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Autor: Maria Laura Neves
11 de Nov de 2025
'A nossa luta é pelo futuro da nossa mãe Terra', diz ativista indígena Alessandra Munduruku
Profissionais da moda brasileira entrevistam Alessandra Munduruku, capa digital da Vogue Brasil em novembro
Na língua munduruku, Korap quer dizer "peixe". Korap é também um dos nomes de Alessandra Munduruku, ativista indígena que se tornou uma das principais lideranças em defesa do ambiente e dos povos originários no Brasil e no mundo na última década. Em um encontro recente de caciques de sua aldeia, um deles colocou em palavras a metáfora da trajetória dessa mulher paraense, nascida na beira do rio Tapajós. "Alessandra é um peixinho que passou a cachoeira. Ela está em outro lugar, numa era de conhecimento. Virou uma pessoa de outros povos, que leva conhecimento para outros lugares."
O próximo destino de Alessandra é levar esses saberes e levantar discussões na Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP 30, que reúne este mês em Belém do Pará líderes mundiais, cientistas, ONGs e a sociedade civil para debater e planejar ações contra as mudanças climáticas. "A nossa luta é pelo futuro da nossa mãe Terra. Precisamos pensar em um modelo de desenvolvimento que não destrua a floresta, que não ataque o nosso rio. Não existe planeta B", diz a ativista.
O espírito contestador, ela conta, sempre a acompanhou. A mais velha de sete irmãos, Alessandra diz que sempre foi a que mais deu trabalho para a mãe. "Eu era a que mais enfrentava, dava preocupação, levava meus irmãos para o mato." Na vida adulta, a inquietude se transformou em causa, especialmente a demarcação de um território mundurucu para preservar a mata, a fauna e as tradições de seu povo. "Com o tempo, fui percebendo que a gente estava sendo proibido pelas grandes empresas e loteamentos de frequentar o nosso rio e a nossa terra. Em 2013, nosso povo se mobilizou contra a construção de uma hidrelétrica e entendi a importância de entrar para a luta", afirma.
Passou a falar nas reuniões dos caciques, que ficaram impressionados com a sua oratória. Reuniu, pela primeira vez, as mulheres em um movimento de emancipação e virou porta-voz não só delas como de toda a comunidade munduruku e, posteriormente, indígena do Brasil. Agora, Alessandra engloba em sua fala a defesa do ambiente como um todo e de povos originários e de outros países. Sua atuação lhe rendeu dois prêmios internacionais como o Robert F. Kennedy de Direitos Humanos, em 2020, e o Prêmio Goldman, considerado o "Nobel" do meio ambiente, em 2023. "Quando ganhei o primeiro prêmio internacional, percebi que minha voz atravessou oceanos e fronteiras. Nessa época, invadiram minha casa numa tentativa de me matar. Meu filho me abraçou e disse que não queria que me matassem, porque eu era muito importante para ele. Foi quando percebi que minha voz estava incomodando muita gente, porque eu estava falando coisas importantes. Se eu ficasse em silêncio, ninguém saberia quem era a Alessandra. Então soube que precisava falar e lutar." A seguir, Alessandra responde a perguntas de profissionais da moda brasileira que estão atentos às discussões de sustentabilidade.
De que forma os saberes indígenas e a bioeconomia podem dialogar com a indústria da moda na busca por soluções climáticas? (Fernanda Simon, diretora-geral do Fashion Revolution Brasil e editora de sustentabilidade da Vogue Brasil)
A sociobioeconomia é uma inspiração porque é um coletivo. O mundo da moda deve se aproximar cada vez mais dessa lógica, buscando produtos vindos da sociobioeconomia. Compreender a cadeia produtiva dos produtos que sustentam as coleções e as peças. Quem está trabalhando e como. Comprar e valorizar produtos que respeitam a terra é uma forma de resistir e fortalecer cadeias produtivas que não desmatam e estão trabalhando contra as mudanças climáticas. A moda também precisa repensar a cultura do descarte, do que "não serve mais". Infelizmente, a indústria da moda polui muito. Nós, povos indígenas, aproveitamos tudo. Da banana, por exemplo, comemos a fruta madura, mas usamos a casca para fazer mingau, e a banana verde para preparar massa para as crianças. O olho da banana serve de remédio, e o tronco pode virar brinquedo. O mesmo acontece com os animais: quando caçamos, é para nos alimentar, mas aproveitamos as penas para fazer colares, diademas, cocares e pulseiras. Até os ossos, com os quais fazemos as pulseiras munduruku. Nada se perde.
