OESP, Vida, p. A20
Autor: CORRÊA, Marcos Sá
27 de Fev de 2008
Na moda vale tudo, menos o atraso
Marcos Sá Corrêa
A Tesco, uma rede de supermercados que vende um quarto das verduras consumi das na Inglaterra, anunciou recentemente que, daqui para a frente, todos os seus produtos terão para exibir, além do preço, seu custo ambiental. Os selos fazem parte de um programa que, até o fim da década, promete cortar à metade a parte que cabe à empresa na conta do aquecimento global por emissão de CO2. Mas seu efeito imediato foi pôr a Tesco no melhor lugar possível de uma corrida quase já tão global quanto a da mudança climática. A BMW anuncia ultimamente seus futuros motores a hidrogênio como se eles já estivessem sob o capô dos carros que saem da fábrica para as ruas.
O dicionário Oxford apontou "locavore" - um enxerto de prefixo latino em sufixo grego, para designar quem só come o que cresce localmente - como o neologismo da língua inglesa mais típico de 2007. E os enófilos nova-iorquinos, farejando os novos tempos, discutem se é melhor, pelo menos para o gosto do planeta, tomar vinhos franceses, que atravessam o Atlântico de navio, em vez de californianos, que cruzam os EUA de costa a costa em lombo de caminhão. O transporte marítimo, em princípio, solta menos fumaça pelo caminho que o rodoviário.
No limite, onde a ciência se perde na religião, vale tudo para acertar o passo com a moda da pegada de carbono. Ela, em si, não é novidade. Todo mundo tem a sua. No começo da década passada, quando pisaram a terra pela primeira vez 6 bilhões de pessoas, cada uma emitia, em média, uma tonelada de carbono por ano. No último Natal, o Instituto do Meio Ambiente de Estocolmo estimou em 650 quilos as emissões per capita, somando o que a humanidade gastou a mais em viagens, ceias, presentes e iluminação.
Não faz muito tempo que a BBC calculou quanto um ser humano poderia poupar em CO2, prendendo uma em três respirações. Não era uma proposta fácil para reduzir o saldo na balança das mudanças climáticas. Mas nem por isso o número deixava de ser didático. Medir a própria pegada está na onda. A internet oferece programas que, como balanças de farmácia, avaliam automaticamente quanto nossos hábitos pesam sobre a atmosfera terrestre. Alguns sites acrescentam ao resultado a soma de árvores que deveríamos plantar para neutralizarmos nossos estragos. Outros dão o exato valor em dólares para zerar nossa dívida ambiental, mais ou menos como a Igreja medieval tinha cotação monetária para os pecados em vida por indulgências além-túmulo.
Toda moda tem lá seus exageros. Na revista New Yorker, o jornalista Michael Specter acaba de trilhar, sem perder o pé, essa fronteira de assuntos graves com os exageros levianos. Seguiu até consumidores entre as gôndolas da Tesco. Confirmou com especialistas que, na prática, uma rosa cultivada no Quênia chega à Europa, sim, com menos impacto que uma vinda da Holanda. E lembrou que a Indonésia e o Brasil, dois campeões do fogo no mato, geram com queimadas 10% da produção mundial de gases do efeito estufa. Sua pegada é tão grande que, segundo Specter, não deve estar longe o dia em que as economias ricas achem melhor negócio pagar a um caboclo nos confins da Amazônia, para alforriá-lo dos caraminguás da madeireira, do que investir em selos de alface nas prateleiras.
Isso na semana em que os brasileiros ouviram a governadora Ana Júlia (PT) dizer que o Pará não pode ficar sem sua receita do desmatamento. Dos modismos alheios pelo menos se pode rir. Mas nosso próprio atraso não tem graça nenhuma.
É jornalista e editor do site O Eco (www.oeco.com.br)
OESP, 27/02/2008, Vida, p. A20
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