OESP, Especial, Vida, p. H1-H8
02 de Out de 2008
Natureza em boas mãos
Dez pesquisadores e ambientalistas brasileiros contam seu trabalho para a preservação de matas, animais e povos tradicionais do País
Giovana Girardi
Nas mãos de quem está a proteção ao ambiente no Brasil? Certamente nas de algumas centenas, se não milhares, de pesquisadores, ambientalistas, ativistas que fazem da lida diária uma luta constante pela preservação.
Espalhados por todo o País, muitas vezes esses pesquisadores desenvolvem um trabalho que nem sempre ganha destaque.
Para mostrar alguns desses projetos dedicados à defesa do ambiente no País, o Estado conta a história de dez desses pesquisadores e ambientalistas. Os escolhidos foram, pela ordem das próximas páginas, Carlos Peres, Peter Crawshaw, o casal Claudio e Suzana Padua, Adriana Mattoso, Adelmar Coimbra-Filho, Ibsen Gusmão Câmara, padre Paulo Bezerra, Maria Adelina de Sousa Chagas e Leopoldo Magno Coutinho.
COINCIDÊNCIAS
Entre as histórias contadas nesse caderno uma das coincidências: cinco deles são biólogos (ou historiadores naturais, como se chamava o curso antigamente).
Peres, Padua e Crawshaw fizeram seu mestrado no mesmo curso de Biologia da conservação da Universidade da Flórida.
Padua foi levado a conhecer o mico-leão-preto pelas mãos de Coimbra, botânico por formação. Câmara e Adriana estiveram juntos no surgimento da organização não-governamental SOS Mata Atlântica.
Padua e Crawshaw se apaixonaram por ambiente com a série Caçando e Pescando em todo o Brasil, de Francisco de Barros Júnior. Os dois e Adriana tiveram seu momento-revelação no fim dos anos 70.
Coimbra e Câmara, após testemunharem a rapidez com que a mata atlântica foi destruída no Nordeste do Brasil, escreveram juntos o livro Os Limites Originais do Bioma Mata Atlântica na Região Nordeste do Brasil.
De olho nos castanhais
Carlos Peres aprendeu de pequeno que o sistema extrativista estava fadado ao fracasso; como biólogo ajuda a mudar o destino de sua terra
Giovana Girardi
O biólogo paraense Carlos Peres ainda estava no início da adolescência quando percebeu que a atividade do pai, um grande exportador de castanha-do-pará em Belém, iria sucumbir em algum momento, se continuasse sendo feita de modo intensivo. Aos 11 anos, via todas as castanhas sendo retiradas das árvores e começava a se questionar como é que elas iriam gerar novas castanheiras.
A dúvida, que provocou algumas brigas com o pai - "ele achava que aquilo tudo era bobagem"-, impulsionou o garoto a investigar os processos de devastação da Amazônia. Aos 16 anos, bateu na porta do Museu Paraense Emílio Goeldi e pediu estágio. "Eu tinha passado uns tempos nos Estados Unidos, falava bem inglês, então todos os associados estrangeiros do Goeldi me levavam para o campo. Descobri que era aquilo que eu queria da vida."
Enquanto estava no museu, entrou em biologia na Universidade Federal do Pará. Depois fez mestrado, doutorado e pós-doutorado no exterior, deu aulas na USP, em São Paulo, até não agüentar mais a capital paulista. Foi para a Universidade de East Anglia, na Inglaterra, mas nunca deixou de estudar os problemas do seu "quintal de infância".
"Já era muito óbvio quando eu era pequeno que os castanhais poderiam sucumbir, se alguém vai lá e cata 99% das sementes, mas eu só tinha 11 anos e não tinha como comprovar", lembra. Hoje, passados 20 anos de estudo de campo, o biólogo coletou estatísticas suficientes para pode dizer com segurança que o tão propalado desenvolvimento sustentável baseado em sistemas extrativistas supostamente benignos está fadado ao fracasso, se não houver um bom plano de manejo por trás.
Como as castanheiras têm alta longevidade, esses problemas só são percebidos com trabalhos também de longo prazo. Investigando os castanhais mais antigos, Peres notou que vem ocorrendo um "estrangulamento na taxa de recrutamento de plantas" - traduzindo, não está havendo tempo para nascerem novos indivíduos.
Algumas estimativas chegam a falar que são necessárias de 50 mil a 100 mil sementes para ter uma árvore adulta. Isso porque as sementes e as plântulas (um tipo de brotinho) podem ser comidos por predadores. "Se essa fase começa com poucas sementes, não chega nem a saciar a predação. Precisa ter muitos para que alguns sortudinhos possam crescer", explica com um leve sotaque inglês, adquirido após mais de dez anos vivendo em Norwich, na Inglaterra.
Além da retirada excessiva de sementes, os castanhais ainda são ameaçados pelo corte da árvore que, apesar de proibido, continua sendo feito, e pelo próprio avanço do desmatamento - a árvore não consegue sobreviver por muito tempo, se estiver isolada na floresta.
Para piorar, lembra Peres, a pressão de caça sobre mamíferos como as cutias, dispersores naturais das sementes, também ameaça a sobrevivência dessas árvores e das populações que vivem dela.
GENTE DEMAIS
Segundo seus cálculos, quando a presença humana ultrapassa a taxa de 0,1 pessoa por km² em algumas áreas, os mamíferos tendem a fugir dali. O que leva a concluir que um dos problemas mais difíceis de resolver é que na região tem gente demais.
Seu resultados, publicados em revistas científicas de peso como a americana Science têm chamado a atenção da imprensa e, por conseqüência, dos órgãos públicos. "Eles (o governo) ainda não lêem os artigos na fonte, mas, se sai no jornal, vêm me procurar", conta. São dados que estão servindo para modificar o paradigma sobre o desenvolvimento sustentável e podem em breve, espera Peres, balizar as políticas públicas.