A moda tem buscado dialogar com sustentabilidade e responsabilidade social. Na sua visão, como a indústria pode se aproximar das pautas indígenas e contribuir de forma concreta para a preservação da Amazônia, especialmente neste momento em que a região será o centro das atenções com a COP 30? (Alexandre Herchcovitch, estilista)
Quando olhamos para fora, vemos os aliados. A importância da moda está na valorização dos territórios, das sementes, das palhas, da cultura indígena, dos nossos adereços. Os nossos anéis, os nossos colares, as nossas roupas têm um significado muito forte, têm uma cultura. Os colares têm histórias, o chapéu, a tiara, as pulseiras: tudo tem histórias dos antepassados, da criação de cada povo. A moda pode valorizar isso. Dar visibilidade para a valorização dos indígenas quando se faz uma moda mostrando para o mundo que aquelas sementes de açaí, por exemplo, são importantes tanto para os animais, como alimento, quanto para os seres humanos. Elas são fonte de ferro, de vitaminas, são uma cura da terra, uma cura dos animais, dos seres humanos, dos povos indígenas da Amazônia. O tucumã, por exemplo: a gente usa o tucumã para fazer os colares de peixinho, os colares de tracajá, os colares médicos. É uma semente que é fruta para os animais e também é artesanato. A valorização da natureza, principalmente da floresta, precisa ser mostrada para o mundo todo. E é preciso denunciar que se as queimadas e o desmatamento continuarem aumentando e invadindo nosso território, construindo ferrovias sobre a floresta, destruindo nossos rios para passar soja para exportação, vão matar culturas inteiras, vão matar línguas, saberes, o modo de vida tradicional dos povos indígenas, que têm muito a ensinar ao mundo sobre como conviver de forma harmoniosa com a natureza, sobre como produzir sem destruir. Hoje, já é evidente que sem uma relação harmônica com a natureza, não há futuro. Então, a moda tem que levar essas vozes.
O movimento que venho fazendo na moda é de valorização dos nossos saberes ancestrais. Como se sente, sendo uma mulher indígena, nortista e inspiração para jovens como eu? Acredita que as redes sociais ajudam a difundir as dificuldades vividas nos territórios, pouco faladas pelas grandes mídias? (Maurício Duarte, estilista)
Olha, fico muito honrada, né? Nunca esperei esses reconhecimentos, nunca imaginei ser uma liderança. Isso foi decidido pelas lideranças, pelos homens. Os caciques me reconheceram assim. Até hoje eu converso muito com eles, mas também converso muito com os jovens, com as mulheres. O que é bem interessante é que, nesses longos anos de luta, eu me aproximei muito também dos indígenas que são do movimento LGBTQIAPN+. A juventude me procura muito. Muitas vezes, eu acabo sendo como uma mãe para eles. Eles falam que eu não só luto em defesa do rio e dos territórios, mas também falo sobre eles. E converso, falo: olha, vocês têm que ouvir as lideranças, o pajé, as mulheres, mas também têm que ouvir o rio. Uma aula não se dá só dentro de uma sala. A gente também aprende embaixo da floresta, na beira do rio, conectando-se com ele. O rio é um ser vivo. Ele tem lugares sagrados dentro dele. Os peixes têm suas moradias, suas casas, seus próprios rituais e modos de vida. Nós, que estamos nesse mundo, temos que respeitar. Sobre a rede social, ela já nasce com dois lados: um bom e outro ruim, mas cada um tem que saber como usar. Uso para falar da luta, da demarcação, dos problemas que a gente enfrenta, das leis e dos governos, para que nossa voz chegue até os presidentes do Senado e do Congresso. Uso também a rede social para falar com as pessoas não indígenas e até mesmo com nossos próprios parentes, tanto indígenas do Brasil quanto de fora. Tem muitas críticas, muita gente que usa a tecnologia para agredir, falar mal ou desmobilizar, mas a gente usa para mostrar informação verdadeira e revelar a situação que está acontecendo dentro do território. A arma que nós estamos usando hoje é a tecnologia: o celular, a câmera. A gente está levando isso tanto para fora quanto para dentro do território.
