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A natureza cobra

CB, Opinião, p. 16
26 de Out de 2004

A natureza cobra

A perfuração de poços não se restringe ao Distrito Federal e é uma iniciativa válida quando determinada comunidade necessita de água e não tem acesso ao produto devidamente tratado e distribuído pelas companhias de abastecimento e saneamento. É o caso das regiões do semi-árido nordestino, historicamente abandonadas pelo poder público, ou de fazendas longínquas do Centro-Oeste.
O fenômeno, contudo, se vulgarizou, e até mesmo metrópoles onde os recursos hídricos estão escassos, como o Recife, recorrem aos poços para abastecer prédios e residências urbanos. Mas algo deveríamos saber e insistimos em ignorar: a natureza cobra juros altos pelas agressões que cometemos.
Estudo da Companhia de Saneamento Básico de São Paulo, a Sabesp, mostra que de 20% a 30% dos poços perfurados no Brasil estão desmoronados ou desativados. No caso do Distrito Federal, a natureza já começou a mandar recados: vários deles, explorados inadequadamente, de forma rudimentar, estão esgotados.
No Condomínio Mirante da Serra, em Sobradinho, está vazio um poço que chegou a ofertar 50 mil litros de água diariamente. Quatro anos de produção ininterrupta, sem que nesse ínterim a comunidade buscasse outra possibilidade de abastecimento, fizeram-no secar por completo.
É nessa particularidade que se esconde a gravidade do fato: o uso dos recursos naturais não está sendo comedido, baseado em estudos técnicos ambientais. O que deveria ser a última opção para prover o homem de um bem em circunstâncias extremas passa a ser banal.
Para agravar a situação, o poder público, por meio da Caesb, ainda não dispõe de uma política de abastecimento para as centenas de loteamentos que surgiram nos últimos dez anos - mesmo para aqueles em processo avançado de regularização. Por enquanto, só age em caráter emergencial, a pedido dos moradores que secaram os poços e ficaram sem água.
Por isso é primordial que a Caesb não leve só água a essas comunidades; leve saneamento, cidadania. Afinal, são aglomerados urbanos que pagam - ou pagarão em breve - impostos e taxas. E até para evitar que o passivo ecológico, como reconhece a empresa, se agrave com a construção de fossas, muitas delas próximas aos poços artesianos, sem qualquer controle.

CB, 26/10/2004, Opinião, p. 16

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