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Nos Estados do Norte, todos os desafios são urgentes

OESP, Nacional, p. A5
25 de Abr de 2004

Nos Estados do Norte, todos os desafios são urgentes
Rondônia, por exemplo, foi palco de chacina de garimpeiros e sangrenta rebelião em presídio

MARCELO DE MORAES
e TÂNIA MONTEIRO

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já reconhece a dificuldade da situação dos Estados do Norte e a necessidade de presença mais forte do governo na região. Nas últimas semanas, só Rondônia foi palco de problemas de grande impacto: índios cintas-largas massacraram garimpeiros, numa briga que envolve a extração de diamantes; uma rebelião em presídio de Porto Velho propiciou cenas de selvageria, com o esquartejamento de pessoas a céu aberto; focos de corrupção no Estado obrigam o governo a enviar uma força-tarefa para lá.
A soma disso com a elevação do desmatamento na região, a alta incidência de trabalho escravo, a fragilidade na vigilância da faixa de fronteira e o baixo desenvolvimento econômico local, por conta das restrições legais impostas pela existência de grande quantidade de reservas indígenas e florestais, montam um cenário preocupante para o governo e para os políticos do Norte. "A região é um barril de pólvora prestes a explodir", constata o senador amazonense Arthur Virgílio Neto, líder do PSDB no Senado.
Dentro do governo, os recentes episódios em Rondônia e a polêmica em torno da forma de demarcação da reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, fizeram com que acendesse o sinal amarelo. O chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Jorge Félix, esteve em Rondônia e tem monitorado a situação nos outros Estados do Norte, preocupado em tentar prevenir a repetição desse tipo de conflito.
Preocupação - O próprio Lula reconhece que a região precisa de atenção especial. Nos últimos 15 dias, viajou duas vezes ao Norte do País (Acre e Amazonas), tentando demonstrar essa linha de ação. Em discurso em Manaus, na quinta-feira, o presidente deixou clara a preocupação do governo de tentar tirar a região do foco do noticiário policial e trabalhar para ampliar o desenvolvimento da região.
"Aqui, nesta Região Norte do Brasil, em vários Estados em que passei desde 1980, não foram poucas as noites em que a gente tinha de ficar no escuro, porque não tinha luz. Ora porque o motor quebrava, ora porque tinha um problema. Numa demonstração de que, se não tiver uma definição política de que o desenvolvimento sustentável da Região Norte do Brasil e da Amazônia tem de ser tratado com prioridade, isso não acontece. Porque o poder de pressão em cima do poder político não está aqui, na região. Está mais perto de Brasília. E todo mundo sabe quais são as regiões que têm maior poder de pressão sobre as decisões governamentais e históricas no nosso país. Como não somos chegados a esse tipo de pressão e entendemos que o Brasil tem de ser pensado como um todo é que resolvemos assumir esse compromisso", afirmou o presidente em discurso feito em solenidade fechada, em Manaus.
A intenções do governo, contudo, esbarram em grandes desafios. Importantes integrantes das Forças Armadas admitem, por exemplo, que a vulnerabilidade da faixa de fronteira local é uma preocupação permanente. São 11.300 quilômetros de extensão de fronteiras dentro da Amazônia, seguindo da Bolívia até a Guiana Francesa. Os militares lembram que apenas 30% dessa faixa não está dentro de área de preservação ambiental ou indígena.
Além disso, os militares têm enfrentado restrições orçamentárias para poderem fazer a vigilância adequada. Há dificuldades, por exemplo, para dotar os búfalos - aviões apropriados para sobrevoar e pousar nos locais de difícil acesso - de combustível e peças. O mesmo problema ocorre com os barcos que fazem o patrulhamento marítimo e fluvial.
Abusos - As gigantescas proporções da região aumentam as dificuldades. Os governos federal e estaduais têm dificuldades para fiscalizar os abusos como o corte ilegal de madeiras, a extração irregular de minérios e até mesmo trabalho escravo. Existem localidades no Norte que chegam a agrupar simultaneamente todos esses tipos de infração. É o caso da região da Terra do Meio, no Pará, onde houve ocorrências recentes de desmatamento, trabalho escravo e mineração ilegal.
Considerada uma das últimas regiões do Pará ainda riquíssima em madeiras nobres, a Terra do Meio acabou sendo alvo de uma ampla operação de fiscalização e repressão contra o desmatamento promovida pelo Ibama (Operação Verde para Sempre), que teve o acompanhamento até do Greenpeace. A reação dos madeireiros em situação irregular foi violenta. Bloquearam todos os acessos da cidade de Altamira, exigindo o afrouxamento na repressão. Nesse caso, o governo não recuou e conseguiu punir parte dos infratores. Mas já se temem novas infrações.
O governador do Amazonas, Eduardo Braga, acha que uma das medidas que poderia ajudar a mudar essa situação seria a recriação da Sudam. Ele avalia que o organismo poderia ajudar a fomentar políticas públicas na região e revitalizá-la economicamente. Mas lamenta que o projeto tenha emperrado no Congresso. "O governo demonstrou vontade política quando enviou o projeto ao Congresso. Mas, por causa desses problemas políticos enfrentados no primeiro trimestre, que deixaram a agenda de ações tumultuada, a votação não ocorreu. Então, agora é preciso mais empenho", diz, elogiando, porém, a ação do governo federal de prorrogar as isenções fiscais da Zona Franca de Manaus, até 2023.

OESP, 25/04/2004, Nacional, p. A5

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