CB, Opinião, p. 23
Autor: FARIA, Ivan Dutra
26 de Jan de 2008
A nova fé ambiental
Ivan Dutra Faria
Mestre e doutor em política, planejamento e gestão ambiental, é consultor legislativo do Senado Federal para a área de meio ambiente
Santo Agostinho acreditava estar o mal na ausência de ordem e que o principal objetivo do diabo era criar desordem. É bem possível que o diabo de Santo Agostinho esteja em plena atividade nos dias de hoje, a julgar pelo uso indiscriminado de conceitos da ciência com significados totalmente diversos do original, muitas vezes para fins pouco ou nada científicos.
No final de 2007, por exemplo, a matéria de capa de uma revista semanal brasileira de grande circulação foi, mais uma vez, o aquecimento global. Ao longo da reportagem, elaborou-se uma síntese das informações apresentadas pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas.
Conhecido pela sigla em inglês IPCC, esse órgão divulgou previsões que encontram forte oposição em parcela significativa de cientistas - denominados "céticos" por aquela reportagem.
O trabalho jornalístico foi severamente prejudicado, quase ao seu final, por grave deslize de seus autores. Lamentavelmente, ao elaborarem uma matriz com as contrastantes visões do IPCC e dos "céticos" acerca dos principais efeitos das mudanças climáticas sobre o planeta, os jornalistas acrescentaram uma coluna ao conjunto, na qual determinavam "quem está certo" no conflito.
Não fica clara na matéria a origem de tamanha clarividência e capacidade analítica. Mas restou evidente que aqueles jornalistas se julgam capacitados para definir o lado que tem razão - em uma batalha na qual estão envolvidos, em ambos os lados, centenas de doutores e pós-doutores em climatologia.
Ainda pior é o fato de, nas semanas seguintes, a seção de cartas da revista não registrar um comentário sequer a respeito dessa desmedida pretensão científica dos autores da reportagem.
Infelizmente, não se trata de fato isolado. As questões ambientais globais vêm se transformando em matéria de crenças e seitas.
Todo mundo se acha no direito de opinar - com a convicção dos convertidos. Não há, no inconsciente coletivo, distinção clara entre as mudanças climáticas e o aquecimento global. Não existe compreensão do rigor com que a ciência estuda as mudanças em contraponto ao fenômeno midiático do aquecimento global - que parece resultar do conhecido movimento pendular da história.
A nova posição do pêndulo, a rigor, compensa o mito do resfriamento global, da nova era glacial e do inverno nuclear, surgido na década de 1970.
Evidentemente, não são poucos os motivos para preocupação. O planeta realmente parece dar sinais de estresse, causado por um modelo capitalista perdulário e devorador de recursos naturais que se acredita finitos.
Mas esses problemas não devem ser enfrentados com base na fé, mas por bem balanceada combinação de ciência e política, baseada na cooperação honesta e idealista entre as partes.
Muito se tem falado sobre o fim das utopias. Vivemos um início de século que se fundamenta em um pragmatismo de mercado em contraponto ao idealismo libertário que marcou várias gerações. Nesse contexto, nova realidade vem sendo construída, com a convicção de que o mercado é capaz de "salvar o planeta". Tanto assim que a tese do aquecimento global se converteu em catalisador de ponderáveis forças políticas e da formação de atraentes unidades de negócios.
Esse mercado abrange amplo espectro da sociedade, que inclui, em seus limites, organizações bem-intencionadas e oportunistas clássicos. Como o mercado não se sustenta sem fetiches, proliferam congressos, seminários, viagens internacionais, contratos de consultoria, produções audiovisuais - e muita, muita exposição à mídia.
O pano de fundo é a repetição farsesca da história, pontuada pela intermitente visão apocalíptica do fim dos tempos.
Nem por um segundo se deve duvidar da possibilidade de, em um futuro não tão distante, os pavorosos cenários desenhados pelo IPCC se tornarem realidade. Mas não por uma questão de fé.
Essas análises devem ser avaliadas pela ciência. Ocorre que essa não é baseada em princípios sustentados pela fé, mas na busca constante de processos confiáveis de intervenção no mundo material. A fé e a ciência podem convergir, dialogar e coexistir pacificamente. Entretanto, o verdadeiro cientista deve ter a humildade de aceitar que a natureza é caótica, confusa e imprevisível.
O clima talvez seja o mais complexo e o mais caótico dos sistemas com que um cientista pode se deparar. Por isso, as construções arrumadas e elegantes são criações dos cientistas para poder enfrentar o caos.
Jamais serão imutáveis ou proféticas. Para enfrentar os graves problemas previstos por modelos probabilísticos da ciência, precisamos de governantes com visão idealística e humanitária, mas, acima de tudo, dependemos de cientistas honestos e competentes. Já temos oportunistas e profetas demais.
CB, 26/01/2008, Opinião, p. 23
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