O Globo, Rio, p.18
31 de Jan de 2006
Novo vazamento atinge a Baía de Sepetiba
Daniel Engelbrecht
A Baía de Sepetiba recebeu nos últimos cinco dias 15 milhões de litros de água contaminada por metais pesados que vazaram dos reservatórios da Ingá Mercantil, em Itaguaí, devido à chuva. O problema já estava anunciado desde o ano passado: por falta de recursos, a UFRJ, responsável pelo programa emergencial de tratamento dos efluentes, foi suspendendo aos poucos o trabalho, até interrompê-lo totalmente no fim de dezembro.
Segundo o professor João Alfredo Medeiros, do Instituto de Química da UFRJ, a quantidade de metais que atingiu a baía ainda não é capaz de provocar uma mortandade, mas começa a comprometer a recuperação do meio ambiente. Ontem ainda havia vazamentos, mas em menor quantidade.
Medeiros disse que a água que vazou estava contaminada principalmente por zinco. Ele calcula que dez toneladas de zinco tenham atingido o Saco do Engenho, na Baía de Sepetiba. Substâncias mais perigosas, como cádmio e chumbo, também vazaram, mas em quantidades bem menores.
Um técnico da Serla esteve ontem à tarde na Ingá e constatou que a barragem por enquanto não corre risco de se romper. Em 1996, o rompimento de um dique despejou 50 milhões de litros de água com um teor de contaminação mais elevado que o atual na Baía de Sepetiba. Em abril de 2003, aconteceu outro rompimento.
Por ordem judicial, as estruturas dos reservatórios foram reforçadas pela Serla em 2003, ao custo de mais de R$ 3 milhões, mas ficaram sem manutenção. Em vistoria realizada em dezembro, o Ibama detectou 19 pontos de vazamento.
O tratamento dos efluentes e o bombeamento de água contaminada dos canais para a lagoa de contenção, feitos desde 2003 pela UFRJ, está parado. A universidade recebia recursos da União, do governo do estado e da prefeitura de Itaguaí, condenados numa ação civil pública. As três esferas, no entanto, discordam do método empregado pela universidade e conseguiram mudar a decisão em julho do ano passado, no Tribunal Regional Federal. Os depósitos judiciais de R$ 5 milhões foram suspensos. No último dia 19, a 7 Vara Federal intimou novamente os três réus a colaborarem com os esforços da UFRJ.
Segundo Medeiros, os equipamentos alugados, que incluíam caminhões, uma draga e uma escavadeira, foram devolvidos e mais da metade dos 40 funcionários, dispensados:
- Só temos uma equipe de emergência trabalhando.
A Serla informou que ainda não foi notificada. Já o Ibama está analisando a ordem judicial e poderá recorrer.
Projeto pode ser solução
O deputado Carlos Minc (PT), presidente da Comissão de Meio Ambiente da Alerj, apresentou em dezembro um projeto de lei para transformar o terreno da Ingá Mercantil em área de relevante interesse de recuperação ambiental. A medida pode ajudar na solução definitiva para o problema dos rejeitos tóxicos. A idéia é leiloar a propriedade, que tem elevado valor de mercado, e usar parte dos recursos no tratamento da montanha de resíduos. Pelo projeto, seria criado um plano de recuperação ambiental e aberta uma conta especial para receber os recursos do leilão.
- A propriedade está avaliada em R$ 110 milhões, mas são necessários R$ 35 milhões para resolver o problema dos rejeitos químicos. Seria feito então um leilão e R$ 35 milhões iriam obrigatoriamente para a conta especial vinculada ao projeto de descontaminação. O restante ficaria com a Ingá, para pagamento dos credores - disse o deputado.
O projeto de lei deve ser votado em fevereiro. O deputado pediu que a tramitação seja feita em regime de urgência.
O Globo, 31/01/2006, Rio, p. 18
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