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Nos confins do Pais, em busca dos sem-conta

OESP, Economia, p.B4
04 de jul de 2004

Nos confins do País, em busca dos sem-conta
Banco Postal e Caixa Econômica atendem índios, seringueiros, populações ribeirinhas
PATRÍCIA CAMPOS MELLO
SANTA ROSA DO PURUS - Camisa social impecável, calça de pregas, sapatos engraxados e pastinha de executivo em punho - é assim que Emerson Fernandes Rosa, 29 anos, desbrava os rincões mais remotos do Acre e do Amazonas. Todos os dias, Emerson se embrenha em vilarejos no meio da selva amazônica para "bancarizar" índios, seringueiros e populações ribeirinhas.
Nesta semana, esse missionário bancário está em Santa Rosa do Purus, um município na fronteira do Peru que fica a sete dias de viagem de barco da cidade mais próxima. O supervisor Rosa já convenceu mais de 100 pessoas a abrirem uma conta no Banco Postal de Santa Rosa. Entre os recém-bancarizados estão 20 índios kaxinawa.
No Brasil todo, missionários como Emerson já abriram 1,8 milhão de contas correntes no Banco Postal, uma parceria entre os Correios e o Bradesco.
Cerca de 90% desses correntistas nunca tinham usado um banco. Desde 2002, 4.868 agências foram abertas e 1.442 municípios que não tinham bancos ganharam um correspondente bancário. A Caixa Econômica Federal também está resgatando os sem-banco nos lugares mais distantes do País. Já foram abertas 1,85 milhão de contas simplificadas. A Caixa tem 9 mil correspondentes bancários em casas lotéricas e mais de 2,5 mil em mercadinhos de pequenas cidades como Santa Rosa do Purus, no Acre, um dos locais mais longínquos do Brasil Em Santa Rosa, não tem dentista nem hospital. Para chegar, só enfrentando uma semana no rio Purus ou duas horas num monomotor saindo de Rio Branco, que pousa numa pista cheia de lama, quando o tempo deixa. Só existem três carros, que vieram de balsa.
A única diversão é o forró, que só acontece duas vezes por mês, quando a cerveja vem de barco. O exército está estacionado em um posto da fronteira, que é rota de tráfico de drogas. Jornais e revistas não chegam nunca aqui.
Mas o banco chegou em Santa Rosa. O correspondente bancário da Caixa foi aberto no fim de 2002, na mercearia da cidade. Tem 90 correntistas. O Banco Postal chegou no ano passado. Funciona na agência do correio e tem 205 correntistas.
Um deles é o índio Francisco Oliveira Kaxinawa. Antes de o banco chegar, Francisco tinha de enfrentar sete dias de barco para buscar seu salário em Sena Madureira, todos os meses. Ele é agente de saúde da Funasa e recebe dois salários mínimos para ensinar os índios a se prevenirem de doenças como a leishmaniose. Francisco gastava mais de R$ 100 no transporte para o banco mais próximo. Para economizar, muitas vezes ia buscar o salário de canoa, remando. Levava nove dias para chegar. "Nossos avós e bisavós não sabiam dos bancos, mas eu sou 'documentado' e aprendi como funciona", diz Francisco.
A aposentada Mariazinha Rodrigues Kaxinawa, de 75 anos, ia a cada dois meses para Sena Madureira buscar o pagamento do INSS. Tinha medo dos troncos do rio, que muitas vezes causam naufrágios dos barcos da Amazônia. "Agora eu moro perto do meu dinheiro", diz Mariazinha.
Mas os excluídos ainda são maioria. Estima-se que, no Brasil, 40 milhões de pessoas não têm conta em banco, ou seja, quase um terço da população. É gente como Marisa Kaxinawa, que mora com dez parentes em uma casa sem paredes, que só tem redes e um fogãozinho. Usa o quintal como latrina.
Os Kulinas da aldeia Canamari, que fica a duas horas de Santa Rosa, de voadeira (o barco mais rápido), também aguardam a bancarização. Aguinaldo Farias Kulina, o professor da aldeia, ainda reluta em colocar seu dinheiro no banco. Ele recebe R$ 400 da Funai para dar aulas de português e matemática para os Kulinas. Com o pagamento, sustenta suas duas mulheres - Delícia, a mais velha, e Maria, a mais jovem - além dos doze filhos. Compra sabão, óleo, bolacha e facas na cidade, e guarda o resto do dinheiro em sua maloca. "Sobra bastante, e eu escondo em casa. Não ponho o dinheiro no banco", diz, desconfiado.
Como se pode ver, o trabalho de bancarização é árduo. Mas os missionários bancários precisam estar apresentáveis, mesmo nas condições mais adversas.
Em seu kit de catequização dos sem-banco da selva, Emerson leva um ferro de passar roupa, um espelho para "conferir o visual", um perfume Stiletto, do Boticário, graxa e escovinha. "Precisamos mostrar respeito pelos clientes", diz. Para convencer os sem-banco a abrir conta, o supervisor tenta falar a língua dos futuros clientes. "Falamos para eles assim: olha, chegou uma novidade na cidade, é o banco, você pode mandar dinheiro para seus parentes, pagar suas contas, sacar dinheiro, receber sua aposentadoria sem ter de ir tão longe."
Emerson busca clientes até durante as viagens de batelão, os barcos-dormitório que trafegam pelos rios da região. Distribui os folhetos informativos que leva em sua pastinha. "Estamos orientando as pessoas o tempo todo." Ele calcula que tenha bancarizado 300 pessoas em suas andanças pelas 18 cidades da Amazônia que supervisiona. Emerson chega a passar 21 dias longe de sua casa, de sua mulher e de seu filho de 8 meses, Mateus.
Agora, seu maior desafio é bancarizar os soldados da borracha. Os soldados da borracha foram os nordestinos que migraram na década de 40 para o Acre.
Eles foram convocados pelo governo para recolher látex na floresta, que foi usado pelos Aliados na Segunda Guerra Mundial. Os anos se passaram, o preço da borracha despencou e os soldados ficaram esquecidos. Nos anos 80, esses migrantes finalmente conseguiram uma aposentadoria do governo federal.
Alguns sobreviventes conseguiram vencer a burocracia e recebem em média dois salários mínimos por mês. Mas a maioria nunca foi a um banco e ainda guarda o dinheiro embaixo do colchão. "Tem muita gente que ainda fica desconfiada, precisamos aculturar o pessoal que não tem conta em banco", diz Emerson

