VOLTAR

'Não esperamos nada de positivo do governo, mas jamais vamos desistir', diz líder indígena brasileira que recebeu prêmio Robert F. Kennedy de Direitos Humanos

O Globo - https://oglobo.globo.com/celina/
Autor: Alessandra Korap
24 de nov de 2020

'Não esperamos nada de positivo do governo, mas jamais vamos desistir', diz líder indígena brasileira que recebeu prêmio Robert F. Kennedy de Direitos Humanos
Em entrevista, Alessandra Korap, da etnia Munduruku, fala sobre sua trajetória, o reconhecimento internacional de sua luta e a mobilização para enfrentamento da Covid-19 nas aldeias

Carolina Nalin*

RIO - Já era noite quando a líder indígena Alessandra Korap discursava em Brasília contra os avanços do garimpo nas terras indígenas Munduruku e contra a permanência da Fundação Nacional do Índio (Funai) sob comando do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, como havia transferido o presidente Jair Bolsonaro via medida provisória em seu primeiro dia de mandato.

"Os garimpeiros e madeireiros estão invadindo as nossas terras. Os nossos caciques estão ficando doentes. A Damares, que mulher é aquela? A Damares não representa nós indígenas", disparou Alessandra.

O apelo aconteceu durante uma audiência pública com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e a Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas. O objetivo era discutir a demarcação de terras e o retorno da Funai para o Ministério da Justiça.

- Quando começamos a falar, ele (Rodrigo Maia) parecia só fazer média porque estava cheio de repórteres, mas não nos ouvia. Aquilo me incomodou bastante. Na hora, pensei: "Eu não vim de tão longe para perder meu tempo sentando para conversar e o governo nem sequer ouvir a gente." Me levantei e comecei a brigar para que ele ouvisse as denúncias que estávamos fazendo - conta ela.

O discurso de Alessandra não só viralizou como também sensibilizou parlamentares. Em maio do ano passado, o Senado aprovou o retorno da Funai para o Ministério da Justiça e devolveu à fundação a responsabilidade de demarcar terras indígenas, que estava sob comando do Ministério da Agricultura. Além disso, em outubro deste ano, Korap ganhou o prêmio internacional Robert F. Kennedy de Direitos Humanos.

Aos 36 anos, a estudante de Direito - que teve a casa invadida no ano passado e recebe ameaças de morte - segue em defesa da demarcação da terra indígena Sawary Muybuy, no sudoeste do Pará. Em tempos de Covid-19, ela e outras mulheres indígenas se articulam para enfrentar a pandemia nas aldeias enquanto denunciam as invasões de garimpeiros, a instalação de hidrelétricas e os projetos de construção de ferrovias para escoamento da produção de soja próxima às terras Munduruku.

Em entrevista concedida à CELINA por telefone, Alessandra Korap contou o que a impulsionou à luta política, falou sobre a articulação para combater a Covid-19 nas aldeias e enalteceu a importância da mobilização dos povos indígenas.

CELINA: O que te motivou a sair do território para se projetar na luta pelos direitos dos povos indígenas?
ALESSANDRA KORAP: A minha aldeia é perto da cidade e sempre vi como o desenvolvimento nos afetava porque tínhamos cada vez mais limites para pescar, ir atrás de palha, colher fruta. E aí comecei a perguntar sobre os nossos direitos, a participar das reuniões com os caciques, e ouvia sobre protocolo de consulta, autodemarcação, hidrelétricas no médio Tapajós que poderiam afetar nosso território. Eu entrei devagarinho até que comecei a me colocar e a questionar.

O que me incentivou foi a trajetória da Maria Leusa, uma grande guerreira coordenadora da Associação de Mulheres Munduruku.Comecei como conselheira local da Associação Indígena Pariri, que representa 11 aldeias do Médio Tapajós. Depois passei para tesoureira e, então, me escolheram coordenadora da associação em 2017, onde fiquei até 2018. Passei a ir para as aldeias conhecer as necessidades dos parentes, a participar de reunião no Alto Tapajós e em comunidades quilombolas. Os caciques começaram a me convidar e eu não parei mais.

Houve algo que foi mais desafiador neste processo, pelo fato de você ser mulher?
As mulheres não tinham espaço para falar durante as reuniões com os caciques. Hoje, elas gostam de ouvir e também de falar, o que é ótimo. Mas não foi fácil. Em 2017, eu decidi fazer um encontro de mulheres Munduruku no Médio Tapajós, mas os caciques não aceitavam de jeito nenhum. Eles perguntavam por que as mulheres iam se reunir e sobre o que iriam falar. Mas fizemos, e as mulheres sugeriram oficinas de artesanato, formação em política pública, conversas sobre território, debates sobre os projetos do governo. Foi bem animado e cheio de decisões. Eles também participaram, mas ficaram acanhados no primeiro encontro. Na segunda (edição), eles gostaram, depois teve a terceira. Nós vamos continuar a fazer nossos encontros porque é importante nos conhecermos.

Quais são as principais demandas dos povos indígenas hoje? O que é possível esperar do governo atual?
Temos muitas terras no Médio Tapajós que precisam ser demarcadas. Vemos invasões o tempo todo de garimpeiros, madeireiros. Com esse desenvolvimento de que eles (governo) falam, de que é preciso ter hidrelétrica, mineração, ferrovia, plantação de soja e de milho para o país crescer, a floresta pode acabar. Estamos aqui para lutar e defender o nosso território, que é nosso por direito. Infelizmente, desde o começo da campanha, ele (Jair Bolsonaro) já vinha falando que odiava indígena e que não demarcaria território. Mas não imaginávamos que odiava tanto os povos brasileiros. Não esperamos nada de positivo, mas jamais vamos desistir. Enquanto houver vida nas florestas e nos rios, vamos continuar resistindo. É isso que me deixa feliz, porque meus antepassados lutaram por esse território e, hoje, eu continuo para garantir o nosso futuro.

