OESP, Vida, p. A24
03 de Jul de 2011
Novo Código Florestal põe anfíbios em risco
Redução das Áreas de Proteção Permanente em margens de rios pode gerar extinções localizadas, diz estudo
Chico Siqueira
A redução de 30 para 15 metros das Áreas de Preservação Permanente (APPs) em margens de riachos com até 5 metros de largura, que consta do novo do Código Florestal, vai colocar em risco e pode promover uma extinção localizada de espécies de anfíbios que vivem nos lagos e matas do interior de São Paulo.
Só na região noroeste, 38 espécies de sapos, rãs e pererecas correm risco de desaparecer de determinados hábitats, cujas matas ciliares serão reduzidas em até 50% por força da nova lei.
A constatação está em um estudo realizado em fragmentos de florestas de APPs de seis municípios da região (Pindorama, Palestina, Onda Verde, Matão, Magda e Macaubal) pelo pesquisador Fernando Rodrigues da Silva, autor de tese de doutorado pelo Departamento de Zoologia e Botânica da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de São José do Rio Preto.
Estudioso dos anfíbios há mais de dez anos, Silva ficou de 2008 a 2009 analisando populações desses animais na região e constatou que, quanto mais distante elas ficam dos fragmentos das florestas, maior o seu índice de mortalidade. "Essas espécies se reproduzem em lagos temporários formados pela chuva e nos brejos dos pastos. E quando chega a época de seca, vão para esses fragmentos de florestas. Ocorre que, quando mais distante está a mata, mais mortes ocorrem."
"Constatamos que há mais riqueza de vida nos lagos mais próximos das matas que naqueles que estão mais distantes. Um lago que está a 50 metros, por exemplo, tem muito mais vida que um que está a 100, 150 metros de distância", continua.
Segundo Silva, com o novo Código, os fragmentos poderão ser desmatados, distanciando-se dos micro-hábitats dos animais. "Espécies desses hábitats vão desaparecer ou perder consideravelmente suas populações", diz.
Outras regiões. O pesquisador - cujo estudo foi publicado na revista Science e aprovado em banca em fevereiro deste ano - chamou a atenção para o fato de que a ameaça não está restrita apenas ao interior de São Paulo.
Segundo Silva, a Amazônia, o Cerrado e a Mata Atlântica serão os biomas mais prejudicados, porque neles há espécies endêmicas que vivem em micro-hábitats dentro das matas, que vão sofrer com o desmatamento e a seca causada pela redução dessas áreas. "Há estudos que comprovam que os anfíbios que vivem na Mata Atlântica sofrerão um impacto muito forte."
O pesquisador diz que a lei também punirá espécies que precisam dos fragmentos de APPs para se locomover em busca de reprodução e de alimentos. "Essas áreas, geralmente fragmentos de galerias (às margens dos rios), servem como corredores e abrigo para diversas espécies que procuram matas maiores", diz. "Sem essas pequenas matas, elas terão dificuldade para se locomover e, consequentemente, para se alimentar e se procriar."
Aves também sob ameaça
Na semana passada, o Estado revelou que uma pesquisa da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), campus de Sorocaba, mostra que pelo menos 50% das aves mais comuns na região vivem e se reproduzem em fragmentos de matas naturais e não em áreas agrícolas e pomares. De acordo com o estudo, a possível redução das reservas prevista na proposta do novo Código Florestal pode levar ao desaparecimento de diversas espécies. O trabalho, dissertação de mestrado do pesquisador Marcelo Goncalves Campolim, foi realizado na zona rural de Pilar do Sul.
OESP, 03/07/2011, Vida, p. A24
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110703/not_imp740060,0.php
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