Bancos apostam nos ganhos com a baixa renda
Atingir grandes volumes é o desafio para lucrar com correntistas da camada mais pobre
É difícil, as margens são apertadas, mas dá para ganhar dinheiro com serviços para clientes de baixa renda. Essa é a convicção dos bancos que estão disputando os correntistas de primeira viagem, que fazem parte da camada mais pobre da população. A aposta é alta: o Bradesco pagou R$ 200 milhões em luvas aos Correios para poder usar as agências como correspondentes bancários até 2009. Além disso, o banco investiu R$ 12 milhões em infra-estrutura e informática nas agências. "Vamos começar a ter lucro no ano que vem, quando atingirmos a meta de 3,5 milhões de correntistas", diz André Rodrigues Cano, diretor do Bradesco responsável pelo Banco Postal.
Em dois anos, o Banco Postal conquistou 1,8 milhão de clientes, sendo que 58% desses correntistas têm renda de até um salário mínimo e 15,4% ganham até R$ 400. Cerca de 90% desses clientes não tinham conta em banco. Por mês, 140 mil novas contas são abertas. A maioria dos clientes usa o Banco Postal para fazer saques, pagamentos, receber e mandar dinheiro para parentes, empréstimos e sacar a aposentadoria e outros auxílios. "As margens são muito apertadas; não se pode errar a mão no negócio de baixa renda, é preciso ganhar no volume", diz Cano.
A Caixa Econômica Federal tem 1,85 milhão de contas Caixa Aqui. Essas contas são simplificadas - não têm talão de cheques e não podem ter mais de R$ 1 mil de saldo. Para abrir a conta, não é preciso apresentar CPF nem comprovante de residência. O CPF é tirado na hora, com ajuda do funcionário da Caixa. O banco não cobra tarifa de manutenção da conta.
"A rentabilidade dessas contas é muito pequena", admite Tarcísio Luiz Dalvi, superintendente nacional de canais da Caixa. Mas a Caixa tem uma vantagem - o governo federal paga benefícios sociais como o Bolsa Escola e seguro desemprego por meio dos correspondentes do banco. "Cobrimos parte dos custos dos correspondentes com os repasses do governo federal, pelo serviço que prestamos de pagamento dos benefícios sociais", diz Dalvi.
No Banco Postal, os ganhos vêm principalmente da cobrança de tarifas e empréstimos. A conta não é simplificada - fornece talão de cheque, não tem limite de saldo, mas cobra tarifa de manutenção de R$ 2,80 por mês. Segundo Cano, o Banco Postal em sido o canal ideal para o crédito popular. O Bradesco liberou R$ 370 milhões em microcrédito - programa do governo que determinou a destinação de 2% dos depósitos à vista para empréstimos a pessoas de baixa renda, com juros de 2% ao mês. Deste montante, R$ 80 milhões foram liberados por meio das agências do Banco Postal. A Caixa destinou R$ 140 milhões para microcrédito.
O Bradesco usa a infra-estrutura do Correio e paga por transação. "Só temos custo variável, não precisamos construir uma agência e arcar com os gastos", diz Cano. Dessa maneira, cidades pequenas, que não justificariam a instalação de uma agência bancária de R$ 600 mil, ganham um banco.
O Banco Popular do Brasil, criado pelo governo em fevereiro, também tenta entrar nesse mercado. Mas está demorando para deslanchar. A meta era ter 2,5 mil pontos de atendimento até o final do ano. Até agora, só inaugurou 25 correspondentes. (P.C.M.)

