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Nova corrida do ouro

CB, Brasil, p.18
07 de abr de 2005

Nova corrida do ouro
Acordo entre garimpeiros e o governo permitirá a retomada da exploração de minério em Serra Pelada, no Pará. Ao contrário do passado, extração será apenas industrial e restrita aos trabalhadores cadastrados
Ullisses Campbell
Da equipe do Correio
Cerca de cem mil homens armados de pá e picareta cavaram em plena floresta amazônica um buraco do tamanho do estádio do Maracanã, na década de 80. Garimpando com as mãos, tiraram de Serra Pelada o equivalente a US$ 1 bilhão em ouro. No início da década de 90, a mina daquele imenso arraial se exauriu para garimpagem manual. E o buraco virou um lago de 500 metros de diâmetro e 300 de profundidade. Feito fênix, no entanto, Serra Pelada vai ressurgir das cinzas. O governo federal intermediou um convênio inédito entre sindicato e cooperativas de garimpeiros e até o final do ano o sonho mais popular do Brasil, a corrida do ouro de Serra Pelada, estará de volta.
Mas o Ministério das Minas e Energias (MME) garante que aquela cena miserável que o país inteiro conheceu no passado, o formigueiro humano de gente marrom subindo e descendo barrancos, não será reprisada. Dessa vez, não haverá garimpagem manual porque o ouro está encravado em rochas profundas. Na nova fase, o minério será extraído industrialmente”, avisa Claudio Scliar, secretário-adjunto de Geologia, Mineração e Transformação Mineral.
Também não adianta ao brasileiro comum arrumar as malas rumo à Serra Peleda para realizar o sonho dourado, como no passado. A permissão de lavra será dada apenas às cooperativas e ao Sindicato dos Garimpeiros e só terá direito ao ouro quem estiver cadastrado. As entidades já começaram a atualizar os dados dos veteranos e está cobrando R$ 10 de cada garimpeiro. Juntas, as cooperativas e o sindicato têm mais de 50 mil nomes. Até junho, o recadastramento se encerra e o próximo passo será pedir a concessão para lavra ao governo. Em seguida, os garimpeiros terão de contratar empresas de mineração para fazer pesquisa e trazer maquinários para perfurar o solo.
Empresas do Japão, Estados Unidos e até da China já se mostraram interessadas em extrair ouro de Serra Pelada. Com os garimpeiros em pé de guerra na região desde que a mina a céu aberto acabou, as empresas ficaram em compasso de espera. Agora, com a paz selada e a interferência do governo federal, as negociações entre mineradoras e garimpeiros serão retomadas.
Produção em alta
Atualmente, cinco empresas nacionais e estrangeiras garimpam ouro industrialmente no Brasil. Em 2003, juntas, elas extraíram do subsolo 28,7 toneladas de ouro. A venda desse minério fechou em R$ 922 milhões. No ano passado, foram encontradas 27 toneladas do metal precioso. Os dados ainda são parciais.
Quando estava em processo de privatização, a Companhia Vale do Rio Doce, que tem concessão para explorar minério na região próxima à Serra Pelada, divulgou na Gazeta Mercantil que havia feito uma pesquisa e que há uma jazida de 500 toneladas de ouro nas galerias subterrâneas onde outrora era o garimpo. O ideal é que se faça uma nova pesquisa para descobrir a quantidade de ouro naquela região. Mas onde houve ouro no passado, é óbvio que ainda há”, diz Claudio Scliar.
As duas maiores minas de ouro em atividade no país estão na Bahia e em Minas Gerais. A que funciona perto da cidade de Belo Horizonte, Nova Lima, tem galerias com quatro quilômetros de profundidade. O governo tem de deixar bem claro para a população que essa nova fase da mineração de ouro em Serra Pelada não terá aquele sonho brilhante de enriquecer da noite para o dia, que ficou comum 25 anos atrás”, ressalta o geólogo Arthur Bessa, da Universidade Federal do Pará.
