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O álcool e o clima

O Globo, Tema em Discussão, p. 6
Autor: GONÇALVES, Carlos Walter Porto
01 de Abr de 2007

O álcool e o clima

Nossa opinião
Temor ideológico

O Brasil começou a estimular a produção de álcool carburante na década de 70, no regime militar (governo Geisel), como alternativa para reduzir a dependência do petróleo importado. Ainda não havia a província petrolífera de Campos e o país comprava no exterior entre 70% e 80% do seu consumo de combustíveis.

Foi desenvolvida uma tecnologia para motores exclusivamente a álcool e adaptados os demais para receber uma mistura de etanol com gasolina. Entre altos e baixos, a indústria sucroalcooleira se modernizou e a utilização do carro a álcool, que havia entrado em baixa por causa da crise de abastecimento na década de 80, voltou, desta vez numa versão mais sofisticada: o flex-fuel, capaz de também queimar gasolina ou gás. Um grande incentivo ao consumo do álcool carburante viria do front ecológico, do temor crescente de que, a continuar a tendência das emissões de carbono, o aumento da temperatura no planeta provocará catástrofes inimagináveis. Assim, o álcool brasileiro e o programa de outros biocombustíveis limpos começaram a chamar a atenção do mundo.

Recentemente, dos Estados Unidos. Como, juntos, Brasil e Estados Unidos respondem por 70% da produção mundial de álcool, nada mais natural, na hora em que se planeja incentivar o consumo de biocombustíveis, que os dois países trabalhem de forma conjunta, conforme proposta do presidente Bush, bem aceita por Lula. O tema estava na agenda da conversa entre os dois prevista para ontem, em Camp David.

Mas, como a obviedade das razões técnicas não consegue superar barreiras ideológicas, parte da esquerda, com o MST à frente, bombardeia essa aproximação. Afinal, nada que implique o avanço da modernização no campo interessa a quem sonha com uma agricultura pré-capitalista baseada em minifúndios sem escala de produção, fadados a viver de subsídios estatais.

Os números provam que não há risco de existir um "deserto verde" de cana-de-açúcar no Brasil. Hoje, a área produtiva do país é de 62 milhões de hectares, dos quais cerca de seis milhões (10%) produzem cana, para a obtenção de açúcar e álcool. Segundo o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues há ainda 22 milhões de hectares adequados para a cana, sem contar 90 milhões de hectares cultiváveis numa enorme área de pastagens, o que significa não se avançar com canaviais sobre a Amazônia. O resto é luta política.

Outra opinião
Inaceitável

Carlos Walter Porto Gonçalves

Em todo país onde há exploração de petróleo e gás, tem havido contestação à ação das grandes empresas do setor, como na Bolívia, Equador, Nigéria, Colômbia, México, Indonésia, Timor, entre outros. Além disso, as mais recentes projeções sobre as reservas disponíveis de petróleo apontam para a escassez.

Diante disso, duas alternativas começam a aparecer. De um lado, o uso da energia nuclear, a única das alternativas tecnológicas também dominada por setores do atual complexo científico-industrial-militar. A outra alternativa apresentada é o biocombustível, que não é novidade para os brasileiros. O secular latifúndio monocultor de cana-de-açúcar soube se mover, nos anos 70, para transformar a sua crise específica numa questão nacional de alternativa energética, que deu na criação do Pró-Álcool.

A julgar pelo que tem sido a expansão dos modernos latifúndios monocultores, esse modelo é inaceitável de um ponto de vista socioambiental. Invocar o biocombustível por causa do efeito estufa não nos deve fazer esquecer os enormes danos ecológicos e sociais que as grandes monoculturas têm nos causado. No Brasil, no período compreendido entre 1992 e 2002, quando o agronegócio e seus latifúndios monocultores se tornaram a menina-dos-olhos do modelo neoliberal, só na agricultura se perderam dois milhões de empregos.

Além disso, a sua expansão tem sido acompanhada pelo aumento do desmatamento e da violência. O desperdício de água é grande, já que cerca de 70% da água da irrigação se perdem por evaporação.

Nos cerrados, o desequilíbrio hidrológico entre as chapadas e as veredas vem se acentuando com o uso dos pivôs centrais. É grande também a perda de diversidade biológica dos cerrados. O complexo que une grilagem, madeireiras, pastagem e o agronegócio vem avançando e colocando em risco a Amazônia. Encontrar uma alternativa tecnológica ao modelo tecnológico fossilista em crise não parece difícil. Esperamos que não sejam necessários mais 40 anos para que nos apercebamos que o efeito estufa tem sua causa num modelo de desenvolvimento injusto e depredador.

O Globo, 01/04/2007, Tema em Discussão, p. 6

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