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Novas espécies em ilhas remotas do Brasil

O Globo, Ciência e Vida, p. 34
23 de mar de 2006

Novas espécies em ilhas remotas do Brasil

Tulio Brandão
Enviado especial
CURITIBA.
Remotas e desconhecidas pela maioria da população, as ilhas oceânicas brasileiras representam alguns dos mais promissores e menos explorados reservatórios da biodiversidade. A variedade da vida das ilhas oceânicas - no Brasil e no exterior - é um dos grandes temas da 8 Conferência das Partes da Convenção de Diversidade Biológica (COP8), em Curitiba. No Brasil, estudos revelam a descoberta de espécies marinhas e a necessidade de preservar esses ambientes.
As ilhas oceânicas brasileiras estão reunidas em quatro arquipélagos - São Pedro e São Paulo, Atol das Rocas, Fernando de Noronha e o conjunto formado por Trindade e Martin Vaz. Um estudo publicado no livro "Ilhas oceânicas - da pesquisa ao manejo", que será lançado amanhã na COP8, apresenta a descoberta de 15 novas espécies de esponjas nas ilhas oceânicas brasileiras.
Nova fonte para a produção de remédios
O estudo foi realizado por uma equipe coordenada pelo biólogo marinho Fernando Moraes, do Museu Nacional da UFRJ, que investigou a diversidade dessas regiões e registrou outras novidades.
- Das espécies nunca antes registradas, pelo menos 10 são endêmicas (encontradas apenas na região estudada). Além disso, encontramos pela primeira vez esponjas em Trindade. Foram levantadas 23 espécies diferentes no local. Em Noronha, registramos 76 espécies, mas esse número pode chegar a 100, já que ainda temos muitas coletadas e não identificadas.
A descoberta de tantas esponjas nas ilhas oceânicas tem ainda um possível aproveitamento pela indústria farmacêutica. Algumas espécies encontradas no Brasil podem ser utilizadas em produtos como antibióticos, novas substâncias antitumorais, marcadores do câncer de mama, produtos para o sangue, reguladores de atividade enzimática, compostos contra a malária e antialérgicos.
Moraes destaca a Discodermia dissoluta , encontrada no Arquipélago de São Pedro e São Paulo, entre as esponjas usadas pela indústria farmacêutica. Essa espécie contém a discodermolida, uma substância com forte atividade antitumoral, atualmente em fase de estudos clínicos para chegar ao mercado. Trata-se de um composto capaz de destruir diversos tipos de câncer in vitro , cuja ação é semelhante à de um produto extraído da casca de uma árvore.
No livro, organizado pelo botânico do Museu Nacional Ruy José Válca Alves, há também um aprofundado estudo sobre a geologia das ilhas oceânicas. Dois dos quatro arquipélagos do gênero no país - Trindade/Martin Vaz e Fernando de Noronha - são vulcões extintos, segundo o autor do levantamento, o geólogo João Wagner de Alencar Castro, também do museu.
- Essas ilhas fazem parte de um alinhamento transversal à cadeia meso-oceânica (conjunto montanhoso submarino que separa o Brasil e a África). Apesar de os dois arquipélagos terem origem vulcânica, é pouco provável que volte a haver atividade nessas regiões. Trindade, no entanto, é o único ponto no Brasil onde é possível identificar o desenho de um cone de vulcão - explicou Castro.
O pesquisador explica ainda que, pelo menos do ponto de vista geológico, a Ilha de Trindade é a maior montanha do Brasil:
- A ilha está sobre uma profundidade de 5.500 metros. Se somarmos os 600 metros do pico mais alto, daria 6.100 metros. Não há nada parecido no Brasil.
Cabras eram ameaça à Ilha de Trindade
Mesmo sendo extremamente isolada, a ilha de Trindade sofreu por muito anos com um problema trazido pelo homem. E o extermínio de cabras e outras espécies domésticas foi a solução encontrada para permitir a recuperação do meio ambiente. A erradicação já foi concluída em Trindade, onde já viveram 800 caprinos, além de 600 ovelhas e 300 jericos, num esforço conjunto do Museu Nacional da UFRJ e da Marinha do Brasil ao longo dos últimos dez anos. Essas espécies domésticas afetaram drasticamente a flora de Trindade.
O pesquisador Ruy José Válca Alves explicou que no passado a cabra foi introduzida sistematicamente pelo homem em ilhas inabitadas para ajudar possíveis náufragos:
- Era uma idéia altruísta. Ao encontrar um animal doméstico e conhecido, o homem teria mais capacidade de sobrevivência. Só que elas se propagam numa velocidade assustadora e destróem a flora nativa rapidamente. Hoje, governos de vários países já reconhecem a importância da eliminação dos animais ferais nas ilhas. Somos a favor da vida, mas há casos em que a intervenção é necessária.
Os animais foram mortos a tiros depois de várias tentativas de resgate. Mas, segundo o pesquisador, as cabras fugiam das armadilhas.

O Globo, Ciência e Vida, 23/03/2006, p. 34

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