Diário do Nordeste
Autor: JOSÉ ANDERSON SANDES
20 de Set de 2007
Sempre que falamos sobre a questão indígena olhamos para a Amazônia nunca para os índios do Nordeste. A mostra "Índios - Os Primeiros Brasileiros" aberta, hoje, às 19 horas, no Centro Cultural Dragão do Mar, começa a construir uma nova imagem do índio nordestino. Com a curadoria do antropólogo e professor João Pacheco de Oliveira, a exposição foca o indígena do Nordeste desde o período da colonização até o Brasil contemporâneo. É um trabalho de fôlego apresentado através de objetos, fotos, vídeos, músicas, documentos e instalações. João Pacheco, carioca, 59 anos, é professor titular do Museu Nacional (UFRJ) e professor visitante da Fundação Joaquim Nabuco. Já publicou entre outros livros "A Viagem de Volta - Política, Etnicidade e Religião entre os Indígenas do Nordeste", "Nosso Governo: os Tikunas e o Regime Tutelar", "Ensaios de Antropologia Históric" , "Indigenismo e Territorialização" e "Hacia una Antropologia del Indigenismo". Nesta entrevista, ele fala sobre os índios nordestinos e da exposição "Os Primeiros Brasileiros"
Quando falamos das populações indígenas sempre nos voltamos para tribos da Amazônia. O que fez o senhor se interessar pelos indígenas do Nordeste?
A minha trajetória como pesquisador começou com os índios da Amazônia, particularmente os Tikunas, tribo próxima a Manaus. Com o desenvolvimento deste trabalho me pareceu imprescindível entender não apenas os índios da Amazônia, mas também os do restante do Brasil, as populações que fizeram o primeiro contato com os portugueses no século XVI do restante do País. Embora o olhar do leigo não identifique, existem vários traços parecidos, constante entre estas tribos. Nossa sociedade e nosso processo histórico é que consolidaram perfis diferenciados.
O senhor que dizer que haviam poucas diferenças entre as tribos da Amazônia e do Nordeste brasileiro no início da colonização portuguesa?
Olha, no momento da descoberta as diferenças eram mínimas, muito pequenas. Nossos índios possuíam todo um esplendor cultural, mantinham instituições (parentesco, políticas, rituais religiosos) extremamente fortes. Não haviam muitas diferenças entre as tribos que habitavam o País. As migrações eram comuns. Tribos que habitavam o Nordeste se deslocavam para a Amazônia e vice-versa. As diferenças começaram a surgir com o processo de colonização, totalmente distinto. No Nordeste com o açúcar, principalmente em Pernambuco; no Ceará com o algodão ou o ciclo do gado. Enquanto isso, a ocupação da Amazônia foi sempre temporária. Eram expedições de coleta de drogas ou de captura de índios para trabalharem nas grandes plantações do litoral. Outras buscavam produtos naturais para exportação. O impacto da presença dos brancos na Amazônia foi muito mais difuso, lento e permitiu a recomposição permanente da sociedade indígena. O que, infelizmente, não ocorreu no Nordeste. Aqui, a escravidão do índio foi muito mais forte. O colonizador branco utilizava o índio dentro das pesadas atividades econômicas e militares. Eles foram aproveitados nas expedições militares contra os invasores franceses e holandeses. Além disso, os indígenas do Nordeste construíam obras como estradas, fortes e minas.
E os missionários nada faziam. A imagem histórica, pelo menos a oficial, é que eles protegiam nossos aborígines?
Os missionários - Jesuítas, Carmelitas, Franciscanos - agiam como agências econômicas. Tinham produções agrícolas. Eles produziam para a exportação também. Além disso, agenciavam os índios para trabalharem nas fazendas, nas atividades militares e administrativas. Não eram exclusivamente protetores, mas sim agenciadores do trabalho indígena.
Os índios também resistiram à escravidão...
O genocídio se deu pelo forte grau de ocupação do litoral nordestino. Os índios resistiram sim a esse tipo de ocupação - tanto com relação às práticas religiosas, quanto ao sistema de escravidão. A dissolução de suas famílias, rotinas e rítmo de trabalho era completamente incompatível com a imposição de uma nova cultura. Não temos estatísticas completas com relação ao genocídio cometido contra os índios. Existem estimativas que foram mortos entre um e dois milhões de índios. Levantamentos indicam que foram extintas 119 tribos nos séculos XVII e XVIII. Não estamos falando nem do século XVI, pois não havia um mapeamento mais adequado do nosso território.
Gilberto Freyre traçou uma relação menos conflituosa entre índios e brancos na sua tese sobre a miscigenação e o processo civilizatório brasileiro...
A contribuição de Gilberto Freyre para a compreensão do Brasil foi indiscutivelmente importante. Mas faltou um olhar mais atento sobre a real contribuição indígena. Ele se centrou muito no açúcar, no engenho e na cultura derivada do açúcar já no século XX. Isso o levou a esquecer inteiramente todo o conjunto de manifestações culturais indígenas. Traços muito singular de toda a cultura brasileira através da música, dança, alimentação, tecnologia de sobrevivência, independente do meio ambiente.
Como o senhor analisa uma certa visão romântica do índio brasileiro a partir dos estudos de Levi Strauss?
