A Crítica, Cidades, p. C6.
27 de Ago de 2002
Iniciativas locais de desenvolvimento sustentável, o impacto das rodovias abertas em meio à floresta e o melhor modo de governança para reduzir esses impactos foram os temas do primeiro evento sobre a Amazônia, realizado no Fórum dos Povos - encontro simultâneo à Rio+10, que reúne Organizações Não-Governamentais (ONGs) e representantes da sociedade civil de todo o mundo. Convocado pelas organizações brasileiras Instituto socioambiental (ISA), Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), o evento "Amazônia: Governança das Fronteiras de Ocupação e Desenvolvimento Sustentável" reuniu no centro de convenções de Nasrec, em Johanesburgo, entidades da França, Suécia, Canadá e China.
O alerta sobre o perigo que representa a abertura e pavimentação indiscriminada de auto-estradas para a preservação das florestas e da biodiversidade na Amazônia foi feito pelo dirigente do Ipam, Paulo Moutinho. "Oitenta por cento da área desmatada na Amazônia brasileira estão situados nos 50 quilômetros de entorno das auto-estradas", disse.
Moutinho citou a Transamazônica e a estrada Cuiabá-Santarém, ambas construídas na época da ditadura militar, como símbolos máximos deste efeito devastador. "Ao longo destas e de outras rodovias menores, a biodiversidade vem sendo atacada há anos pela prática extensiva da pecuária, pela existência de florestas agroindustriais e pela prática criminosa de queimadas", afirmou.
A abertura de estradas, segundo Moutinho, não é danosa por si só. O problema é que elas foram construídas, e até hoje são geridas, com base em um modelo de desenvolvimento atrasado, que não leva em consideração a sustentabilidade da floresta ou o bem-estar das populações locais.
Esse tipo de abordagem permitiu que 15% da Amazônia brasileira, algo em torno de 60 milhões de hectares, área equivalente ao território da França, já tenham sido dizimados. "A Amazônia brasileira perde em média 1,5 milhão de hectares de floresta por ano." O ritmo de desmatamento deve crescer ainda mais se outras rodovias - algumas delas já projetadas ou iniciadas - forem construídas. "A estimativa feita pelo Ipam é que, nos próximos 25 ou 30 anos, de 18 a 27 milhões de hectares de floresta serão desmatados graças à abertura de rodovias", revelou Moutinho.
Nos últimos anos, o desmatamento amazônico vem acentuando os efeitos do fenômeno climático El Niño, pela repetição acelerada do ciclo fogo-nebulosidade-seca-fogo. A exploração madeireira, somada ao El Niño, tem aumentado consideravelmente a ocorrência de incêndios florestais e diminuído a intensidade das chuvas. Isso tem provocado um crescimento na emissão de carbono na atmosfera.
Segundo o Ipam, a elaboração de uma política de governança das fronteiras de ocupação da Amazônia é a chave para mitigar os efeitos do desmatamento florestal. Uma pesquisa feita pelo instituto, em 200 municípios vizinhos à estrada Cuiabá-Santarém - que tem mil quilômetros de extensão e uma área desmatada em seu entorno que representa 5% da Amazônia brasileira - demonstra que iniciativas de desenvolvimento sustentável já envolvem 170 mil pessoas na região.
Nas comunidades pesquisadas foram encontradas iniciativas de extração sustentável de madeira, combate à extração indiscriminada, planejamento de manejo florestal e conclusão da demarcação de terras indígenas e de áreas de proteção ambiental. "Essas iniciativas podem dar certo se forem apoiadas por políticas públicas, o que não acontece no Brasil", disse Moutinho. Por enquanto, o entorno da Cuiabá-Santarém continua dominado pela monocultura da soja, pelos ranchos de pastagem e pelas áreas ocupadas pela agroindústria controlada por grandes grupos econômicos.
A Crítica, 28/08/2002, Cidades, p. C6.
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