O trabalho com os castanhais foi apenas parte de uma preocupação mais ampla do pesquisador com o que ele chama de "perturbação estrutural da floresta", onde avalia a cadeia de ações que têm levado a incêndios espontâneos cada vez mais freqüentes na mata. "Um dos maiores problemas da Amazônia hoje é que a floresta está ficando cada vez mais inflamável por uma conjunção de fatores, como secas promovidas pelo aquecimento global e pela ação de madeireiros."
De acordo com Peres, quando as árvores são retiradas seletivamente da mata acabam abrindo buracos no dossel que possibilitam o ressecamento das plantas remanescentes naquele espaço, ficando suscetíveis ao fogo. "A única coisa com capacidade para segurar essa vulnerabilidade são grandes extensões de floresta primária intacta, que funcionam como barreiras ao fogo", explica. A descoberta é mais uma justificativa para a criação de áreas protegidas.
Quem é:
Carlos Peres, 45 anos
Antes mesmo de ser biólogo, fazia pesquisas no Museu Paraense Emilio Goeldi
Fez pós-doutorado no Centro de Conservação Tropical da Universidade Duke
Passa agora parte do tempo na Universidade de East Anglia, na Inglaterra, e parte enfronhado no meio da mata
Informações na Internet
www.ipe.org.br
www.fflorestal.sp.gov.br
www.miqcd.org.br
www.fbcn.org.br
www.oeco.com.br/index.php/petercrawshaw
Pesquisador até 'fala' como onça
Paulista, Peter Crawshaw pensava em ser caçador, mas virou um dos maiores especialistas nos felinos
Giovana Girardi
Dizem que ele até se parece com onça, tamanha a familiaridade que tem com o animal, mas Peter Crawshaw só dá risada e desconversa, meio tímido, quando alguém faz a comparação. Na verdade ele até "fala" com as onças-pintadas, imitando a vocalização do animal tão bem que é capaz de assustar jacaré, uma de suas presas naturais.
Provavelmente o especialista brasileiro que mais entende do animal, Crawshaw começou a se interessar pelo maior felino das Américas com um desejo meio avesso ao de conservacionista. "Quando eu era guri, no Rio Grande do Sul, adorava livros de caça, principalmente aqueles de Francisco de Barros Junior, como a série Caçando e Pescando por todo o Brasil. Eu sonhava com o dia em que caçaria a 'minha' onça", conta. Mas ele só pegava mesmo algumas aves e ratões do banhado - com a idéia de fazer um casaco para a mãe.
O salto de caçador para pesquisador pioneiro sobre o animal veio com a faculdade, quando ele foi estudar História Natural, que logo depois se tornaria Biologia, na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).
No fim do curso, tomou conhecimento de que o biólogo alemão George Schaller, inventor da observação de feras na natureza, estava no Brasil procurando um lugar no Pantanal para estudar as onças. Crawshaw escreveu para Schaller se oferecendo como ajudante, mesmo achando que nem teria sua carta lida. Para sua surpresa, no entanto, foi convidado para participar dos estudos, fato que daria início a uma carreira de mais de 30 anos pesquisando onça.
A situação do animal na planície pantaneira um pouco antes de eles chegarem, no fim da década de 70, era dramática. Até 1974, as populações haviam diminuído muito, principalmente por causa de um longo ciclo de secas que permitiu a expansão do gado por toda parte. As onças passaram a atacar mais o gado - sendo, por conseqüência, muito mais caçadas. A extinção estava em progresso. Somente três regiões ainda tinham grandes populações.
Em 1977, quando Schaller e Crawshaw desembarcaram na fazenda onde iriam estudar os animais, a situação começava a mudar de novo por força da natureza. Uma cheia excepcional em 1974 havia alagado boa parte da região mais baixa, devastando as fazendas. Em um só município, Poconé (MT), dois terços do rebanho morreu afogado.
"Com o despovoamento de toda essa área central do Pantanal, e a ausência da caça, as onças puderam se recuperar, predando principalmente as capivaras e jacarés, que também aumentaram. Elas puderam voltar a ocupar áreas onde tinham sido localmente extintas, de modo que a recuperação das populações se deveu muito mais a isso e à lei de proibição à caça e à venda de pele que a projetos de conservação", explica.
Por conta disso, ele teme que, na próxima seca, a situação possa retroceder. "O risco não foi afastado. Apesar de a população ter aumentado, ainda hoje se mata muita onça, sim", diz. Seus estudos, no entanto, ajudaram a mudar um pouco a mentalidade dos fazendeiros. "Há 30 anos, quando cheguei lá, a regra era matar qualquer onça que passasse pela frente. Agora eles já dizem: não me incomodo com a onça desde que ela não me dê prejuízo."
Outra mudança é que muitos fazendeiros diversificaram, abrindo pousadas nas suas fazendas. "E muito turista vem ao Pantanal para ver onça-pintada, então os proprietários notaram que o dinheiro que ganham com o turismo compensa um eventual prejuízo pela predação."
Mas, há 30 anos, falar em proteger onça era assunto que causava olhares tortos de fazendeiros e empregados. Crawshaw conta que, na primeira fazenda onde eles se instalaram, os animais foram abatidos para forçar a saída deles do local. "O dono autorizou nossa estada, mas o administrador, que tinha interesse nas terras, não nos queria lá. Incitou todo mundo contra a gente. Quando vimos o que estava acontecendo, dois animais já tinham morrido."
Diante dos contratempos, Schaller decidiu trocar o campo de pesquisa e se mudou para a China, onde foi estudar pandas, deixando Crawshaw, então com 26 anos, sozinho para lidar com as onças. O animal, no entanto, era o menor dos problemas. Difícil foi trabalhar com o preconceito dos que duvidavam de sua capacidade de pegar a fera.
Mas o biólogo não só pegou como ajudou a desmitificar essa aura de ferocidade. "Descobrimos que, depois da primeira captura, muitas das nossas onças se tornaram até mais fáceis de capturar, dando a impressão de que elas já sabiam que não seriam machucadas." Seu trabalho também desvendou a personalidade oportunista do bicho. Ele notou que os felinos com acesso a presas naturais não matam o gado, mesmo convivendo diariamente com ele. Mas, uma vez que vêem como é fácil, aí se habituam a predar. A descoberta serve para pensar em formas de proteção que dificultem esse primeiro acesso. Com o gado protegido, a onça também estará.
