O Globo, Opinião, p. 7
Autor: BROWN, Gordon
24 de Jan de 2010
Não podemos fracassar
Gordon Brown
Crises imprevisíveis como a catástrofe ocorrida no Haiti semana passada nos mostram mais uma vez a fragilidade da vida em nosso planeta, mas também o instinto humano de prover socorro àqueles em necessidade.
A primeira década deste milênio foi surpreendente pela forma como a preocupação em torno da pobreza global finalmente entrou para as manchetes de jornal e atraiu contínua atenção política e popular. Nos anos seguintes ao inovador acordo sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, grandes avanços foram alcançados e havia razões genuínas para o otimismo.
Agora, uma convergência de crises globais - econômica e ambiental - ameaça reverter os ganhos recentes e acabar com uma era de progresso que mal havia começado.
Para os países pobres, a crise climática não é um problema abstrato, visto como algo para as futuras gerações, mas uma realidade severa, perigosa e urgente. A catástrofe ecológica já mata mil pessoas todos os dias, e uma nova onda de fome mundial se aproxima. E, embora a derrocada do clima tenha se estabelecido lentamente, os efeitos da tempestade financeira foram súbitos e severos.
Sem querer diminuir o sofrimento que a recessão mundial infligiu a muitas famílias em países mais abastados, não deve haver dúvida de que, nos países mais pobres, a situação é de vida ou morte, pois as consequências perdurarão por muito tempo após a recuperação das economias desenvolvidas.
A diminuição do comércio e da renda já custou bilhões de libras em financiamento e investimentos que deixaram de ser feitos em escolas e hospitais.
Atribuindo números à tragédia, temese que 400.000 crianças a mais morrerão anualmente, e que milhões em idade escolar crescerão sem a oportunidade de aprender a ler e escrever.
Em vista desses dois desafios graves e simultâneos, acredito que os 12 meses de 2010 serão tão decisivos para o mundo quanto os dez anos da última década.
Nossa determinação e nossa missão devem, além de cumprir antigas promessas, buscar novas formas de responder à mudança climática e superar as dificuldades econômicas que podem fazer centenas de milhões de pessoas reféns permanentes da pobreza e desespero.
Devemos continuar trabalhando para que a miséria seja tema apenas dos livros de história. O Reino Unido não somente manterá suas promessas de assistência em 2010; nós as superaremos. Na semana passada publicamos um projeto de lei que pode nos tornar o primeiro país do mundo a fornecer uma garantia permanente de que alcançaremos e manteremos a meta de assistência às Nações Unidas de 0,7%.
Todos os países devem honrar suas promessas também e garantir que haja financiamento novo e adicional para preparar as economias em desenvolvimento para a adaptação e mitigação dos efeitos da mudança climática.
É claro que somente a assistência não solucionará a questão por completo. Todavia, com a queda da renda e o aumento da demanda por serviços nos países em desenvolvimento, a assistência pode desempenhar um papel insubstituível na manutenção de escolas e hospitais abertos e no fornecimento de uma rede de segurança vital para os mais necessitados.
Nas últimas semanas, vimos o início de um movimento na África para abolir tarifas cobradas de usuários e criar serviços nacionais de saúde gratuitos (nos moldes do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido). Devemos apoiar esses esforços que oferecem esperança a milhões de pessoas.
Os terríveis acontecimentos no Haiti também nos lembram de que é necessário fornecer não somente assistência ao desenvolvimento, como também apoio humanitário para salvar vidas em situações emergenciais.
O Reino Unido já enviou equipes de especialistas e prometeu 6 milhões de libras como assistência inicial, mas sabemos que muito mais será necessário à medida que passarmos do alívio à recuperação.
Em segundo lugar, em vista da dimensão dos desafios, devemos encontrar novas e inovadoras fontes de financiamento para combater a pobreza e a mudança climática. Já conseguimos bilhões de libras por meio da venda de títulos e de doações públicas, mas tenho certeza de que é possível conseguirmos ainda mais.
O Fundo Monetário Internacional, por exemplo, está analisando como o setor financeiro pode contribuir mais para o pagamento dos custos de inter venção governamental, inclusive uma taxa sobre transações financeiras globais que poderia gerar receitas consideráveis, desde que consigamos acordar os detalhes de tal iniciativa.
Em terceiro lugar, devemos assegurar que os países em desenvolvimento não somente lidem com as crises, mas também invistam no futuro. Assim como no Reino Unido, investir em educação é essencial para o crescimento futuro. É por isso que trabalharei com Joseph Blatter, da Fifa, e com o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, que se comprometeram a fazer da educação para todos o legado da primeira Copa do Mundo na África, por meio da campanha 1-Goal.
Em quarto lugar, devemos apoiar a capacidade dos países em desenvolvimento de encontrarem seu próprio caminho contra a pobreza. O G-20 representa uma nova oportunidade de alcançarmos crescimento genuinamente global incluindo e beneficiando as economias de baixa renda.
Este ano, possuímos todos os meios internacionais que poderíamos desejar para consolidar o progresso e responder pelos compromissos que assumimos em Gleneagles, no auge da campanha "Make Poverty History".
A Cúpula da ONU contra a Pobreza em setembro será um momento crucial. Na ocasião, acredito que devemos acordar um plano de ação global substancial, apoiado por compromissos nacionais específicos, que estabeleça claramente como alcançaremos os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.
Para aproveitarmos o momento propício, devemos chegar a uma determinação política de alto nível logo. O ano de 2010 será um teste sobre a preocupação do mundo com os mais pobres e sobre a fé que eles têm em nós. Em nome da justiça e dos nossos próprios interesses, pelo bem dos outros e de nós mesmos, não podemos falhar. Devemos agir agora para devolver a todo o mundo o futuro e a esperança.
Gordon Brown é primeiro-ministro do Reino Unido.
O Globo, 24/01/2010, Opinião, p. 7
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