OESP, Cidades, p. C1
27 de Mar de 2004
Não chove. Volta a ameaça de racionamento
Possibilidade aumenta, pois nível do Sistema Cantareira voltou a cair e está em 17,7%
MAURO MUG
A fraca recuperação do Sistema Cantareira durante este mês aumentou o risco de racionamento no abastecimento de 9 milhões de moradores da capital e em municípios da Grande São Paulo. O nível do sistema, que vinha subindo lentamente, voltou a cair. Não chove há oito dias na bacia do Cantareira.
Há um ano, o nível era de 50,6%. Ontem, o sistema operava com 17,7% de sua capacidade de armazenamento - 0,3% abaixo da quantidade registrada no dia 22. Essa quantidade deve-se em muito às chuvas intensas que caíram durante o carnaval. No dia 20 de fevereiro, o nível estava em 6,6% e cinco dias depois, na Quarta-Feira de Cinzas, quase dobrou: 11,7%. "Muita gente perdeu a praia, mas as chuvas contribuíram para recuperar os mananciais", comemorou na ocasião o governador Geraldo Alckmin.
Os técnicos da Companhia de Saneamento Básico do Estado (Sabesp) esperavam que o manancial atingisse pelo menos 30% até o fim de março. Isso, no entanto, não deve acontecer. A previsão é de que só ocorram chuviscos isolados na capital nos próximos dias, o que não será suficiente para recuperar as seis represas do sistema.
Do dia 1.o até ontem, a bacia do Cantareira recebeu apenas 62,7 milímetros de chuva - a média histórica para o mês todo é de 183,4 mm. A Represa do Jaguari, a principal formadora do sistema, que chegou a operar com nível negativo, estava ontem apenas com 1 metro acima do nível mínimo. Estava 830,08 metros acima do nível do mar, enquanto a altura mínima é de 829 metros. A máxima é de 842,80 metros acima do mar.
"Embora nós consideremos estável a situação do Cantareira, pois vem perdendo 0,1% por dia, o risco de racionamento estará presente ao longo deste ano", disse o engenheiro Amauri Pollachi, gerente de controle de abastecimento da Sabesp. "Essa tendência só se reverterá se caírem chuvas excepcionais durante o inverno."
Segundo ele, se isso não ocorrer, pelo menos as previsões são de que haverá uma normalização na quantidade de chuvas. "Os meteorologistas informam que o tempo no período do inverno não sofrerá influência do fenômeno El Niño nem do La Niña."
As médias históricas de precipitações em abril e maio são, respectivamente, de 75 e 73 mm, segundo o meteorologista André Madeira, da Climatempo. "Não dá para ter esperança de chuvas fortes nesses período", afirma. "Geralmente, as chuvas em abril ocorrem na primeira quinzena do mês, depois é seca." A partir daí, a previsão é de precipitações cada fez menores até agosto, quando a média é de 38,9 mm para o mês inteiro.
Ajuda - Desde agosto, a Sabesp vem reduzindo a produção de água pelo Sistema Cantareira. Passou de 33 mil litros por segundo para 31 mil. "Agora, a produção caiu para 29,5 mil litros por segundo", informou Pollachi. Como os níveis dos Sistemas Guarapiranga (47,8%) e Alto Tietê (35,95%) "encontram-se em boas condições" foi possível fazer com que eles substituíssem o Cantareira no abastecimento de algumas regiões da capital. "Com isso, conseguimos poupar 8% das reservas do Cantareira."
Ao comentar as críticas de alguns especialistas que defendiam que o rodízio deveria ter sido decretado em outubro do ano passado, Pollachi reagiu. "Não existe racionamento preventivo. O rodízio no abastecimento é a última alternativa que deve ser tomada, pois, além de provocar desconforto à população, causa desgate nos equipamentos operacionais."
"Se tivéssemos determinado o racionamento teria se economizado apenas 2% do consumo a cada mês", esclareceu Pollachi. "Por isso, a Sabesp preferiu reduzir gradativamente, a partir de agosto, a produção do Cantareira e aguardar pelas chuvas de outubro a março, o que permitiu que a população continuasse sendo abastecida normalmente."
Ele explicou que a região metropolitana de São Paulo encontra-se numa área de escassez de recursos hídricos, pois os rios são de cabeceiras, com baixo volume. Segundo o governador, o Rio Tietê, por exemplo, tem uma vazão na região metropolitana de 10 m3/s de água e 50 m3/s de esgoto. "Quando ele deságua no Rio Paraná sua vazão é de 300 m3/s."
De acordo com Pollachi, por esse motivo, a região não tem disponibilidade de água para atender a quantidade de pessoas que moram na região. "A ONU recomenda que são necessários 2.500 metros cúbicos de água por habitante por ano. Na região metropolitana temos apenas uma disponibilidade de 200 m3/habitante/ano."
Para enfrentar essa situação, a Sabesp foi obrigada a ir buscar água na bacia do Rio Piracicaba, que é formada pelos Rios Jaguari e Cachoeira, cujas nascentes ficam no sul de Minas, e por outros rios paulistas, como o Atibainha e o Jacareí. "Por isso, a população deve usar a água com muito critério, evitando o desperdício."
OESP, 27/03/2004, Cidades, p. C1
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