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'Não precisamos de soluções complexas para controlar clima'

OESP, Vida, p. A24
Autor: LEEMANS, Rik
06 de mai de 2007

'Não precisamos de soluções complexas para controlar clima'
Cientista holandês propõe adaptações de estilo de vida, em que pessoas irão a pé trabalhar ou o farão de casa, pela internet

Entrevista:Rik Leemans: climatologista e integrante do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC)

O cientista Rik Leemans vem de um país que sente, como poucos, os impactos do aquecimento global: a Holanda, ameaçada pela subida dos oceanos. A boa notícia, para ele, é que sua nação tem experiência em lidar com a questão, dinheiro para aplicar e, principalmente, vontade política para tanto. Seu conhecimento como holandês une-se a seu trabalho como cientista no Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas quando diz: 'As pessoas olham os impactos: o que é um desastre para uns não o é para outros'.

Há algum setor que possa ser culpado pelo efeito estufa?

Os principais gases-estufa são gás carbônico, NO2 (óxido nítrico) e metano. Os demais têm contribuições pequenas. O metano vem especialmente do setor agropecuário e da mineração. O NO2 sai principalmente do uso de fertilizantes - então da agricultura. O CO2 vem da queima de combustíveis fósseis. A construção de prédios é também fonte importante, assim como o desmatamento. Eu e você usamos eletricidade para iluminar a casa, esquentá-la ou resfriá-la. Os gases do efeito estufa não vêm de apenas um lugar, vêm de todos.

Se as causas são complexas, precisamos de soluções complexas?

Não precisamos de soluções complexas. Em princípio, todo pequeno passo, como investir em eficiência energética, desligar a luz, colocar o ar condicionado não tão frio, isso tudo economiza energia. Então podemos efetivamente reduzir a emissão de gases-estufa. Fazendeiros podem usar um modelo eficiente de cultivo e não jogar simplesmente o fertilizante no solo. Mas há algumas medidas mais eficientes do que as outras, como a captura de CO2 em grandes usinas de energia para armazená-lo no subsolo. Esse tipo de tecnologia já está sendo usado em alguns países - ainda que não esteja totalmente desenvolvido.

Tais medidas conteriam o efeito estufa?

Para estabilizar a concentração de gases-estufa, é preciso cortar as emissões em 50%. Isso para todos os países juntos. Os desenvolvidos, e aí entram União Européia, Estados Unidos, Japão, Canadá, Austrália, que respondem por 46% das emissões. O restante vem das nações em desenvolvimento, especialmente China, Índia, Brasil e outros emergentes. Então, para reduzir os 50% necessários, essas nações também terão de começar a reduzir suas emissões.

Como?

O total de emissão por morador dos Estados Unidos é muito alto. Na China ou no Brasil, o índice per capita é diferente. Mas a China tem uma população muito grande. Então pode usar carros mais eficientes, que consumam menos petróleo. Há diversas tecnologias disponíveis, como painéis solares. Pode começar a investir em transporte público ou outros estilos de vida, em que as pessoas não precisem de carros e se desloquem a pé ou trabalhem em casa, pela internet. Cumulativamente, as pequenas medidas têm impacto. Em Amsterdã, à noite, que é mais clara do que a de São Paulo, se gasta muita energia sem que ninguém a use.

Então os países em desenvolvimento não precisam esperar pela liderança dos países ricos?

Os países desenvolvidos usam a maior parte da energia, então precisam tomar atitudes e têm as maiores oportunidades para fazê-lo. Os países em desenvolvimento devem buscar mais eficiência energética e alguns já o fazem, como a China.

Como a percepção diferenciada do risco entre os países influencia no debate sobre as mudanças climáticas?

As pessoas olham os impactos: o que é um desastre para uns não o é para outros. Então a discussão é voltada mais para qual grau de mudança cada um gostaria de fazer. Com 1oC a mais, alguns impactos são sentidos, assim como certa subida dos oceanos. Pessoalmente, acredito que é um nível passível de adaptação. Mas com 2oC, 3oC a mais haverá mais danos e será mais difícil e caro adaptar-se a eles. No país de onde venho, a Holanda, construímos diques para nos proteger da subida dos oceanos. Se ela for mais alta do que 1,5 metro, não poderemos mais construir os diques porque a terra estará baixa demais. Torna-se arriscado demais e não poderemos proteger cidades como Haia da inundação.

Quem é: Rik Leemans

É cientista e chefe de unidade na Universidade de Wageningen (Holanda)
É especialista em formação de cenários ambientais e estuda a vulnerabilidade de ecossistemas às mudanças climáticas regionais e globais
Participou da formulação de relatórios do IPCC, além de trabalhar na Avaliação Ecossistêmica do Milênio

OESP, 06/05/2007, Vida, p. A24

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