VOLTAR

Nem o Brasil era grande, nem os índios gigantes

Amazonas em Tempo, Arte Final, p. Capa, 1
09 de jun de 1995

Nem o Brasil era grande, nem os índios gigantes
Documentário produzido pelo videasta Aurélio Michiles contando a verdadeira história dos índios Krenakarore será apresentado, amanhã, pela TV Educativa, às 21 h

Por Any Margareth

As notícias tomaram conta do país: homens de mais de dois metros povoam a área onde está sendo construída a rodovia Santarém-Cuiabá. Uma foto mostra um desses índios gigantes flechando um avião. Estamos vivendo o ano de 1970, em plena ditadura militar. Vivendo o país do "ame-o ou deixe-o". Um lugar de grandes florestas, do maior rio do mundo ... e, na nossa megalomania, não poderiam faltar os maiores índios do mundo. Assim os Krenakarore (Paraná) foram vistos pelos brancos. "Perigosos", já que "grandes e agressivos", quase foram exterminados. Os ex-índios gigantes hoje são apenas cem homens que lutam para receber de volta pelo menos uma parte do território que ocupavam.
Estes são fatos existentes na "verdadeira história dos índios Krenakarore" contada no vídeo-documentário "O Brasil Grande dos índios Gigantes", produzido pelo videasta Aurélio Michiles e pelo Instituto Socioambiental. Foram ouvidos os testemunhos de quem viu, e de certa forma, viveu o drama dos Paraná: Orlando e Cláudio Villas-Bôas, o economista Roberto Campos, o antropólogo Darcy Ribeiro, o ex-presidente da Funai, General' Ismarth de Araújo, jornalistas e ex-indigenistas da Funai. Os personagens centrais dessa história, os Paraná, contam as suas verdades e, "gigantescamente", falam do esforço para se recompor e lutar por um pedaço de chão que seja só deles.
Imagens
"No final da história nem o Brasil era grande, nem os índios eram gigantes", diz o videasta Aurélio Michiles sobre as conclusões tiradas deste trabalho. E vai mais além ao explicar: "Eu procurei com esse título "Brasil Grande dos Índios Gigantes" brincar com essa idéia porque no nosso país a gente sempre viveu esse imaginário brasileiro de ser maior em tudo, inclusive, nos altos índices de violência e nos grandes casos de injustiça social".
Aurélio explica ainda que a geração dos militares que instalaram a ditadura sofria desta mesma idéia de grandeza. Vinham impregnados do desejo de fazer do país uma grande potência- (senão a maior). Daí vem a compreensão para o tratamento que foi dado aos Paraná pelos militares. "Eles não tinham caído na realidade. Não sabiam que era mais fácil construir uma grande nação", opina.
Ele aponta dois motivos para ter feito este documentário. O primeiro deles é resgatar e restaurar grande número de imagens que, core o tempo, ficaram esquecidas Por outro lado, ele diz que questão do índio, por ele sei amazonense, sempre foi algo íntimo para ele. "O que nós somos aqui? Nós somos um povo essencialmente indígena, quer queiram quer não queiram. Nós somos índios", declara o videasta.
Pedaço de Chão
O lugar desejado pelos Paraná fica na Serra de Cachimbo, às margens do Rio Iriri, na divisa do Estado de Pará com Mato Grosso. No ano passado, a Fundação Nacional do Índio, Funai, reconheceu como legítima esta reivindicação, primeiro passo de um longo caminho para a retomada legal da terra. Mas, segundo informações de Aurélio Michiles, eles não estão parados esperando que demarquem essa área. "Eles já se deslocaram do Parque do Xingu para esse lugar e inclusive já começaram a construir a aldeia e a fazer o roçado", conta.
Voltar para o lugar de origem, paralelo à estrada Santarém-Cuiabá, os Parana sabem que é impossível. Conta Aurélio que a caça quase que desapareceu e os rios viraram lama por causa do trabalho dos garimpeiros na área. "Eles conhecem a realidade por isso buscaram uma outra área onde encontrar uma vida parecida com a que eles tinham".

Um lugar para viver às margens do rio Iriri, na serra do Cachimbo, divisa do Pará com Mato Grosso

Amazonas em Tempo, 09/06/1995, Arte Final, p. Capa, 1

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.