Quem é:
Peter Crawshaw, 56 anos
Biólogo, técnico do Ibama, participou do 1.o estudo do País sobre a onça-pintada
Com os dados de 30 anos de estudo, ajuda a preservar o maior felino da América
Já se atracou com uma onça, mas jura que ela só ataca gente se ameaçada
Pesquisador até 'fala' como onça
Paulista, Peter Crawshaw pensava em ser caçador, mas virou um dos maiores especialistas nos felinos
Giovana Girardi
Dizem que ele até se parece com onça, tamanha a familiaridade que tem com o animal, mas Peter Crawshaw só dá risada e desconversa, meio tímido, quando alguém faz a comparação. Na verdade ele até "fala" com as onças-pintadas, imitando a vocalização do animal tão bem que é capaz de assustar jacaré, uma de suas presas naturais.
Provavelmente o especialista brasileiro que mais entende do animal, Crawshaw começou a se interessar pelo maior felino das Américas com um desejo meio avesso ao de conservacionista. "Quando eu era guri, no Rio Grande do Sul, adorava livros de caça, principalmente aqueles de Francisco de Barros Junior, como a série Caçando e Pescando por todo o Brasil. Eu sonhava com o dia em que caçaria a 'minha' onça", conta. Mas ele só pegava mesmo algumas aves e ratões do banhado - com a idéia de fazer um casaco para a mãe.
O salto de caçador para pesquisador pioneiro sobre o animal veio com a faculdade, quando ele foi estudar História Natural, que logo depois se tornaria Biologia, na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).
No fim do curso, tomou conhecimento de que o biólogo alemão George Schaller, inventor da observação de feras na natureza, estava no Brasil procurando um lugar no Pantanal para estudar as onças. Crawshaw escreveu para Schaller se oferecendo como ajudante, mesmo achando que nem teria sua carta lida. Para sua surpresa, no entanto, foi convidado para participar dos estudos, fato que daria início a uma carreira de mais de 30 anos pesquisando onça.
A situação do animal na planície pantaneira um pouco antes de eles chegarem, no fim da década de 70, era dramática. Até 1974, as populações haviam diminuído muito, principalmente por causa de um longo ciclo de secas que permitiu a expansão do gado por toda parte. As onças passaram a atacar mais o gado - sendo, por conseqüência, muito mais caçadas. A extinção estava em progresso. Somente três regiões ainda tinham grandes populações.
Em 1977, quando Schaller e Crawshaw desembarcaram na fazenda onde iriam estudar os animais, a situação começava a mudar de novo por força da natureza. Uma cheia excepcional em 1974 havia alagado boa parte da região mais baixa, devastando as fazendas. Em um só município, Poconé (MT), dois terços do rebanho morreu afogado.
"Com o despovoamento de toda essa área central do Pantanal, e a ausência da caça, as onças puderam se recuperar, predando principalmente as capivaras e jacarés, que também aumentaram. Elas puderam voltar a ocupar áreas onde tinham sido localmente extintas, de modo que a recuperação das populações se deveu muito mais a isso e à lei de proibição à caça e à venda de pele que a projetos de conservação", explica.
Por conta disso, ele teme que, na próxima seca, a situação possa retroceder. "O risco não foi afastado. Apesar de a população ter aumentado, ainda hoje se mata muita onça, sim", diz. Seus estudos, no entanto, ajudaram a mudar um pouco a mentalidade dos fazendeiros. "Há 30 anos, quando cheguei lá, a regra era matar qualquer onça que passasse pela frente. Agora eles já dizem: não me incomodo com a onça desde que ela não me dê prejuízo."
Outra mudança é que muitos fazendeiros diversificaram, abrindo pousadas nas suas fazendas. "E muito turista vem ao Pantanal para ver onça-pintada, então os proprietários notaram que o dinheiro que ganham com o turismo compensa um eventual prejuízo pela predação."
Mas, há 30 anos, falar em proteger onça era assunto que causava olhares tortos de fazendeiros e empregados. Crawshaw conta que, na primeira fazenda onde eles se instalaram, os animais foram abatidos para forçar a saída deles do local. "O dono autorizou nossa estada, mas o administrador, que tinha interesse nas terras, não nos queria lá. Incitou todo mundo contra a gente. Quando vimos o que estava acontecendo, dois animais já tinham morrido."
Diante dos contratempos, Schaller decidiu trocar o campo de pesquisa e se mudou para a China, onde foi estudar pandas, deixando Crawshaw, então com 26 anos, sozinho para lidar com as onças. O animal, no entanto, era o menor dos problemas. Difícil foi trabalhar com o preconceito dos que duvidavam de sua capacidade de pegar a fera.
Mas o biólogo não só pegou como ajudou a desmitificar essa aura de ferocidade. "Descobrimos que, depois da primeira captura, muitas das nossas onças se tornaram até mais fáceis de capturar, dando a impressão de que elas já sabiam que não seriam machucadas." Seu trabalho também desvendou a personalidade oportunista do bicho. Ele notou que os felinos com acesso a presas naturais não matam o gado, mesmo convivendo diariamente com ele. Mas, uma vez que vêem como é fácil, aí se habituam a predar. A descoberta serve para pensar em formas de proteção que dificultem esse primeiro acesso. Com o gado protegido, a onça também estará.
Quem é:
Peter Crawshaw, 56 anos
Biólogo, técnico do Ibama, participou do 1.o estudo do País sobre a onça-pintada
Com os dados de 30 anos de estudo, ajuda a preservar o maior felino da América
Já se atracou com uma onça, mas jura que ela só ataca gente se ameaçada
Mico, sem-terra e ensino
Casal que largou tudo pela biologia ajudou a salvar espécie e lançou novas bases da educação ambiental
Giovana Girardi
"Viva 1977!" A plaquinha com esses dizeres que ficava pendurada em uma parede da casa de Suzana e Claudio Padua costumava servir para lembrar ao casal, nos momentos de dificuldade financeira, que o ano em que Claudio tinha resolvido largar a carreira bem-sucedida como administrador para virar ambientalista simbolizava uma decisão acertada.