É notável o crescimento do protagonismo de lideranças indígenas mulheres. Como você atua para a formação das jovens líderes indígenas mulheres, para que mais e mais vozes femininas se somem à luta dos povos indígenas? (Jeff Ares, publicitário e filantropo)
Eu vim de um povo patriarcal, em que são os homens que decidem, que fazem as reuniões. Hoje, nós, mulheres, estamos cada vez mais presentes. A gente também está decidindo junto. Quando falo com outros povos, com lideranças masculinas, eu converso muito com os homens em reuniões. E sinto falta das mulheres. Quando olho para um parente, pergunto: "Cadê sua itaixi (que é a mulher, a esposa)? Cadê sua filha? Ela poderia participar também com a gente?". A gente sempre faz esse chamado, mas sem desrespeitar a cultura de outro povo. Conquistamos espaço hoje dentro do movimento, dentro do povo, dentro de tudo, principalmente entre os caciques. E a gente nunca desrespeita. Sempre dizemos que a luta das mulheres é de mãos dadas com eles, que eles não podem decidir sozinhos. A gente tem que decidir junto, discutir junto. Mas há muitos povos que ainda são muito patriarcais. Então, como chegar até eles? Respeitando, conversando com os caciques, com os filhos, chamando as mulheres.
Na sua visão, como a Liderança Feminina Indígena está inovando na luta pela preservação da cultura indígena e pela vida nos territórios? Pode dar exemplos de conquistas marcantes ou ações de mulheres indígenas que te inspiram a seguir firme nesta jornada? (Letícia Veloso, empresária)
As mulheres que me inspiram são aquelas que estão comigo desde o início e nem sempre são conhecidas. Maria Leusa Kaba Munduruku é uma mulher muito, muito querida. Uma mãe, uma avó, uma filha que nunca deixou ninguém para trás. Quando alguém está triste, ela puxa. Quando alguém quer desistir, ela soma. Muitas estão no dia a dia, no seu território, e muitas vezes não tem tantas vozes como eu, como a Sonia Guajajara, como Vanda Witoto, Célia Xakriabá, que também admiro. Na ancestralidade, na cultura, elas estão ali todos os dias, presentes no território. O conhecimento que eu tenho, a fala que eu trago, não são só meus: são delas também, a Ediene Kirixi Munduruku e a Ana Poxo Munduruku têm voz forte dentro do território, no meio do povo tradicional, na ancestralidade. É isso que me dá força. Aliás, tenho essa força através dessas mulheres.
