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O amanhã é hoje

O Globo, Opinião, p. 15
Autor: VIANNA, Sérgio Besserman
14 de Jun de 2015

O amanhã é hoje
A inação nos levará a cenários de pesadelo, com elevação da temperatura entre 4 e 6 graus

Sérgio Besserman Vianna

As próximas duas ou três décadas serão o palco de uma transformação histórica de enormes proporções. A humanidade irá transitar da civilização dos combustíveis fósseis para uma economia de baixo carbono.
O atraso de décadas no enfrentamento do aquecimento global já colocou a humanidade frente a um mau negócio: mesmo que a ambição de impedir uma elevação da temperatura média do planeta superior a 2 graus Celsius (o "limite do perigo", ou seja, o risco mais elevado que é racional aceitar) neste século seja realizada (o que exigirá a mais acelerada e abrangente transição tecnológica e nos processos produtivos e de consumo da História ), gastaremos muitíssimo mais recursos financeiros do que se tivéssemos agido antes e haverá enormes impactos na vida humana, especialmente sobre as populações mais vulneráveis, os mais pobres.
Por outro lado, a inação nos levará a cenários de pesadelo, com elevação da temperatura entre 4 e 6 graus Celsius. E mesmo um meio-termo, como uma elevação de 3 graus Celsius, significa 50% mais do que o "limite do perigo". Algo como: é perigoso dirigir numa curva a mais de 100km por hora, três graus de elevação significa que faremos a curva a 150km por hora.
No caminho até a Conferência da ONU sobre mudanças climáticas em Paris no fim deste ano, os países apresentarão suas contribuições nacionais, negociações e revisões dessas ofertas de redução das emissões de GEE serão feitas e um acordo provavelmente será anunciado. Mas a sua ambição e a credibilidade de que será cumprido dependem da mobilização da sociedade civil planetária, fenômeno em gestação no século XXI.
É possível ser otimista: a robustez da ciência das mudanças climáticas e a intensidade com que as pessoas em todo o mundo já estão sentindo os impactos da alteração do clima mudaram fortemente, segundo pesquisas recentes, a opinião pública - e, portanto, a opinião dos eleitores - sobre o tema em muitos países. Estão também mobilizadas e ativas as ONGs globais e locais dedicadas ao tema.
Prefeitos de todo o mundo, através de organizações mundiais de cidades como o C40 (o prefeito do Rio é seu presidente ), Iclei, Habitat da ONU e outras, assombrados pelos altos custos sociais e financeiros, pressionam os chefes de Estado.
Grandes empresas globais - sabedoras de que a indefinição sobre o enfrentamento do aquecimento global inibe investimentos de longo prazo por trazerem grande incerteza sobre os preços do futuro e sobre a base tecnológica da produção - passam também a pressionar por um acordo.
Mas é preciso que essas intenções se transformem em pressão política efetiva. Nesse sentido, a nova Encíclica que será lançada pelo Papa Francisco brevemente - na qual a Igreja Católica se posiciona de forma clara em favor de um olhar socioambiental ativo e consciente, com ênfase nas mudanças climáticas - certamente será uma poderosa influência.

Sérgio Besserman Vianna é economista

O Globo, 14/06/2015, Opinião, p. 15

http://oglobo.globo.com/opiniao/o-amanha-hoje-16435947

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