O Globo, Planeta Terra, p. 12-13
03 de Abr de 2012
Novo tipo de rede promete ajudar a proteger toninhas
Cláudio Motta
claudio.motta@oglobo.com.br
O som é a base do sofisticado sistema de navegação dos golfinhos. Porém, as redes de pesca, espalhadas por pescadores em toda a costa, são barreiras praticamente invisíveis para estes hábeis nadadores, que acabam presos e mortos afogados, já que precisam respirar fora d'água. A situação é mais trágica para espécies ameaçadas de extinção, sobretudo a toninha (Pontoporia blainvillei), o mais ameaçado golfinho do Brasil e vítima frequente das redes dos pescadores.
Acabar com a pesca acidental, assim chamada porque os golfinhos, sem valor comercial, não são alvos dos pescadores, é um dos principais objetivos da ONG Projeto Biopesca. A ideia é fazer as redes de pesca tornarem-se visíveis aos golfinhos, que, assim, poderiam desviar das armadilhas. Com a colaboração da Universidade Federal do Rio Grande, a organização testa três diferentes tipos de redes, como parte de um estudo internacional patrocinado por Lenfest Ocean Program e coordenado pelo New England Aquarium.
A iniciativa inédita no Brasil também conta com a ajuda dos pescadores da Boutique de Peixes e do Mercado de Peixe Ocian, em Praia Grande, São Paulo. Eles receberam os três tipos de redes de emalhe: uma contendo sulfato de bário na composição do fio de nylon, outra com nylon mais rígido e, por fim, a rede padrão, normalmente utilizada pelos pescadores.
Observadores da ONG acompanham os pescadores e avaliam a eficácia das redes, tanto na diminuição das capturas acidentais de espécies ameaçadas quanto na obtenção de peixes.
Os ambientalistas sabem que não teria sucesso a distribuição de um equipamento que não seja produtivo na pesca tradicional. Para evitar a pesca acidental, a rede tem que ser visível para os cetáceos, mas deve continuar sendo eficiente na captura de pescado.
- A intenção é distribuir redes que peguem menos golfinhos, mas mantenham a produtividade com os peixes - explicou a veterinária Juliana Marigo, que trabalha no projeto Biopesca.
- São dois tipos de rede, além da comum, que servem como controle. Esperamos que sulfato de bário seja percebido pelos golfinhos, sobretudo pela toninha. Isto porque a rede deve refletir melhor o som.
O sulfato de bário deixa a rede mais rígida. Por isso é necessário usar a rede de nylon mais duro, para saber exatamente o que faz diferença: se a presença do metal ou a maior rigidez. Os testes começaram em outubro passado. Após a etapa com as redes colocadas no fundo do mar, será a vez de testar a tecnologia nas chamadas redes de superfície. - Ainda não dá para dizer se estamos tendo bons resultados. A fase de testes vai até dezembro - disse Juliana.
- Há relatos de resultados em que a captura dos golfinhos diminui, mas a rede não foi eficiente na pesca. Além disso, há testes feitos na Argentina.
Nosso trabalho faz parte deste esforço global para diminuir as capturas. Se identificarmos que esta rede não funciona, buscaremos outras tecnologias até achar a solução definitiva.
Rio vai mapear seus estoques de pescado
Um projeto inédito no Rio de Janeiro pretende fazer o mapa dos estoques de peixes do estado. Especialistas da Fundação Instituto de Pesca do Estado do Rio de Janeiro (Fiperj) acompanharão as embarcações e identificarão com GPS ou mapas os locais de pesca.
Quarto produtor de pescado marítimo do Brasil e líder na produção de sardinhas, o Rio ainda não sabe exatamente quantos e quais peixes são retirados de suas águas.
A contagem mais recente, referente ao ano passado, foi realizada somente nos portos de Niterói, São Gonçalo, Angra dos Reis, Cabo Frio e São João da Barra. Quase 80 mil toneladas de pescado foram capturadas pela frota pesqueira marítima costeira e oceânica, de acordo com o Projeto Estatística Pesqueira, executado pela Fiperj em convênio com o Ministério da Pesca e Aquicultura e a UFRJ.
Em cada porto, um perfil diferente desta atividade. Em Niterói e em São Gonçalo, onde foram desembarcadas 34 mil toneladas em 2011, a variedade de espécies é maior. A sardinha ganha em volume, mas a frota de bonito listrado, que é vendido principalmente enlatado como um tipo de atum, também é representativa.
Em Angra dos Reis, o forte é a sardinha.
Foram 27 mil toneladas no ano passado. Como no Brasil a pesca desta espécie é proibida entre primeiro de novembro e 15 de fevereiro, e entre os dias 15 de junho a 31 de julho, a sazonalidade neste porto é muito grande.
Também há pesca de camarão, que, apesar de grande valor comercial, não se sobressai no volume.
O dourado é o peixe mais importante entre as 17 mil toneladas que desembarcaram em Cabo Frio no ano passado.
Já em São João da Barra, com um movimento anual de apenas 1,5 mil tonelada, a pesca artesanal tem destaque, aparecendo, principalmente, o camarão de sete barbas e o peroá.
- Há portos, como o de Macaé, em que o trabalho precisaria ser iniciado, reconhece Fracyne Vieira, coordenadora de pesca marítima da Fiperj. - Os estoques de peixe no Brasil estão concentrados no Sudeste e no Sul. A sardinha, nos últimos dois anos, tem se mostrado mais presente no litoral fluminense.
Embarcações de Santa Catarina vêm pescar em águas do Rio e muitas delas não desembarcam aqui. Estes peixes não são contabilizados no nosso trabalho de estatística.
Um dos objetivos do trabalho é atrair a indústria pesqueira para o Rio. De acordo com o secretário estadual de Desenvolvimento Regional, Abastecimento e Pesca, Felipe Peixoto, a atividade perdeu força desde os anos 1980. Mas o volume de peixes capturados no estado, de acordo com ele, justifica uma retomada.
- A pesca é uma atividade que gera um número de empregos muito alto.
Estamos trabalhando para dar incentivos para que esta indústria retorne - afirmou Peixoto. - A ideia é ampliar o projeto de estatística, com mais cidades sendo monitoradas. Queremos conhecer a realidade da produção no estado do Rio. Assim, fica mais fácil conseguir recursos, atrair empresas e obter investimentos no setor.
Além de, é claro, analisar o impacto da pesca no bioma. (C.M.)
O Globo, 03/04/2012, Planeta Terra, p. 12-13
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