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A natureza vai seguir seu curso

O Globo, Ciência, p. 25
Autor: MAATHAI, Wangari
21 de Dez de 2009

A natureza vai seguir seu curso
Vencedora do Nobel da Paz defende reflorestamento e alerta para guerras ambientais

Entrevista: Wangari Maathai

Líder ambiental e Prêmio Nobel da Paz em 2004 por sua luta em defesa da natureza, a queniana Wangari Maathai é a mulher mais "neutralizada" do mundo. Seu grupo, o Green Belt Movement, já plantou mais de 45 milhões de árvores nos últimos 30 anos.

Wangari, que acompanhou em Copenhague a discussão do clima, defende o plantio de árvores como forma de lutar contra o aquecimento e alerta para o perigo de o mundo enfrentar cada vez mais guerras ambientais, como as que já se desenrolam na África, pondo em risco a segurança global. "Quando os recursos se tornarem escassos, as pessoas vão lutar por qualquer coisa que tenha restado."

Roberta Jansen
Enviada especial Copenhague

O Globo: A senhora acha suficiente a conferência ter terminado apenas com um acordo político?

Wangari: A presença de mais de cem chefes de Estado foi um passo importante. Mas os EUA precisam de mais tempo para se comprometer.
Não acho que tudo precisa ser feito como se fosse uma questão de vida ou morte.

É possível combater o aquecimento global plantando árvores?

Wangari: Algumas de nós plantam árvores há anos, mas o fazíamos pelos outros ser viços ambientais que elas oferecem. Agora, claro, como a ciência mostrou que de 17% a 20% das emissões vêm do desmatamento e da degradação das florestas, faz todo sentido plantar mais árvores e proteger as que estão de pé.

A África é a região mais pobre e a mais atingida pelo aquecimento.

Como as árvores ajudam?

Wangari: Na África devemos plantar árvores em escala maciça.
Os pobres tendem a destruir o meio ambiente porque precisam das fontes primárias de subsistência.
Vão cortar a última árvore para cozinhar a sua última refeição.
Precisamos das árvores para proteger o solo da desertificação.

A África, por outro lado, é uma das menos responsáveis pelo aquecimento.

Wangari: A natureza não se importa, infelizmente. Ela vai seguir o seu curso. Cabe a nós, africanos, entender que estamos muito ameaçados.

Os países ricos precisam também olhar para essa questão como sendo de segurança. Quando as pessoas estão ameaçadas pela desertificação, elas se deslocam para onde há terras férteis. E algumas vão para o norte. A África não fica longe da Europa. Se não quiserem lidar com os refugiados ambientais, é melhor que ajudem a resolver a questão.

Um estudo aponta para o aumento das guerras civis.

WANGARI: À medida que a água e a comida se tornam escassas, as pessoas lutam por qualquer coisa, como nascentes, terras mais férteis.

As guerras ambientais já estão ocorrendo? WANGARI: Sim. Um exemplo é o Sudão.

Não se chama de uma guerra ambiental, mas sabemos que, à medida que o deserto avança sobre o norte do país, tribos locais se deslocam para o sul. O fato de serem de origem árabe é uma desculpa: tribos árabes lutando com negros africanos.

Na verdade, querem terra.

Seu grupo plantou mais de 45 milhões de árvores. A senhora é a pessoa mais neutralizada do mundo?

Wangari: (risos) Sim, sou livre de carbono. Estou tentando, na verdade, mas ainda há muito trabalho a fazer.

A senhora diz que todos podem fazer pequenas coisas para ajudar.

Wangari: Eu falo de coisas pequenas porque sou simples. Outros deveriam falar de coisas grandes, como os governantes. É impossível proteger florestas na África sem oferecer ao povo outras fontes de energia (solar, eólica, hídrica). Há decisões em nível pessoal, institucional, governamental. É o conjunto delas que produz impacto. Por isso, todos devem pensar que têm uma contribuição a fazer

O Globo, 21/12/2009, Ciência, p. 25

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