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Navios viram recifes para atrair peixes e turistas

OESP, Geral, p.A11-A12
28 de Mar de 2004

No fundo do mar, concreto é o melhor material
Como recife artificial, ele não altera a composição da água e facilita a fixação de organismos
Além de navios naufragados, os recifes artificiais podem assumir uma diversidade de outras formas e tamanhos - não necessariamente tão atraentes para mergulhadores quanto um porta-aviões de 265 metros, mas igualmente atraente para peixes, crustáceos e moluscos.
O material mais apropriado é o concreto, que, além de não alterar a composição química da água, tem longa duração e pode ser moldado em uma infinidade de estruturas. Sua superfície rugosa também facilita a fixação de organismos, segundo o pesquisador Roberto Ávila Bernardes, do Instituto de Oceanografia da Universidade de São Paulo. Ele coordena um dos principais projetos de recifes artificiais do País, entre as costas de Bertioga e Ubatuba, no litoral paulista. Entre 1998 e 2002, foram lançados ao mar 200 cubos de concreto vazado, de 1 metro cúbico cada. O recrutamento de vida foi imediato. Em apenas um ano, a espessura das colunas de concreto passou de 12 centímetros para 25 centímetros, tamanha a quantidade de organismos presos a ela.
"O substrato, a princípio, é artificial, mas rapidamente passa a ser parte da natureza", diz Bernardes. Mesmo em regiões aparentemente desertas de vida, a água está repleta de larvas e ovos da fauna e flora marinha, que só precisam de um lugar seguro para se fixar e crescer. "A água do mar é supernutritiva", completa o pesquisador. "A vida já está ali. Só estamos fornecendo uma estrutura para que ela se desenvolva."
Mais do que incentivar a reprodução de espécies, entretanto, o objetivo principal do projeto é dificultar - e, se possível, impedir - a pesca de arrasto, banida em vários países por ser considerada altamente destrutiva.
No Brasil, dependendo do Estado, a atividade é proibida a até 3 milhas da costa, mas a fiscalização praticamente inexiste. Nos pontos onde os recifes artificiais foram instalados, entretanto, o arrasto foi reduzido, afirma Bernardes. Além dos blocos de concreto, foram afundados também, em posições estratégicas, 44 manilhões e 180 trilhos de trem soldados em xis - como as armações antitanque usadas em campos de batalha.
As estruturas não só impedem a passagem das redes no fundo, mas criam um refúgio reprodutivo onde as espécies depredadas podem se recuperar. Esse também é o objetivo do Projeto de Recifes Artificiais Marinhos (RAM), iniciado em 1997, que já afundou mais de 1.700 unidades de concreto ao longo da costa do Paraná. Cerca de 99% da área marinha do Estado é de fundo arenoso, o que limita naturalmente a proliferação de pescado, mas fornece um prato cheio para a pesca de arrasto do camarão.
O projeto, desenvolvido pela Centro de Estudos do Mar (CEM) da Universidade Federal do Paraná e executado em parceria com o Instituto Ecoplan, utiliza principalmente as chamadas reef balls, ou bolas de recife - que, apesar do nome, parecem mais um grande casco de tartaruga com buracos -, e outras configurações básicas de concreto, como cones e cilindros. Ao todo, em quatro anos, foram criados mais de 14 mil metros quadrados de substrato recifal, excluindo do arrasto uma área de 283 hectares. Os grandes beneficiários são os pescadores tradicionais, que não precisam mais competir com as traineiras e têm agora um ecossistema mais produtivo e sustentável para trabalhar. "Queria dar ao meu conhecimento oceanográfico uma aplicação mais social", diz o idealizador do projeto, Frederico Brandini.
Aço - No Rio, o projeto da Petrobrás e da Coppe também tem obtido bons resultados com estruturas feitas de tubos de aço. "A agregação de vida é bastante significativa", diz o coordenador do projeto na Coppe, Segen Estefen. "Após seis meses, em muitos pontos não se vê mais o aço. Em dez anos, esperamos ter um recife completo, praticamente idêntico a um natural." Em sua próxima etapa, o projeto deve lançar ao mar 42 unidades de concreto, para comparar a capacidade de recrutamento biológico dos materiais. (H.E.)

Projetos exigem planejamento minucioso
A criação de recifes artificiais envolve muito mais do que a simples colocação de estruturas no fundo do mar. Cada projeto precisa ser minuciosamente planejado do ponto de vista científico, ambiental, econômico e social. "É muito importante que os recifes artificiais não sejam usados como desculpa para jogar qualquer coisa no mar", diz o professor de engenharia oceânica Segen Estefen, da Coppe-UFRJ.
No início, muitos projetos utilizavam pneus velhos amarrados ao fundo. Hoje, entretanto, não se recomenda o uso desse material, porque o risco dos pneus se soltarem e poluírem o ambiente é muito alto. Da mesma forma, navios afundados sem o devido preparo podem contaminar o ecossistema e ainda oferecer riscos para mergulhadores. "Há muitas críticas por causa de pessoas que fizeram projetos errados, sem planejamento adequado", admite Frederico Brandini, da UFPR.
Também é importante que cada recife artificial seja projetado para uma finalidade específica. Dependendo do local e das estruturas utilizadas, ele pode servir como um berçário de vida, ou simplesmente como um atrativo de peixes. "O medo é que o recife acabe se tornando mais uma armadilha de pesca", diz o biólogo Adriano Marenzi, da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), de Santa Catarina. "Não adianta criar mais um curral de peixes."
Com planejamento e monitoramento adequados, entretanto, os recifes artificiais podem se tornar importantes centros de reprodução da biodiversidade, com benefícios ambientais e econômicos. "Inicialmente, qualquer estrutura funciona como um atrativo", explica Roberto Ávila Bernardes, da USP. "Com o tempo, entretanto, o recife passa também a produzir vida e chega a um equilíbrio ecológico." A sustentabilidade desse novo hábitat, completa, vai depender de um plano de manejo, que permita a participação das comunidades e o uso responsável dos recursos. (H.E.)

OESP, 28/03/2004, p. A11 – A12

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