OESP, Vida, p. A24
19 de Dez de 2009
Não levaremos o fracasso para casa
Muito aplaudido pela manhã, Lula prometeu dinheiro para fundo climático e revelou frustração com negociações
Lisandra Paraguassú
No mais forte discurso da plenária de líderes no último dia da conferência do clima, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocou o Brasil como o país que, para salvar a COP-15 de um naufrágio, aceita ser fiscalizado e até mesmo concorda em colocar recursos em um fundo de onde, na verdade, como país em desenvolvimento, deveria só retirar dinheiro. Falando de improviso, Lula se disse frustrado com os resultados depois de semanas de negociações e cobrou responsabilidade dos mais de cem líderes presentes em Copenhague.
Aplaudido quatro vezes durante sua fala e longamente ao final - o único chefe de Estado a receber esse tratamento - a estratégia foi clara: "Fizemos tudo e não vamos levar esse fracasso para casa." "Confesso a todos vocês que estou um pouco frustrado porque há muito tempo discutimos a questão do clima e cada vez mais constatamos que problema é mais grave que podíamos imaginar. Pensando em contribuir para a discussão nesta COP o Brasil teve uma posição muito ousada", o presidente iniciou sua fala. Em seguida, listou as metas e as ações a que o País se comprometeu. "Não é uma tarefa fácil, mas foi necessário tomar essas medidas para mostrar ao mundo que, com meias palavras e com barganhas, a gente não encontraria uma solução nesta Conferência de Copenhague."
Pela primeira vez, desde o início do encontro, o presidente admitiu que o Brasil poderá colocar dinheiro no fundo contra as mudanças climáticas. Apesar de não falar em valores, foi mais uma tentativa de tirar entraves nas negociações. "Vou dizer, de público, uma coisa que eu não disse ainda no meu país, não disse à minha bancada e não disse ao meu Congresso: se for necessário fazer um sacrifício a mais, o Brasil está disposto a colocar dinheiro também para ajudar os outros países. Estamos dispostos a participar do financiamento se nós nos colocarmos de acordo numa proposta final, aqui neste encontro", afirmou.
A proposta, no entanto, só valeria em caso de um acordo final razoável - coisa que, depois de negociações exaustivas o dia inteiro, terminou sem acontecer. Para colocar seus próprios recursos, avisou o presidente, era preciso algo para assinar que não um documento vazio. "Agora, o que nós não estamos de acordo é que as figuras mais importantes do planeta assinem qualquer documento, para dizer que nós assinamos documento", reclamou. "Eu adoraria sair daqui com o documento mais perfeito do mundo assinado. Mas se não tivemos condições de fazer até agora eu não sei se algum anjo ou algum sábio descerá neste plenário e irá colocar na nossa cabeça a inteligência que nos faltou até a hora de agora. Não sei."
Apesar de se dizer "excessivamente otimista" e de "acreditar em milagres", Lula já previa que nem um discurso forte nem as concessões do Brasil em aceitar verificações externas e colocar recursos para financiamento mudariam o cenário desenhado até ontem. No dia anterior, em entrevista com o presidente Nicolas Sarkozy, dissera temer que a foto dos 120 líderes presentes em Copenhague se transformasse na imagem dos incompetentes que não salvaram o planeta enquanto havia tempo. A foto oficial, que retrataria justamente os responsáveis pela falta de acordo, foi cancelada. E Lula deixou Copenhague antes de o texto final ser anunciado.
Sem novidades, discurso de Obama decepcionou
Era um dos discursos mais esperados da conferência, mas a sensação de decepção ficou no ar. Assim que o presidente dos EUA, Barack Obama, saiu do púlpito da plenária de chefes de Estado em Copenhague, na manhã de ontem, recebeu apenas aplausos protocolares. Em vez da esperança de novos esforços para um acordo substancial, deixou impressão de arrogância e lições de moral.
"A América fez sua escolha. Nós definimos nosso curso, firmamos nossos compromissos e faremos o que dissemos. Acredito que é o tempo para as nações e povos do mundo se unirem por um propósito comum", foi uma de suas frases mais fortes. Após classificar como "ambiciosas" as ações e metas americanas, afirmou que os Estados Unidos "continuará nesse curso, não importa o que aconteça em Copenhague".
Claramente dirigido à China, que resiste em aceitar o monitoramento, regulação e verificação de ações de redução de emissões que não sejam pagas por financiamento externo, Obama insistiu na necessidade de fiscalização. "Nós precisamos de um mecanismo para verificar se estamos mantendo nossos compromissos e trocar essa informação de uma forma transparente", cobrou. "Sem isso, qualquer acordo será palavras vazias em uma página."
Após dizer que não tinha vindo a Copenhague "para falar, mas para agir", Obama apenas repetiu a oferta de metas e recursos que os EUA já havia colocado na mesa. Ainda assim, cobrou. "Esse não é um acordo perfeito e nem todos terão tudo o que desejam", disse. "Sabemos os problemas porque temos sido aprisionados por eles durante anos. Mas essa é a situação: nós podemos fazer esse acordo e dar um passo à frente e continuar a refiná-lo e construir sobre essa fundação. Ou podemos, de novo, escolher a postergação, caindo de novo nas mesmas divisões que estiveram em todo o caminho."
OESP, 19/12/2009, Vida, p. A24
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