Foi uma mudança drástica de rumos que resultaria, alguns anos depois, no salvamento de ao menos uma espécie da mata atlântica, no desenvolvimento de um projeto de educação ambiental que envolve de assentados sem-terra de São Paulo a comunidades tradicionais da Amazônia e na criação de uma das ONGs ambientais mais engajadas do País, o Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ).
Essa história começou quando Claudio "enlouqueceu", como hoje brinca Suzana. Aos 30 anos, já com o primeiro filho nascido, mas sem ver sentido no que estava fazendo de sua vida profissional, decidiu largar tudo para fotografar o meio ambiente. Ficou um ano nesse projeto, enquanto a mulher, na época programadora visual, segurava as pontas da casa. Ao ver que o projeto não estava dando certo, ele resolveu procurar emprego na área de conservação, mas foi aconselhado a, antes, estudar biologia.
Entrou no primeiro vestibular que viu pela frente, da Universidade Gama Filho, e no fim do curso foi convidado a trabalhar com o primatologista Adelmar Coimbra-Filho (mais informações sobre o pesquisador na página 6), que o levou a conhecer o macaquinho que se tornaria o centro do seu trabalho - o mico-leão-preto, espécie dada como extinta havia décadas. Coimbra havia reencontrado alguns exemplares do animal na reserva do Morro do Diabo, no Pontal do Paranapanema (SP), e Padua se propôs a estudá-lo a fim de salvar a espécie.
Quando chegou lá pela primeira vez, em 1984, a população estimada era de cem indivíduos, hoje são pelo menos 1,2 mil, o suficiente para mudar a situação de "criticamente em perigo" para só "em perigo". Em 1987, ele então se mudava com mulher e três filhos para estudar os micos no Pontal para sua tese de doutorado. "Fui acreditando que a gente ficaria um ano, mas ele me engambelou, ficamos três", conta Suzana, com uma piscadela. Após muito choro escondido por não ter nem casa para morar - eles ficaram abrigados no parque -, ela reconhece que ali encontrou também seu novo rumo.
Enquanto Claudio investigava os hábitos do mico-leão-preto, Suzana ficava aflita com as pressões ambientais que o parque vinha sofrendo e com a falta de consciência da população. "Ouvia o pessoal perguntando: Por que não põe tudo abaixo e coloca gado no lugar? Aí resolvi que tinha de falar com eles. Mas comecei de forma ingênua, só para dar uma contribuição enquanto morasse lá."
Paradoxalmente, o projeto só tomou corpo, e acabou se estendendo para além do período de pesquisas de campo, quando Claudio sofreu um forte revés em suas pesquisas.
Na época, estava confiante na promessa de um fazendeiro de proteger um remanescente de mata atlântica que havia em suas terras e onde viviam alguns micos. "Ele me falou para ficar tranqüilo e tranqüilo eu estava. Um dia anoiteceu com o fragmento lá e, no dia seguinte, ele tinha desaparecido e os micos, sumido. Esse momento foi chocante para mim", conta.
MUITO ALÉM DOS ANIMAIS
O trauma serviu para ele e Suzana descobrirem que se não trabalhassem com gente não teriam resultado. "Até então eu tinha certeza absoluta de que salvaria o mico só com pesquisa, com conhecimento ecológico. Achava que, se eu soubesse tudo, ia poder manejar a espécie e salvá-la. Ledo engano. Naquela ocasião eu sabia tudo, mas isso não ajudou em nada."
Era o gancho para iniciar os projetos de educação ambiental. Ele admitiu que, naquela ocasião, não sabia muito bem como convencer as pessoas, então Suzana assumiu a missão. As informações que Claudio coletava na mata sobre o mico e a floresta, ela depois "digeria" e passava de maneira acessível para a população nas escolas, na rádio, em festivais, feiras. "Nós, ambientalistas, tendemos a ser péssimos comunicadores, porque estamos sempre mostrando coisas ruins, perigosas. Descobri que as pessoas querem ter a sensação de participação. E querem saber como podem contribuir."
Quando a população já estava engajada, com orgulho de ter o mico-leão-preto como vizinho, começaram as ocupações de sem-terra no Pontal, no início dos anos 90. Suzana achou que, naquele momento, iriam perder tudo o que haviam conquistado, mas, em uma negociação que consideraram histórica, Claudio fechou um acordo de cooperação com o então líder dos sem-terra José Rainha.
ENGAJAMENTO SEM-TERRA
"Eles propuseram plantar árvores em suas terras. Nós agilizamos o processo, fizemos um viveiro-escola e eles iam lá coletar as mudas. A princípio, só queriam saber de eucalipto, aos poucos fomos conseguindo incluir árvores nativas e frutíferas e depois madeira de lei. O trato foi deixar os assentados cortá-las no futuro, em uns 25 anos, depois que elas já tivessem dado fruto. "Como se fosse uma caderneta de poupança", explica Suzana.
Hoje, o trabalho de conservação do IPÊ continua com cerca de 450 famílias de assentados na região do Pontal. Ao mesmo tempo em que cultivam suas roças e pequenas florestas de eucalipto e criam gado, operam 25 viveiros comunitários de árvores nativas, obtendo uma renda extra com a venda de mudas. Alguns plantam café orgânico com floresta - árvores nativas em meio ao cafezal para conferir-lhe uma temperatura mais amena, ao mesmo tempo que serve para o reflorestamento.
Em geral, tanto os assentados quanto fazendeiros do Pontal colaboram com o IPÊ em projetos de corredores ecológicos e reforço das bordas do parque para garantir a conservação dessa biodiversidade.