No apogeu de Serra Pelada, os homens trabalhavam basicamente cavando o chão. A terra que era retirada do solo era posta em sacas de até 35 quilos e carregadas nos ombros até um local seguro. Em seguida, a terra era peneirada cuidadosamente. Cada garimpeiro fazia até 50 viagens e, no final do dia, o trabalhador já havia transportado no lombo das costas 1,7 tonelada de terra. Mas valia a pena. No final do dia, era comum a maioria das pessoas encontrar alguns gramas de ouro”, recorda-se o atual presidente do Sindicato dos Garimpeiros de Serra Pelada (Singasp), Raimundo Benigno Moreira.
Segundo o prefeito do município de Curionópolis, Sebastião Curió, com o convênio feito com as empresas de mineração, os garimpeiros filiados serão cotistas. Coronel da reserva e ex-deputado federal, Curió é hoje o presidente da maior Cooperativa dos Garimpeiros de Serra Pelada (Cogasp). As cotas de cada um, explica Curió, será definida pelo tempo de serviço no garimpo e pela propriedade que o garimpeiro tem em Serra Pelada. Se ele tiver um barracão, por exemplo, a participação no lucro será maior”, diz o ex-garimpeiro.
O NÚMERO
50 mil pessoas já estão cadastradas junto ao Sindicato dos Garimpeiros para extrair ouro em Serra Pelada
Um símbolo da esperança
Segundo dados do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), órgão vinculado ao Ministério de Minas e Energia, há no país cerca de 80 garimpos manuais em dez estados. O termo garimpeiro vem do vocábulo pejorativo grimpeiro, que quer dizer homem que sobe nas alturas. No passado, eles escalavam montanhas rochosas com ouro para fugir do fisco. Hoje, o termo não tem conotação pejorativa. Garimpeiros são apenas homens que trabalham quebrando cascalho em busca do metal precioso.
Assim como a conotação negativa, garimpo é uma atividade tipicamente do passado. Se a nova fase de Serra Pelada fosse manual, poucos teriam condições de garimpar. Mais de 80% das pessoas cadastradas para trabalhar têm mais de 50 anos. Por conta do trabalho insalubre, muitos têm problemas no pulmão e na coluna.
A corrida do ouro em Serra Pelada produziu lendas que até hoje resistem. Prostitutas do mundo inteiro foram para Curionópolis (PA) faturar, oferecendo seus serviços aos trabalhadores. Elas recebiam em ouro puro. Tinha mulher nova e bonita que saía com mais de dez homens numa única noite. Uma delas montou um hotel e hoje é mulher da sociedade em Marabá”, conta o garimpeiro veterano Pedro Morais, 58 anos.
Outra lenda famosa é a vida de Parazinho, um dos garimpeiros que mais encontraram ouro em Serra Pelada. Suas mãos seriam abençoadas e onde ele cavava havia metal precioso. A história mais conhecida sustentaentata que ele queria viajar para o Rio de Janeiro, mas os vôos estavam lotados naquele dia. Eu vi. Ele fretou um avião da Varig em Marabá e foi sozinho para o Rio”, conta Pedro.
Na década de 90, quando Serra Pelada virou uma cidade fantasma, cerca de mil pessoas insistiram em não arredar o pé de lá. Essas famílias viram o buraco virar um imenso lago e o local ficou conhecido mundialmente por conta do alto índice de malária e hanseníase. Com o anúncio de será reaberto para escavação, as primeiras famílias de garimpeiros já começaram a dar as caras na região.
Não acredito que haverá aquele mundo de gente vasculhando a terra em busca de ouro novamente. A Vale do Rio Doce manteve uma mina em atividade até 2002 no Igarapé Baía, próximo à Serra Pelada, e extraía 5 toneladas de ouro por ano. Ainda assim nunca houve movimento expressivo de garimpeiros pelas proximidades”, diz o geólogo Arthur Bessa.
A historiadora Lúcia Azevedo, que publicou livros sobre o ciclo do ouro, conta que Serra Pelada virou símbolo de esperança porque a economia estava quebrada, na década de 80, e o país mergulhado em recessão. O célebre formigueiro de Serra Pelada produzia não oficialmente 40 toneladas de ouro por dia, o que elevou o Brasil do oitavo para o quarto maior produtor do mundo. Aquela paisagem de miséria que o mundo todo conheceu faz parte do passado”, diz a historiadora. Atualmente, o ouro, junto com ferro e o alumínio, é responsável por 51% do valor produzido pela indústria mineral no país. (UC)

CB, 07/04/2005, p. 18

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