Por que decidiu cursar Direito? O conteúdo acadêmico influencia a mobilização indígena?
Eu nunca pensei em sair da minha aldeia para estudar na cidade. Sempre dizia que o estudo era perda de tempo porque já estava ocupada em reuniões com as mulheres e com os caciques. Até que um amigo que já trabalhou na Funai me recomendou fazer o processo seletivo indígena da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA). Eu logo recusei, mas ele me convenceu dizendo que seria ótimo ter uma indígena Munduruku que falasse sobre Direito porque muitas universidades não conhecem o ponto de vista indígena. Aceitei e fui falar com os caciques. Todo mundo ficou feliz, apoiou a ideia. Resultado: passei em segundo lugar.

De repente, os caciques chegaram para mim perguntando se eu não preferia estudar no ano seguinte porque precisavam de mim. Eu respondi: "Olha, eu disse a vocês antes. Eu passei e não sei quando vou ter outra oportunidade de entrar em uma universidade federal. Agora eu vou". As mulheres me deram muito apoio, dizendo que eu precisava estudar porque os desafios que viriam para nossas aldeias seriam muito grandes. "Mas nunca esqueça de onde você veio", elas disseram. E foram essas palavras que me fortaleceram muito. Eu pensei: "Agora sei qual é o meu papel". E o meu papel é lutar contra esses grandes empreendimentos e lutar com meu povo.

E como tem sido a experiência?
Eu não imaginava que dentro da universidade teria tantas barreiras. As universidades ainda não estão preparadas para ouvir e tomar decisões com os indígenas. Elas foram preparadas para os não-indígenas, para decidir o que eles querem e não o que nós queremos. Estou dentro da universidade para ensinar também e dizer que não se pode apenas decidir em cima dos povos indígenas, é preciso consultar. O próprio povo Munduruku tem um protocolo de consulta, então antes de pesquisadoras, por exemplo, tomarem decisões na universidade, tem que consultar os povos indígenas. Isso é respeitar os nossos direitos.

Como você recebeu a notícia de que tinha ganhado um prêmio internacional de direitos humanos?
Um amigo me chamou no Instagram e disse que tinha uma organização querendo falar comigo. Marcamos o dia da conversa e a presidente dessa organização me disse que eu tinha ganhado um prêmio, um reconhecimento pela defesa dos direitos humanos. Eu me perguntei se seria um troféu, mas ela disse que eram US$ 30 mil. Na hora, olhei para o meu amigo e perguntei: "O que são 30 mil dólares?" E ele me explicou que, dependendo do real, daria mais de R$ 130 mil.

Eu chorei muito. A primeira coisa que me veio à cabeça foi ajudar o meu povo. Sei das necessidades deles no Alto e Médio Tapajós, principalmente com a questão do transporte. Vou ajudar a Associação Pariri, a Associação das Mulheres Munduruku e uma guerreira que está doente por ter se contaminado com mercúrio. Fico muito feliz por sermos ouvidos fora do Brasil. A gente grita e não sabe se o povo está ouvindo. Mas agora eu acho que está ouvindo sim. Nossas vozes estão indo mais longe.

Como tem sido enfrentar a pandemia nas aldeias?
Uma das primeiras preocupações foi com a falta de informação. É um vírus novo e tem aldeias sem internet ou outros meios de comunicação. Por isso, chamamos a Associação Indígena Wakoborun junto com a Pariri e começamos a imprimir folders e enviar para as aldeias. Também estávamos preocupados com crianças, idosos, mulheres grávidas e pessoas hipertensas. Pedimos apoio a organizações como a Amazon Watch, que nos ajudou com 50 respiradores, e o Greenpeace, para trazer respiradores e material higiênico. Até hoje as mulheres trabalham para levar material para as aldeias. Não paramos.

E, mesmo com toda essa ajuda, não tivemos nenhuma do governo. Garimpeiros e madeireiros avançavam nas nossas terras pela estrada, de avião e embarcação e, ainda assim, nós precisávamos pedir aos parentes para ficarem isolados. Perdemos quase 15 mundurukus, um deles foi o meu tio (Amâncio Ikon Munduruku, fundador da Fundação Pariri). Só do Médio Tapajós foram três pessoas. Foi como se as nossas bibliotecas estivessem pegando fogo.

Começamos a falar sobre curar com os nossos próprios remédios, já que os doentes que iam para a cidade morriam. Aprendi a fazer sabão e ensinei outros a fazer também. As mulheres fizeram pomadas, tudo a partir das plantas. E isso ajudou o nosso povo a resistir. Sempre dizemos que precisamos estar vivos para continuar a lutar. Mas, se tivéssemos um líder que pensasse nas populações indígenas, quilombolas, mulheres e em todo o povo brasileiro, não teríamos tantas mortes.

O que a sociedade brasileira precisa fazer para apoiar a luta indígena?
Na prática, é preciso apoiar divulgando o nosso trabalho, nossos pedidos de socorro e também as nossas alegrias. Já ouvi muitos falarem que indígena é preguiçoso e que não quer nada com a vida, mas sempre digo que a população precisa aprender mais. O índio não tem um mercado já pronto em que você chega e compra. Na floresta, temos que esperar o tempo certo da fruta, da castanha. A população precisa ouvir antes de julgar. Muitos indígenas estão saindo das suas aldeias para se formar como doutores ou professores e depois voltam às suas comunidades para ensinar. Outros querem trabalhar na cidade por opção. Cada um tem sua escolha, mas a população precisa respeitar os povos indígenas.

https://oglobo.globo.com/celina/nao-esperamos-nada-de-positivo-do-gover…

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.