Do lado feminino, Suzana criou um sistema de artesanato de camisetas com motivos da natureza e buchas em formato de bicho. "Elas foram aprendendo que só vão ganhar se a natureza ganhar. Não terá como fazer bordado do mico, por exemplo, se o animal não existir mais na região", afirma. "A gente juntou a educação ambiental com a possibilidade de essas pessoas melhorarem de vida economicamente. Trouxemos uma alternativa de desenvolvimento sustentável", complementa.
DO PONTAL AO MESTRADO
E o aprendizado ocorreu dos dois lados. Tanto Suzana quanto Claudio foram experimentando, na prática, formas de atingir essa população, enquanto também formavam uma nova equipe de pesquisadores e educadores ambientais.
O conhecimento adquirido foi tanto que, em meados da década de 90, Claudio começou a bolar a criação de um mestrado do próprio IPÊ em conservação. "Fazendo uma reflexão recentemente percebi que o que eu fiz de mais legal na vida foi não aceitar o não. Todo mundo me dizia que uma ONG não pode ter um mestrado. Se eu tivesse aceito isso, não teria feito esse projeto tão bacana", conta.
A idéia ficou mais de 16 anos em gestação, mas nasceu, enfim, neste ano. Em março, teve início na sede de Nazaré Paulista a primeira turma do mestrado profissional em ecologia. É o primeiro curso de uma universidade que está em planejamento.
"Passamos esse período todo formando a base das pessoas que dariam aula nesse mestrado. Criamos no IPÊ dezenas de novos pesquisadores", afirma Claudio. "Quando falei disso pela primeira vez, em 1992, para a USP, eles não me entenderam, não gostaram muito da idéia de haver uma pós mais voltada para a ação e não só para o procedimento tradicional de tese ir para a prateleira. Então acho que a demora foi válida para criarmos um pequeno exército com esse pensamento inovador."
Quem é:
Suzana Padua, 57 anos, Claudio Padua, 60 anos
Biólogo, ele coordenou a recuperação do mico-leão-preto, que estava criticamente ameaçado de extinção
Designer, ela se especializou em educação ambiental
Juntos criaram o IPÊ e o 1.o curso de mestrado profissional em ecologia do País
Braveza para proteger
Coimbra já lutava para salvar espécies quando não havia preocupação com ambiente
Giovana Girardi
Quem vê Adelmar Coimbra-Filho, de 74 anos, ao lado de sua cadela Nana, uma bichon frisé branca como os cabelos de seu dono, pode até visualizá-lo como um avô de bochechas rosadas que não se mete em encrencas. Bastou Coimbra começar a falar sobre a destruição da mata atlântica ou da Amazônia, no entanto, para mostrar que a aposentadoria não lhe trouxe papas na língua.
Entre uma bronca nos "imbecis" que plantam árvores exóticas, em vez de nativas, nas praças do Rio, e uma esbravejada contra os "cretinos" que queimam a floresta amazônica antes que se conheça aquela biodiversidade, Coimbra vai mostrando a ousadia que o tornou um dos principais defensores do ambiente no Brasil, mas que também lhe rendeu bons bate-bocas.
Botânico por formação, o pesquisador acabou se dedicando ao estudo de animais, quando virou chefe-científico do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro. Foi parar ali meio por castigo: havia impedido duas "madames" de levarem embora um vaso do patrimônio do Parque da Cidade, na Gávea, onde iniciou a carreira. Mas no novo cargo pegou gosto pelos bichos e acabou repovoando com espécies típicas várias matas do Rio, em especial o Parque Nacional da Tijuca. Reintroduziu por sua própria conta, por exemplo, tucanos, periquitos, jacus e outros bichos que hoje existem na zona sul da cidade. Nunca deixou de olhar, porém, para a mata. Na Tijuca, ele se preocupou em fazer reflorestamento com o palmito juçara - espécie que alimenta dezenas de aves e pequenos roedores - e conta que em todo o Rio é possível encontrar árvores plantadas por ele.
"Uma vez me perguntaram se sou zoólogo ou botânico. Respondi que sou um zoólogo sério - se trabalho com macaco, tenho de conhecer a área onde ele vive, então preciso entender a floresta", afirma com seu tom meio bravo e indignado com a pergunta.
Mas foi com o estudo de primatas que atingiu seus principais resultados, sendo considerado pai da primatologia no Brasil. Ajudou a salvar sagüis e o mico-leão da cara dourada e fez pesquisas pioneiras sobre vários macacos brasileiros. Em 1970, realizou provavelmente o seu maior feito: redescobriu o mico-leão-preto na reserva do Morro do Diabo, no Pontal do Paranapanema (região oeste do Estado de São Paulo), fazendo os primeiros estudos sobre o comportamento desses animais. A espécie não era vista na natureza havia várias décadas e já era considerada extinta. "De repente, estava andando na mata quando olhei para cima e vi três, pretinhos. Não tinha erro, só podia ser ele. Foi uma emoção que nem sei descrever direito", conta. O achado lhe permitiu levar alguns exemplares para testar a então inédita reprodução em cativeiro da espécie.
Anos depois, quando já havia inaugurado o Centro de Primatologia do Rio, local onde formaria vários primatólogos do País, como Claudio Padua (mais informações sobre o pesquisador na página 4), Coimbra foi informado que os poucos micos existentes no Pontal estavam ameaçados pelo crescente desmatamento e pela inundação provocada pela construção de uma nova usina. Correu para lá com o jovem Claudio a tiracolo, dando início ao trabalho de salvamento da espécie.
MÁGOA GUARDADA
Ao mesmo tempo em que comenta com orgulho esse trabalho, Coimbra revela mágoa com o que considera falta de reconhecimento. "O paulista é muito ingrato comigo. O Instituto Florestal fez um livro sobre o Morro do Diabo, em 2006, e nem citou meu trabalho, mas foi a redescoberta do mico-leão-preto que forçou a transformação da então reserva em parque. Foi isso que salvou aquela região."