É possível pensar a moda como um braço importante a ser considerado na luta junto aos povos originários? No que eu, como estilista, poderia contribuir? (Luiz Claudio Silva, estilista e fundador da Apartamento 03)
Sim, a moda pode ser uma importante aliada. Mas é preciso também que a moda repense a forma de produzir e descartar. O que eu vejo é que a moda usa e logo a peça perde valor, joga fora, como se fosse algo descartável. Quando a moda é feita para ser única, artificial, ela acaba prejudicando o ambiente e o planeta. Eu acho que a moda pode contribuir com a luta, mas não numa perspectiva de descarte. A gente não pode usar a luta indígena na moda como algo passageiro. É fundamental também que a moda não se preocupe só com a vitrine, que considere toda a cadeia de suprimentos, para reduzir o impacto no meio ambiente e nas pessoas, incluindo o transporte. Isso significa que qualquer fornecimento de matérias-primas indígenas precisa estar alinhado com transporte seguro e contribuindo para a economia local. É preciso também priorizar fornecedores que garantam procedência ética e sustentável. Assim, a indústria da moda não só respeita os direitos indígenas como fortalece a bioeconomia amazônica e incentiva cadeias produtivas sustentáveis.
A moda tem o poder de contar histórias. Que tipo de história sobre o Brasil e a Amazônia você acredita que ainda precisa ser contada? (Katia Barros, fundadora da Farm)
A moda tem que mostrar o Brasil de fato. Tem que mostrar os povos, a demarcação, o Brasil que ainda está pedindo socorro. Não se pode discutir moda sem a presença dos povos indígenas, sem a presença da floresta, sem a presença do meio ambiente.
É preciso mostrar o que está violentando o meu povo, o que está destruindo o nosso rio, o que está acabando com o futuro dos nossos filhos e netos. Não falar de moda sem pensar em tudo que está à nossa volta, tudo que temos na mão, tudo que temos no pé. Essa é a oportunidade de mostrar que existimos, que estamos ali. A moda não pode trazer só ouro. Aliás, de onde vem o ouro que, muitas vezes, está nas peças de moda? É preciso saber. A moda tem que trazer vida, cultura tradicional, terra, territórios, meio ambiente. É isso que a gente está pedindo.
Como você acredita que moda, política e ancestralidade se entrelaçam hoje para retratar o Brasil e a nossa identidade? (Luiza Brasil, jornalista e influenciadora)
O que a gente consome revela muito daquilo que a gente valoriza. Então é uma forma de se posicionar. A moda precisa mostrar o que tem valor: o respeito à vida, à natureza, aos direitos dos povos originários, à preservação do futuro de todo o Brasil. Isso passa pela valorização da cultura indígena, dos saberes, dos produtos da sociobioeconomia. É preciso dar visibilidade para nossa cultura, nossos saberes e nossa contribuição ao país.
Em que momento da sua vida você se deu conta do seu destino ? (Paulo Borges, fundador do SPFW)
Desde criança, a gente era muito livre. A gente pegava nossas canoas e ia para lugares distantes para pescar ou passar o fim de semana com a família. Quando eu estava na aldeia, comecei a ver muitos empreendimentos chegando, obras de infraestrutura, portos, loteamentos, garimpos... Cada vez mais avançando sobre o nosso território, sobre os lugares onde eu costumava ir com meus primos e irmãos para tomar banho, pescar, ir para o mato, tirar sementes para plantar ou para nossos colares e palha para fazer nossa roupa, construir nossas casas. De repente, percebi que a gente não conseguia mais fazer isso, porque começaram a nos proibir. Os empreendimentos foram chegando e se tornando "donos" da terra. E quando viraram donos, colocaram cercas para ninguém entrar. Não podíamos entrar nem para buscar palha, nem semente. Eu não entendia por que nós éramos proibidos de estar ali, naquele lugar onde sempre andamos desde pequenos. Mas tudo passou a ser proibido. Foi então que comecei a entender a importância de lutar pelas minhas terras, de lutar pela demarcação das terras indígenas. Porque quando a terra não está demarcada, o Estado não reconhece. E aí a União acaba destinando as terras que deveriam ser dos povos indígenas para outras pessoas. Pessoas com dinheiro, que desmatam, que fazem loteamentos, que instalam portos, outras infraestruturas. Então, foi quando entendi a violência a que o nosso povo estava sendo submetido e o que eu deveria fazer.
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