www.douradosagora.com.br
Autor: Wilson Matos da Silva
06 de Jan de 2009
Caro leitor, ao iniciar mais um ano, desejo muita prosperidade, saúde paz e felicidade a todos. Tenho sempre, com o devido respeito aos meus leitores, articulado sobre a CAUSA indígena, a qual pertenço e tenho um modesto domínio. Lembro sempre o que meu mestre em filosofia do direito nos alertava: "se vais dizer alguma coisa leia, estude, pesquise ao contrário, cale-se!"
Não raras às vezes leio algo relacionado ao termo pejorativo bugre, objetivando substituir o termo índio, como se sinônimos fossem, normalmente são ditas ou escritas por pessoas de pouca cultura, ou melhor, educação. Se não vejamos.
Bugre é a denominação dada a indígenas de diversos grupos do Brasil, por serem considerados sodomitas pelos europeus. A origem da palavra vem do francês bougre, que de acordo com o dicionário Houaiss possui o primeiro registro no ano de 1172 e significa herético, que por sua vez vem do latim medieval (século VI) bulgàrus. Como membros da igreja greco-ortodoxa, os búlgaros foram considerados heréticos, e o emprego do vocábulo para denotar a pessoa indígena liga-se à ideia de inculto, selvático, não cristão - uma noção de forte valor pejorativo.
A forma pela qual a sociedade constrói e reconstrói permanentemente uma imagem negativa de certo grupo, neste caso, os índios, pejorativamente designados pela palavra "bugre", inspirou o sentimento que está na origem deste artigo.
As realidades regionais do Brasil contemporâneo retratam e refletem elementos da formação de uma história que remete à longínqua Idade Média, aos valores e rituais da Igreja Católica de então; aos movimentos heréticos, no século IX na Bulgária e no século VII na Ásia Menor.
Curiosamente, a práticas sodomitas durante um longo período na passagem da Idade Média para a Moderna na Europa Ocidental; a diversas outras consideráveis influências e a realidades mais recentes com os jesuítas e o capitalismo aventureiro e saqueador da colonização portuguesa. Aglutinando em torno de si uma bagagem bastante antiga, de influências diversas, sempre com conotação negativa sob a ótica vigente, está o termo "bugre" como sinônimo de índio.
O termo bugre originou-se num movimento herético, na Europa, durante a Idade Média, representando uma força contrária aos preceitos ditados pela ortodoxia da Igreja. Surgiu no século IX, na Bulgária, tendo sido batizado como bogomilismo, inspirado no nome do padre Bogomil, considerado fundador da seita herética.
O termo bugre vai reaparecendo na lembrança do europeu, com uma identidade já construída, acompanhando a ideia da infidelidade moral, porém com novos elementos, próprios da nova situação. Os bugres surgiram de uma sociedade muito fechada e de fundamentação radicalmente religiosa. Não parece verossímil uma história tão complexa e antiga para um personagem alcunhado e tratado, hoje, em diversas cidades do Brasil, como "João-ninguém".
Fica claro que o termo é pejorativo, para identificar aqueles que apresentam alguns traços físicos específicos - "cabelo de flecha, liso, escorrido"; "olho rasgado, nariz meio achatado"; "escuro sem ser negro" - que estão associados a aspectos culturais, sociais, psíquicos e econômicos também específicos: "o bugre é rústico, atrasado"; "o bugre verdadeiro é do mato, aquele que está escondido, mais agressivo e arredio"; "o bugre que está na cidade é mais dócil, pode ser trabalhador, mas é traiçoeiro".
No MS, a presença recente dos migrantes (paulistas, mineiros, paranaenses, gaúchos, desde a década de 60, principalmente) despertou um sentimento de fragilidade perante os valores tradicionais autoritários. Esta insegurança, este medo, esta angústia manifestam-se, dentre outras formas, na retomada do preconceito contra o bugre, que figura como bode expiatório para tudo o que é tido como negativo, indesejável e condenável.
Os significados de herege e sodomita, desqualificação absoluta; as significações de infiel e traiçoeiro somadas às modernas práticas econômicas e políticas da modernidade, encontram-se os pares preguiçoso-vagabundo e estrangeiro-inteiramente outro. As significações devidas a uma matriz biológica - deficiente-incapaz e violento-desordeiro - também estão presentes no imaginário sobre o bugre na sociedade sul-mato-grossense.
O bugre não será visto como o modelo de homem do novo tempo; muito pelo contrário, ele carrega um estigma de épocas passadas de ser identificado como pertencente a uma parcela mais humilde das populações, mais próximas da natureza, carregando consigo todo tipo de desvios morais determinados pela história, refletindo ou mesmo resultando numa exclusão social, que ficará mais acentuada com o desenvolvimento do capitalismo e suas exigências.
Existe uma imagem central negativa, de acusação, sobre o indígena quando somos tratados como bugres. Qual o por quê de a sociedade sul-mato-grossense, especialmente a douradense ter a necessidade de construir imagens negativas sobre nós os índios? Quais as conseqüências que estas imagens trazem para a vida cotidiana de uma sociedade?
Como dito, nós os índios não somos coitadinhos; não necessitamos de "ajuda" dos "civilizados"; se tem alguém forasteiro neste solo, não somos nós os índios nativos deste chão. Queremos sim, serrmos protagonistas de nossa própria história; queremos respeito com a nossa dignidade!
* É índio residente na Aldeia Jaguapirú, advogado, presidente da CEAI/OABMS (Comissão Especial de Assuntos Indígenas da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional de MS). E-mail: wilsonmatos@pop.com.br
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.