Coimbra guarda a impressão que, em geral, foi mal-aproveitado pelo País. Se dependesse da sua vontade, estaria até hoje agindo em defesa do ambiente. "Acho que ninguém me entendia", lamenta, antes de arrematar. "Restaurar a bacia do Rio São Francisco era o meu xodó, mas não me chamam para nenhuma reunião."
O reconhecimento, no entanto, está espalhado pelas estantes do apartamento de Coimbra na Gávea, no Rio. Em livros de diversos outros primatólogos de renome mundial, o brasileiro é citado como referência, e com reverência. Para "provar", mostra orgulhoso dedicatória escrita por Russell Mittermeyer, presidente da ONG Conservação Internacional, em uma série de luxo sobre biodiversidade. Na obra, o americano chama Coimbra de "eco-herói" e agradece: "Obrigado por conduzir-me sob suas asas e servir de inspiração."
No livro Lion Tamarins Biology and Conservation, de Devra Kleiman e Anthony Rylands, que abordam várias espécies de mico-leão, Coimbra conta 36 referências aos seus estudos e relê a dedicatória feita pelos autores ao "verdadeiramente extraordinário homem que sempre nos desafiou a fazer o nosso melhor e manter questionando, que nunca oscilou de suas crenças e sempre inspirou tantos a buscar uma carreira em primatologia e conservação".
Quem é:
Adelmar Coimbra-Filho, 74 anos
Formado em História Natural, começou a carreira como botânico, mas depois abraçou a zoologia
Foi chefe do Jardim Zoológico do Rio, onde introduziu diversas espécies nativas
Criou o Centro de Primatologia do Rio
A visão que vem do mar
Almirante Câmara adotou a conservação já na década de 60
Giovana Girardi
Em plena década de 60, quando o governo brasileiro olhava para a Amazônia como uma região a ser ocupada, explorada e desenvolvida, um almirante da Marinha percebeu que aquele movimento não poderia dar certo e resolveu se manifestar contra isso. Hoje reformado, Ibsen Gusmão Câmara, aos 84 anos, lembra que, na época, falar em conservação era como "pregar no deserto", mas foi graças à sua insistência que foram criadas no País algumas regras de proteção ao ambiente.
Ele conta que desde criança gostava da natureza e, nos tempos de escola, ficava intrigado com uma inscrição que constava em seu atlas. Acima de Mato Grosso aparecia escrito apenas "áreas inexploradas". Ficou decidido a um dia conhecê-las. De fato, foi quando esteve naquele território desconhecido que despertou para a questão ambiental.
Coordenando as atividades de uma frotilha da Marinha na Amazônia, ele teve a chance de vasculhar toda a área navegável do Amazonas. "Aquele período me permitiu um contato íntimo com a realidade da floresta. Já naquela época havia muita destruição. O Código Florestal (de 1965, que estabelece uma área de reserva legal que não pode ser desmatada) e a lei de proteção à fauna (de 1967) estavam em vigor, mas ainda se caçava quantidades assombrosas para exportação de peles. Presenciei ali uma destruição progressiva."
Dois anos depois, em 1969, ao voltar para o Rio, decidiu se engajar na luta pela conservação e se afiliou à única ONG ambiental da época, a Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza, a qual presidiria após a aposentadoria. Autodidata, aprendeu por conta própria sobre biologia para poder falar com propriedade sobre proteção.
Posteriormente, Câmara também faria parte do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama). "Era um pouco frustrante porque a gente mostrava que as coisas não estavam bem, mas ninguém ouvia, só queriam saber de desenvolvimento. Achavam que tudo aquilo era só para proteger 'bichinho', sem ver que estávamos destruindo as bases que nos sustentam", conta.
Câmara afirma que nunca enfrentou problemas por falar de conservação enquanto pertencia às Forças Armadas, mas, por "precaução", costumava pedir à filha que assinasse alguns de seus artigos denunciando problemas ambientais.
CONQUISTAS
Entre as muitas campanhas em que se engajou, as duas maiores conquistas de Câmara foram a proibição à caça de baleias no Brasil e a definição do que é a mata atlântica. No primeiro caso, foi preciso lutar contra interesses comerciais. No segundo foi contra uma longa tramitação no Congresso.
"A caça à baleia foi uma das muitas coisas que eu vi que estavam erradas e me empenhei nisso, porque ninguém ligava, e os japoneses estavam livremente no Nordeste caçando. Eu comecei a brigar, brigar, brigar, busquei argumentos, tentei mostrar que não tinha por que matar o animal e que as baleias iam se extinguir se aquilo não parasse."
A batalha levou mais de dez anos, até que, em 1989, a caça foi proibida. "O movimento tomou corpo e mudou completamente a orientação do País. O Brasil chegou a defender, na Comissão Internacional Baleeira, a caça e hoje é radicalmente contra."
Em relação à floresta tropical, ele trabalhou com a ONG SOS Mata Atlântica para criar o Plano de Ação para a Mata Atlântica. Foi com base em seus estudos que, em 1991, se definiu legalmente o que era a floresta, favorecendo a proibição do corte. Foi o ponto de partida que levaria à formulação do projeto de lei de proteção a esse bioma, aprovado no ano passado, após 14 anos de tramitação no Congresso.
Quem é:
Ibsen Gusmão Câmara, 84 anos
Almirante da Marinha, desenvolveu seu lado ambientalista ao ver a devastação da Amazônia
Foi presidente da Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza
Padre conscientiza com 'novena verde'
Orações em São Paulo incluem temas, como a reciclagem
Giovana Girardi
Com a experiência de quem viu o bairro se deteriorar nos últimos 26 anos, com o aumento de favelas, do lixo e da poluição, o padre Paulo Sergio Bezerra, de Itaquera (zona leste de São Paulo), percebeu que estava em suas mãos o papel de conscientizar seus fiéis sobre os problemas urbanos que resultam em danos ao meio ambiente.
