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'Não estamos avançando na velocidade suficiente'

OESP, Vida, p. A14
Autor: BRUNDTLAND, Gro Harlem
23 de Out de 2007

'Não estamos avançando na velocidade suficiente'
Gro Harlem Brundtland: enviada especial das Nações Unidas para o clima. Ex-chefe de governo da Noruega afirma que ataques terroristas de 2001 desviaram a atenção das questões ambientais

Andrea Vialli

Médica de formação, a norueguesa Gro Harlem Brundtland, de 68 anos, ganhou projeção por ter presidido a Comissão Mundial sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente, que ficou conhecida como "Comissão Brundtland" e definiu rumos para integrar o desenvolvimento econômico às questões socioambientais. Foi ela quem formulou o conceito de desenvolvimento sustentável - "aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem às próprias necessidades". Brundtland foi também a primeira mulher a chefiar o governo da Noruega e dirigiu a Organização Mundial da Saúde (OMS). Hoje, é enviada especial das Nações Unidas para o clima. Na prática, ela age nos bastidores da diplomacia para convencer os líderes mundiais a acelerar as negociações globais sobre clima. Em visita ao Brasil, Brundtland conversou com o Estado.

Como uma das mentoras do conceito de desenvolvimento sustentável, como a senhora avalia o avanço da humanidade nessa questão, desde que o conceito foi criado, em 1987?

Temos que admitir que aumentou a consciência em todas as áreas. Temos tido avanços em entender que a questão é intersetorial e requer a participação do setor privado, instituições científicas, governos, ONGs e opinião pública. Mas estamos no meio do caminho. Muitos países passaram a adotar políticas ambientais e investir em novas tecnologias. Muitas das idéias surgidas na Comissão começaram a sair do papel, mas não é suficiente. Não estamos indo na velocidade suficiente. Os ataques terroristas de 2001 desviaram o foco das questões ambientais e só agora retomamos o debate.

Atualmente, têm sido anunciados esforços para refrear os efeitos do aquecimento global, mas os primeiros alertas foram dados há 20 anos. Por que só agora começou essa corrida em direção à sustentabilidade?

Os efeitos da ação humana sobre o aquecimento global foram descritos há 20 anos. Em 1987 já havia sido levantada a necessidade de se ter uma convenção mundial sobre o clima. Isso não ocorreu antes porque havia disputas entre os cientistas sobre o quão clara estava a questão, até onde eles estavam corretos em suas observações. O debate continuou por anos. E, enquanto o Protocolo de Kyoto foi criado, negociado e ratificado, o debate continuou. Os EUA disseram que não iam ratificar, pois havia ainda dúvidas em relação aos estudos científicos. Agora, o debate acabou porque os cientistas chegaram a conclusões muito claras. Os EUA pararam de dizer que não têm nada a ver com a questão e duvidam da ciência, embora defendam que as metas de redução de gases de efeito estufa têm de ser voluntárias. É uma posição muito diferente da que eles tinham há um ano. Por isso eu acho que hoje a questão tomou esse corpo. Todo mundo está sendo questionado sobre o que está sendo feito para combater a mudança climática.

O Protocolo de Kyoto é suficiente para reverter os efeitos do aquecimento global?

Mesmo se o Protocolo de Kyoto for implementado à perfeição, não será suficiente. Porque, quando o acordo foi traçado, os países ricos e industrializados eram responsáveis por 30% das emissões de gases de efeito estufa. Mas as emissões globais estão aumentando por causa da China e outros países emergentes. Não será suficiente, a não ser que se apliquem compromissos de redução para todos os países. Não quero criar um debate aqui e sugerir que Brasil ou Índia tenham os mesmos compromissos de redução do CO2 que têm os países ricos. Mas todos os países têm que contribuir de algum modo. É isso que precisa ser negociado, e será o assunto da Conferência do Clima em Bali, em dezembro.

O Brasil tem acenado com o etanol, como uma solução para aliviar o aquecimento global, mas esbarra nos problemas sociais e ambientais associados à sua produção. Como resolver isso?

Eu diria que todos os tipos de energia têm problemas de alguma ordem. É preciso olhar para o que temos e escolher um conjunto de alternativas. Eu sei que o etanol brasileiro tem um lugar nesse cenário. Mas é preciso também ter soluções realmente novas, colocar a pesquisa científica em prática. Só o biocombustível não vai resolver.

Quem é: Gro Harlem Brundtland

Médica de formação, a norueguesa cunhou em 1987 o conceito de desenvolvimento sustentável

Foi a primeira mulher a chefiar o governo da Noruega e dirigiu a OMS

Hoje, é enviada especial das Nações Unidas para o clima, trabalhando no convencimento dos líderes mundiais a acelerar as negociações sobre clima

OESP, 23/10/2007, Vida, p. A14

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