Não é possível considerar os índios brasileiros omitindo a sua história. Com isso, ficamos apenas com uma perspectiva puramente formal, onde exploramos de modo especulativo as singularidades cosmológicas dadas como integrais, unitárias. Isso é nos apresentado com um forte sabor de exotismo. O desafio para a antropologia atual é entender como essas populações vivenciaram processos extremamente pesados de dominação, resistiram e se adaptaram a elas - reelaborando sua cultura e suas instituições em novos contextos históricos. Uma visão de diálogo intenso entre a antropologia e a história.
Fala-se muito no índio, cujas identidades foram moldadas por um novo quadro histórico, onde a mídia, a televisão, principalmente, reelaborou uma nova identidade...
Não é bem assim. Cada cultura tem eixos diferentes, valoriza um fato em detrimento de outro. Existem tribos atuais que valorizam o uso das máscaras em seus rituais com os Pankararu. Existem outras que fazem períodos de reclusão cerimonial. Se afastam completamente dos brancos. Passam longo tempo isolados. Casos dos índios Fulniô. Identidade é uma coisa dinâmica, não estática. Ela pode ser recomposta. A cultura material dos índios do século XVI exibia muitos artefatos plumários - cocares, penas de araras, gaviões -, tudo isso aparecia com muita beleza. Depois de uma certa época, com a destruição da Mata Atlântica, da depredação da própria fauna do sertão - o gado não é nada ecológico -, eles tiveram que se adaptar a uma nova realidade. Fizeram os mesmos artefatos com fibras vegetais, sobretudo, palmeiras, carnaúba. Estes objetos renovados têm a mesma função dos antigos. Os elementos culturais ganham novos conteúdos.
E com relação à televisão....
Os índios não recebem influência somente da televisão. Eles preservam 400 anos de trabalhos em fazendas como peões, bóias-frias. O contato com a sociedade nacional não é apenas reduzido aos aspectos midiáticos. É uma relação de trabalho ainda de exploração. São formas de vida, de cultura que foram impostas há séculos pelos missionários, sobretudo, implicando numa diferente concepção de papéis familiares, na criação de novos rituais (batismo, casamento, etc). Eles foram moldados por todo um processo de colonização. Mas isso não significa dizer que perderam suas origens.
Como assim diante de uma sociedade globalizada...
Continuam a reelaborar vários elementos da sua cultura. Ainda celebram o toré (ritual religioso), sessões de pajelança para cura, apesar de todo o preconceito. Os brancos jamais aceitaram práticas indígenas. A religião era concebida como feitiçaria. Os rituais eram entendidos como coisas ridículas, atrasadas, nocivas. A geração que tem mais de 40 anos viveu essa experiência diretamente. Os pais aconselhavam aos filhos para que nunca pronunciassem em público o nome da tribo. Isso, certamente, seria objeto de escárnio, repressão, algo ridículo.
A situação do índio nordestino é bem diferente do índio da Amazônia...
Ainda temos mais de 80 terras indígenas no Nordeste. Muitas delas são motivos de litígio. São mais de 50 povos diferenciados, mas que mantêm mobilização permanente em defesa do seu patrimônio cultural e interesses materiais. A situação dos índios nordestinos é bastante desfavorável. Temos poucas terras definidas ou são diminutas demais em função do passado histórico. No Ceará, temos apenas um caso de terra reconhecida pelo Estado: o dos Pitaguaris. Existem 16 etnias no Ceará, no entanto somente uma possui uma proposta de terra limitada e inadequada. Os Pitaguaris têm uma população de mais de duas mil pessoas. Este é um quadro bastante sério. Enquanto isso, na Amazônia o governo demarca terras com milhões de hectares e institui reservas ambientais importantes para o equilíbrio do planeta. Não existe a mesma atenção para os indígenas do Nordeste. Isso faz parte, acredito, das desigualdades regionais que caracterizam o País.
O senhor é curador da exposição "Índios - os Primeiros Brasileiros", mostra que foca somente o nativo nordestino. Essa é uma forma de chamar a atenção para os problemas dos índios da região?
Na mostra, estamos aglutinando povos indígenas dos Estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Minas Gerais e Espírito Santo. As características pessoais desses grupos permitem essa associação. Eles constituem uma unidade política perante os órgãos de governo e da sociedade civil. Indicativo disso, é a existência da APOINME (Associação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo). Trata-se de uma organização da região que tem participação nos organismos governamentais. Têm uma atuação política consistente nas aldeias e junto à opinião pública.
Como está montada a exposição?
Ele insere os índios dentro da história do passado e do presente. Começa retratando os primeiros contatos entre os índios e os viajantes do século XVI. Depois, narra como ocorreu a colonização no País, mostrando os papéis desempenhados pelos índios na formação da nacionalidade. Num terceiro momento, ela exibe o patrimônio cultural indígena, coletado nas aldeias atuais de toda a região do Nordeste. Por fim, mostra o índio do Brasil contemporâneo, fornecendo um painel explicativo sobre alguns dos povos - suas lutas, reivindicações, meio ambiente e instituições centrais. O processo histórico modifica todos os grupos. A visão que temos dos indígenas é extremamente simplificada. O processo foi muito violento no sentido de triturar a cultura indígena. Somente uma língua indígena é falada no Nordeste, a da tribo Fulniô, de Águas Belas, de Pernambuco.
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