Da escola da Teologia da Libertação, o padre de 54 anos já vinha desenvolvendo um trabalho mais voltado para as questões sociais e políticas da paróquia, mas não tinha nada de ambientalista. As coisas mudaram quando ele se deu conta, de uns anos para cá, que os problemas ambientais superavam todos os outros em urgência, diante das ameaças de escassez de água e do aquecimento global.
Os freqüentadores da igreja vivem em uma área com grandes focos de favelização em meio a remanescentes de mata atlântica, o que faz com que a ligação entre proteção ambiental e justiça social seja direta. "Quando cheguei aqui, há 26 anos, o Rio Jacu corria caudaloso, limpo, hoje virou um canal de esgoto. O lixo espalhado pelas ruas está demais, as pessoas não têm consciência sobre o problema do trânsito, só querem alcançar o sonho de ter um carro. É uma situação difícil", explica o padre.
Movido pela preocupação de levar esses temas para uma população que vive em meio a grandes problemas ambientais e, na maioria das vezes, nem sequer os identifica ou sabe lidar com eles, mas que, ao mesmo tempo, se sente insegura com o que ouve falar sobre mudanças climáticas, por exemplo, Bezerra resolveu tomar uma atitude.
O primeiro alvo foi a tradicional novena, evento geralmente focado em orações, que se tornou uma ferramenta para transmitir conhecimento e tentar mobilizar a população. "Concluí que a comunidade tinha de se aprofundar nesses temas para poder agir. Queria despertar a sociedade, mas confesso que não sabia bem como", conta.
Sem se intimidar, ele procurou quem sabia. Entrou em cena, então, uma prima distante, a jornalista e socióloga Maristela Bernardo, presidente do Instituto Internacional de Educação do Brasil, que há anos trabalha pela promoção do desenvolvimento sustentável no País.
Ela recorreu a amigos ambientalistas para montar uma semana de palestras e debates durante o ofício religioso. Foram convidadas para palestrar pessoas destacadas nessa luta, como Fábio Feldmann, secretário-executivo do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas, o jornalista André Trigueiro, especializado em ambiente, o advogado Marcelo Cardoso, do Instituto Socioambiental (ISA), e Oscar de Moraes, da Agência Nacional de Águas. A "novena verde"atraiu mais de 400 pessoas por dia que, mesmo depois de gastarem horas em viagens de ônibus e metrô para chegar ao bairro à noite, após o trabalho, se dispuseram a ouvir sobre meio ambiente. Foi apenas o primeiro passo.
Passado o evento, Bezerra criou na paróquia uma pastoral do meio ambiente - um grupo de oito pessoas que, com apoio de Cardoso, do ISA, busca formas de manter o tema em discussão. Uma delas foi inserir mensagens ambientais no folheto da missa dominical (são 2 mil exemplares distribuídos em 11 igrejas da região).
Ao lado das leituras do evangelho, os fiéis se deparam com frases que pregam reciclagem de lixo, ensinam como fazer o descarte adequado do óleo de cozinha ou de pilhas, orientam pela consumo de menos sacolas plásticas de supermercado etc. É um ensinamento novo a cada domingo.
Quem é:
Paulo Sergio Bezerra, 54 anos
Padre da Paróquia de Itaquera, zona leste de SP
Conscientiza população sobre problemas urbanos e ambientais em novenas e missas
Na luta pelo babaçu
Quebradeira de coco no MA, Maria Adelina entendeu que é preciso proteger a palmeira para a comunidade sobreviver
Giovana Girardi
Talvez poucas pessoas na Amazônia entendam tão bem quanto Maria Adelina de Sousa Chagas que a proteção ao meio ambiente está diretamente relacionada à própria sobrevivência. Quebradeira de coco de babaçu desde os 7 anos, Dada, como ela prefere ser chamada, é hoje, aos 50 anos, símbolo da luta pela preservação dessas palmeiras localizadas na fronteira oriental da Amazônia, das quais vivem cerca de 400 mil mulheres.
"Aprendi com minha mãe a quebrar coco quando tinha só 7 anos, casei com 15, continuei quebrando coco, minhas filhas sabem quebrar coco, minha vida foi quebrar coco, só parava no resguardo após cada parto", conta. Mas nem sempre Dada sentiu esse orgulho de si mesma. Por muito tempo, na verdade, ela só "obedecia ordens", como se lembra. A virada aconteceu quando Dada descobriu que tinha o poder de mudar o rumo de sua vida.
"Era 1985, começava a valer o Plano Nacional de Reforma Agrária e a nossa comunidade (São José dos Mouras, no interior do Maranhão) foi uma das escolhidas para virar assentamento. Pela primeira vez, senti que fazia parte de algo maior. Até então era só uma fêmea, uma reprodutora. Me tornei mulher a partir do momento em que vi que o mundo não era só o povoado em que eu vivia, que tinha direito à saúde, à educação."
Na época, as quebradeiras estavam vendo sua atividade ameaçada pelo desmatamento dos babaçuais e por fazendeiros que proibiam sua entrada em terras particulares, às vezes com violência. "Compreendi que cada palmeira derrubada acabava com a sobrevivência de uma família. Se não preservar (o babaçu), a gente vai desaparecer", afirma.
QUALIDADE DE VIDA
Após essa epifania, a defesa do meio ambiente se tornou sua luta, juntamente com o trabalho para dar voz e qualidade de vida às mulheres. Em um primeiro momento, Dada e mais sete quebradeiras de coco de quatro municípios do Maranhão se uniram em uma articulação para defender os babaçuais e o acesso delas às palmeiras. Com o passar do tempo, outras foram se agregando até que o movimento virou interestadual, reunindo hoje mais de 5 mil mulheres também do Pará, do Piauí e do Tocantins. Nos quatro Estados, os babaçuais ocupam cerca de 18 milhões de hectares.
A ação se dava basicamente por duas frentes: os empates - linha de mulheres fazendo uma barreira corporal para impedir a derrubada, no mesmo modelo usado pelos seringueiros do Acre - e articulações com os Legislativos dos municípios e dos Estados para a implantação de leis do babaçu livre.
