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Nesta plantacao, o mosaico dourado e muito bem vindo

OESP, Vida, p.A27
06 de Mar de 2005

Nesta plantação, o mosaico dourado é muito bem-vindo
Cientistas torcem para que a praga se manifeste com força em mais um teste de campo do feijão transgênico
Quanto mais mosca branca, melhor. Na pequena plantação de feijão transgênico na unidade da Embrapa Arroz e Feijão, em Santo Antônio de Goiás, é hora de torcer para que o mosaico dourado se espalhe impiedosamente pelas fileiras de feijão convencional enremeadas com feijão transgênico. Somente com uma grande contaminação será possível testar com segurança a resistência da variante transgênica ao mosaico dourado, uma das pragas que mais atormentam os produtores de feijão no Brasil, grande parte dos quais pequenos agricultores.
A Bemisia tabaci, a mosca branca, transmissora do vírus do mosaico dourado, é na verdade um inseto minúsculo que em nada lembra a mosca convencional. Com a doença, os pés de feijão ficam mirrados, as flores abortam, as folhas ficam amarelas e deformadas - com um aspecto que imediatamente faz entender o porquê do nome "mosaico dourado" - e as vagens se retorcem e crescem muito menos do que o normal. Os caroços de feijão que o agricultor conseguir colher, por outro lado, são pequenos demais para serem comercializados. A doença só ataca em uma das três safras anuais do feijão - no início do ano - e pode levar a perdas variando entre 40% e 100% do que foi plantado.
A pesquisa transgênica para imunizar o feijão contra o mosaico dourado é do mesmo tipo que a Embrapa está empregando contra vírus que atacam o mamão e a batata. E, no Departamento de Fitopatologia da Universidade Federal de Viçosa, a mesma técnica está sendo empregada para criar uma variante de maracujá resistente ao vírus do endurecimento do fruto, a principal doença da planta.
Como explica o engenhenheoro agrônomo Francisco Aragão, da Embrapa, que trabalha no projeto do feijão, um gene do vírus é isolado , modificado e introduzido na planta. Com isso, a planta passa produzir uma proteína modificada daquele vírus., A proteína não é funcional para os vírus que eventualmente infectem o feijão. Ainda assim, sua presença na planta inibe os vírus de produzirem a própria proteína parecida. "É como se o vírus pensasse que aquela proteína é a dele e que, portanto, não precisa fabricar por si mesmo; mas ela na verdade não serve para ele e então o vírus não se multiplica", diz Aragão.
Os testes realizados pela Embrapa com o feijão transgênico vão muito além de simplesmente verificar se de fato ele está imunizado em relação ao mosaico dourado. Há experimentos para verificar se as propriedades alimentícias do feijão são as mesmas, se ele não apresenta nenhum risco como alimento, se a interação com o solo é igual à da planta convencional, se não há transmissão gênica - isto é, se o gene modificado não se alastra - e até se a resistência e a vulnerabilidade da nova variante é idêntica à da espécie normal em relação às pragas que não sejam o mosaico dourado.
Boa parte desses testes visa a verificar se o produto transgênico pode ou não ter algum impacto sobre o meio ambiente. F.D.

OESP, 06/03/2003, p. A27

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