No Jequitinhonha, crédito para quem perdeu tudo
Vítimas da enchente usam empréstimos para refazer a vida e montar negócios
SANTA MARIA DO SALTO - Sacaram o dinheiro no Banco do Brasil da cidade de Jacinto e precisavam transportar até Santa Maria do Salto, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Resolveram sair logo ao raiar do dia, para não despertar suspeitas. Embrulharam os R$ 50 mil em um papel pardo e colocaram embaixo do banco do motorista, no Santana da Prefeitura. O dinheiro era parte da folha de pagamento dos 120 funcionários da prefeitura de Santa Maria. Eram só 30 quilômetros. Mas os homens estavam com medo, porque a prefeitura vizinha tinha sido roubada pouco tempo antes. "A gente nunca avisava o dia do pagamento, para não atrair os ladrões. Era um Deus nos acuda transportar todo esse dinheiro", lembra o secretário administrativo Jânio Viana.
Dois meses atrás, pagar os funcionários da Prefeitura em Santa Maria deixou de ser uma aventura. Nada de envelopes pardos e missões secretas até o banco mais próximo. A Prefeitura fez um convênio e agora o pagamento é feito por meio da agência do Banco Postal da cidade, aberta no ano passado.
Não foi só a vida dos funcionários públicos que mudou com a chegada do banco nesta cidade de 5 mil habitantes. O dono do supermercado Guimarães, Diran Brito Guimarães, está planejando fazer o impensável - ele quer abandonar sua caderneta de fiados. Na verdade, sua caderneta de fiado é um fichário com mais de 300 devedores. Mas Diram está instalando um terminal para cartão de débito e de crédito. "Quando bastante gente tiver o cartão, eles vão ficar devendo para o banco e não pra mim. Vou tomar menos prejuízo."
Luciano Petzold, diretor regional do banco, é o homem que está trazendo a mudança para Santa Maria. Luciano é de Santos, mas fala manso como mineiro e é conhecido em todos os cantos do Vale. O "homem do banco" arrumou empréstimo para muita gente que perdeu tudo na última enchente do Jequitinhonha, em 2002.
"Até meus documentos a água levou", conta o aposentado Alicínio Rodrigues de Sousa, 68 anos, que perdeu a casa. Alicínio fez um empréstimo de R$ 580 de microcrédito no Banco Postal. Comprou fogão, armário e cama. Aproveitou o "capital" para montar uma banquinha onde vende ovo, banana e farinha.
Luciano circula por todos os vilarejos em busca dos sem-conta. O "homem do banco" vai até onde o carro não chega. Em Talismã, povoado de 500 pessoas a 60 quilômetros de Santa Maria, bastou chover que ninguém chega. Lá, Derci Francisco Guimarães, 62 anos, sustenta a família de 10 com sua aposentadoria de R$ 260 e a roça de mandioca. Derci abriu uma conta no ano passado. Para buscar a aposentadoria, só de carona no caminhão do leite - quando ele aparece. Se chover, não tem jeito. Derci calça suas Havaianas e anda seis horas até Santa Maria. É difícil de acreditar, mas já foi pior. "Antes eu andava até Santa Maria e depois tinha que pegar o ônibus até Jacinto."
Agora, Derci economiza R$ 8 da passagem ida e volta. Dá para comprar 10 cachos de banana na venda de seu Alicínio. (P.C.M.)

OESP, 04/07/2004, p. B4

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