A primeira cidade a adotar a lei foi Lago do Junco (no interior do Maranhão), em 1996, e desde então mais 14 aderiram. Agora as quebradeiras brigam por uma lei nacional, que foi apresentada ao Congresso. "Está tramitando, mas a bancada ruralista não está gostando nada da idéia", conta.
Agora as quebradeiras enfrentam nova ameaça: a queima do coco inteiro, transformado em carvão para abastecer siderúrgicas. "Os fazendeiros vendem direto o coco para as empresas ou alugam as terras para peões fazerem isso. Eles competem direto com a gente. Nem querem nos ver por perto", conta Maria Adelina.
De acordo com ela, a situação mais delicada ocorre no Pará, onde a ação dos fazendeiros é historicamente mais truculenta. "A pressão nos últimos anos só vem aumentando. Há 40 anos tínhamos mata por aqui, hoje é só capoeira, com algumas palmeiras espalhadas. O preço subiu, o que é bom para gente, mas a pressão também aumentou."
Quem é:
Maria Adelina de Sousa Chagas, 50 anos
Coordenadora do Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu
Liderou ações para livre acesso às palmeiras
Concluiu o magistério após os 40 anos de idade, mas descobriu que queria mesmo era ser quebradeira
Pioneiro do cerrado cria nova forma de proteção
Leopoldo Coutinho descobriu impacto positivo de incêndios sobre vegetação
Giovana Girardi
Para conservar os remanescentes do cerrado, é preciso colocar fogo na vegetação. A idéia pode até parecer absurda para quem não conhece as peculiaridades do bioma, mas tem a chancela de um dos maiores especialistas brasileiros no assunto, o pesquisador paulista Leopoldo Magno Coutinho.
Hoje aposentado do Departamento de Ecologia da Universidade de São Paulo (USP), Coutinho foi do primeiro grupo de pesquisadores que se lançou em direção ao cerrado. É também pioneiro nos estudos sobre o papel do fogo sobre aquele ambiente. Ele descobriu que das cinzas várias espécies de plantas ressurgem revigoradas, oferecendo uma nova visão sobre um evento que parecia ser só destrutivo.
Esse foi seu primeiro grande feito. O segundo foi criar uma nova geração de cientistas que pegou do professor o gosto pelo cerrado nas tradicionais excursões com alunos que Coutinho fazia ao campo. Com o passar dos anos, já como colegas de seu mentor, participaram de uma série de trabalhos que hoje auxilia a desenvolver formas de conservação para este que é um dos biomas mais ameaçados do Brasil.
OBRA DA SORTE
Coutinho credita à sorte boa parte dos acontecimentos que o levaram a entrar nessa área e a fazer algumas de suas mais importantes descobertas. "Por sorte surgiu uma vaga de auxiliar de técnico de laboratório quando eu estava no segundo ano da faculdade (do então curso de História Natural, na USP, em meados dos anos 50). Depois, assim que me formei, também por sorte, abriu uma vaga de terceiro assistente do professor Mario Guimarães Ferri", conta.
Foi Ferri quem, durante a graduação, o levou para Pirassununga (no interior de São Paulo) para estudar a vegetação típica do cerrado - seu primeiro contato com o bioma. Já como assistente, ele continuou trabalhando nessa área no interior de São Paulo e em vários outros trechos de cerrado, em especial no Brasil central. No entanto, levaria ainda mais de uma década para ele se deparar com seu principal objeto de estudo, o fogo. E de novo, por "sorte".
Coutinho já era professor de Ecologia Vegetal na USP quando, em 1969, em uma excursão com alunos para Pirassununga, viu que uma área do Ibama usada para estudo havia sido tomada por um incêndio. "No meio daquele cenário todo carbonizado, encontrei algumas flores brotando das cinzas. Era uma imagem muito bonita, ocorrendo pouco tempo depois de um evento tão drástico. Resolvi investigar."
A idéia foi fazer o que ele chama de "queimadas experimentais" para avaliar em diferentes circunstâncias o impacto das chamas na floração de plantas herbáceas. O modo de fazer isso, no entanto, não foi lá muito ortodoxo, como admite o próprio pesquisador - ele literalmente pôs fogo na vegetação. "Era uma área do Ibama. Pensando bem eu podia até estar em 'cana' por isso, mas, se fosse esperar autorização, não teria conseguido estudar", brinca.
Para se redimir, ele encontrou depois uma camada de carvão de 8.600 anos de idade a 2,5 metros de profundidade. "Comprovei que não fui o primeiro a botar fogo ali. Isso é uma coisa natural e antiga no cerrado."
O pesquisador descobriu que o fogo estimula o rebrotamento de muitas espécies herbáceas. "O chão racha com o calor e, uma semana depois, já surgem os botões. Identifiquei cerca de 150 espécies com essa resposta." Ele notou ainda que o fogo favorece a dispersão de sementes e sincroniza a reprodução, fazendo com que todos os indivíduos floresçam ao mesmo tempo. Segundo Coutinho, isso é possível porque o solo do cerrado funciona como isolante. Apesar de a superfície ficar quente, no interior a temperatura é tolerável, o que permite que as partes abrigadas consigam depois se recuperar.
Conservacionista, Coutinho, aos 74 anos, defende que, desde que feito com manejo, o fogo controlado em pequenas áreas, no intervalo de alguns anos, é uma das maneiras de evitar um mal maior, como os incêndios devastadores que acontecem nas reservas na região - como o Parque Nacional das Emas (GO) -, tomam tudo de uma só vez e não deixam chance para os animais fugirem. "Mas ninguém quer ouvir falar, porque parece que fogo é só destruição. Claro que é em floresta, mas no cerrado, com controle, é um instrumento de manutenção."
Quem é:
Leopoldo Magno Coutinho, 74 anos
Professor aposentado do Depto. de Ecologia da USP
Botânico, foi pioneiro no estudo do cerrado
Formou uma nova geração de pesquisadores do bioma
OESP, 02/10/2008, Especial, Vida, p. H1-H8
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