a ser preenchido pelo investimento social privado.
Investir no social com seriedade requer, no entanto, definições fundamentais, como a busca de uma aliança estratégica entre poder público, iniciativa privada e organizações da sociedade civil. Só através dessa articulação, de forma sustentável, é que se conseguirá a transformação social. Mas há que se ter paciência, pois o retorno do trabalho social é gradativo e muitas vezes lento.

Antonio Jacinto Matias é vice-presidente de programas sociais da Fundação Itaú Social e vice-presidente executivo do Banco Itaú

JT, 17/01/2004, Artigos, p. A2

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.