O Globo, País, p. 24
07 de Out de 2018
No ritmo atual, Brasil ainda será o mais desigual da América Latina
POR CÁSSIA ALMEIDA, DANIELLE NOGUEIRA E MARCELLO CORRÊA
RIO - Em 2030, o Brasil ainda terá que vencer desafios como redução da desigualdade, combate à pobreza, melhoria da educação e equilíbrio da Previdência. Até lá, as crianças que hoje cursam o primeiro ano do ensino fundamental estarão ingressando no mercado de trabalho. Se mantivermos o ritmo atual de avanços sociais, essa geração ainda conviverá com velhos problemas.
As projeções feitas a pedido do GLOBO indicam que o país continuará o mais desigual da América Latina. Além disso, 17 milhões de pessoas continuarão a viver em famílias com renda inferior a R$ 233 per capita. Na educação, corremos o risco de chegar à próxima década com média de anos de estudo inferior à de países vizinhos. Enquanto isso, o envelhecimento da população ameaça o sistema de aposentadorias, com a previsão de que o número de idosos salte de 12,4% para 19,8%.
Começar a mudar este prognóstico será tarefa de quem for eleito este ano.
Doze anos não serão suficientes para o Brasil vencer duas chagas ainda abertas em nossa sociedade: a pobreza e a desigualdade. Se mantivermos a atual velocidade do combate a esses problemas, continuaremos a ser, em 2030, o país mais desigual da América Latina. Dificilmente erradicaremos a pobreza até lá, compromisso assumido pelo Brasil perante os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, das Nações Unidas.
Sem uma correção de rumos pelos novos governantes, em 12 anos o nível de pobreza cairá dos atuais 10,95% para 8,11%, deixando ainda o equivalente a 17 milhões de pessoas em famílias com renda de R$ 233 mensais per capita. Será o mesmo nível que o país tinha em 2014, antes de a recessão ter provocado o aumento da pobreza. O país havia conseguido reduzir o número de pobres em 73% desde 1990.
Para o economista Sergei Soares, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que faz projeções para a desigualdade, o Brasil ficou parado e manteve a elevada concentração de renda entre 2016 e 2017, com índice de Gini, que mede desigualdade, de 0,530 (quanto mais próximo de um, mais desigual é o país). Em 2030, estaremos em 0,507, a mesma taxa da Colômbia hoje.
- Se retomássemos o ritmo de queda da desigualdade experimentado nos anos 2000, chegaríamos a 2030 melhor que todo mundo na América Latina, com Gini de 0,449.
Silvana da Silva espera um futuro melhor para seus seis filhos. Aos 42 anos, ela lamenta só ter estudado até a terceira série. Começou a trabalhar como catadora de lixo aos 16 anos acompanhando a mãe no aterro sanitário de Gramacho, em Duque de Caixas, Baixada Fluminense, já desativado. Ela ainda mora na região, mas trabalha em uma cooperativa de reciclagem, onde ganha R$ 400 por mês. O marido consegue R$ 200 por semana com trabalhos informais:
- Mesmo com a cooperativa e o Bolsa Família, ontem não tinha nada para comer. Teve uma corrente do bem aqui, para doar cesta básica, água.
Segundo Soares, a população crescendo menos e começando a cair em 2035 vai ajudar a reduzir a desigualdade:
- Desde que o Brasil começou, sempre houve uma quantidade enorme de trabalhadores sem qualificação. Pela primeira vez na História, isso não vai acontecer. A migração do campo para a cidade já se consolidou. Somos um país urbano, onde 85% da população vivem nas cidades. A forte entrada da mulher no mercado de trabalho também já ocorreu.
Esse movimento deve diminuir a oferta de mão de obra, com reflexo positivo no salário e na distribuição de renda. Mas Soares diz que reforma tributária seria solução mais rápida e eficiente para melhorar a distribuição de renda:
- As alíquotas de Imposto de Renda no Brasil são ridículas. Todo o rendimento do capital é isento. Há muito imposto indireto que incide mais sobre os pobres. Mudar isso teria impacto violento na desigualdade.
Ele cita também a reforma da Previdência e investimento em educação, principalmente na melhoria da gestão, como outros indutores para queda da desigualdade.
Três anos de recessão e estagnação aumentaram a pobreza no Brasil. Pelas estimativas de Marcelo Neri, diretor da FGV Social, subiu de 8,32% da população em 2014 para 11,18% no ano passado.
Combater a desigualdade reduz a pobreza, diz Neri. Educação na primeira infância e saúde básica e preventiva, com foco nos mais pobres, são outras medidas para eliminar o problema:
- Diante das restrições orçamentárias, é fundamental focar as ações nos mais pobres.
Silvana espera que a educação possa livrar os filhos das mesmas dificuldades que ela viveu a vida toda. O mais novo, Isaac, tem 6 anos e deve chegar a 2030 aos 18 anos com ensino médio completo. Com ela, moram ainda outros quatro filhos, de 7, 10, 11 e 18 anos. Todos estão na escola. Isaac já fala em ser professor. Cassiane, de 10, quer ser cozinheira. Estefani, de 18, chegou a planejar ser aeromoça. O mais velho, de 25 anos, trabalha como soldador.
- Quero que meus filhos estudem, sejam alguém na vida. Tenho orgulho de ser catadora, mas não quero que eles sejam - diz Silvana.
O Globo, 07/10/2018, País, p. 24
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