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Na dúvida, espécies é classificada em extinção

OESP, Vida, p. A18
18 de Nov de 2004

Na dúvida, espécies é classificada em extinção
Dados sobre anfíbios brasileiros ameaçados irritam pesquisadores

Herton Escobar

A União Mundial para a Natureza (IUCN) divulgou esta semana seu mais recente diagnóstico sobre a biodiversidade ameaçada do planeta. E, para a surpresa de ninguém, a situação só piorou. A Lista Vermelha atualizada traz 15.589 espécies ameaçadas de extinção - um aumento de 3.330 sobre o relatório de 2003. Do total, 1.362, ou cerca de 9%, estão na categoria "criticamente em perigo", ou seja, correm risco imediato de desaparecer.
A maior parte desse aumento deve-se à inclusão dos resultados da primeira Análise Global de Anfíbios, concluída em setembro pela IUCN. Segundo o relatório, 32% das espécies conhecidas de rãs, sapos e salamandras estão ameaçadas de extinção. Com isso, o número de anfíbios em perigo no mundo saltou de 146, há quatro anos, para 1.856. O Brasil participa desse cenário com mais de cem espécies, a maioria da mata atlântica.
O que deveria significar maior status de proteção para as espécies brasileiras, entretanto, está deixando pesquisadores irritados. "Os dados estão inflados", acusa Célio Haddad, especialista da Universidade Estadual Paulista em Rio Claro e coordenador do grupo de anfíbios para a lista brasileira de espécies ameaçadas. "A lista que foi enviada para a IUCN era muito parecida com a nossa, mas os dados foram mudados a posteriori. Passaram por cima do que foi feito aqui no Brasil."
A lista oficial divulgada pelo Ibama no ano passado inclui 15 espécies ameaçadas de anfíbios. Quando esse mesmos dados foram avaliados pela IUCN, entretanto, o número saltou para 110. A diferença está na interpretação do status das espécies para as quais há muito pouco conhecimento científico. A pesquisa é escassa diante de uma diversidade tão grande, e muitos anfíbios só são conhecidos a partir de algumas poucas coletas em pontos isolados. Na falta de informações mais detalhadas, os pesquisadores brasileiros optaram por deixar muitas espécies na categoria "dados insuficientes".
Já a Lista Vermelha adota uma posição oposta: no caso de dúvida, a espécie é caracterizada como ameaçada. "A IUCN recomenda que mesmo a pouca informação que existe deve ser usada para uma classificação", explica Adriano Paglia, biólogo da organização Conservação Internacional (CI), parceira da IUCN na elaboração da lista. "B mais seguro indicar como ameaçada e retirar da lista depois, se esse for o caso."
"Estão forçando a barra para poder publicar em revistas científicas de impacto e conseguir mais dinheiro para a conservação", afirma Haddad. "Acho que a causa é justa, mas os métodos, questionáveis. Ele acredita que a classificação desnecessária pode até prejudicar as pesquisas, já que a burocracia para trabalhar com espécies ameaçadas é muito maior.
Entrada e saída
Pesquisadores concordam que é muito mais fácil colocar uma espécie na Lista Vermelha do que retirá-la depois. "Tem a ver com a velocidade com que a informação biológica é produzida", afirma Paglia. Segundo ele, há muito mais informação sendo produzida hoje sobre ameaça de espécies do que sobre proteção. "Como a lista é revisada anualmente, não há tempo suficiente para dizer se a situação da espécie melhorou de um ano para outro."
Na Lista Vermelha deste ano, 715 espécies mudaram de categoria: 352 para um grau maior de ameaça e 363 para um nível menor. As classificações são criticamente em perigo, em perigo e vulnerável. A categoria "dados insuficientes", segundo Paglia, só é usada em casos em que há um único exemplar da espécie.
A tabela geral de espécies ameaçadas traz a seguinte nota de rodapé: "Deve ser notado que para certas espécies de anfíbios endêmicas do Brasil não houve tempo para chegar a um acordo... com os especialistas no Brasil."

Lista Vermelha, a mais completa
E, ainda assim, ela analisa só 3 % do total de espécies descritas
A Lista Vermelha é publicada anualmente por um consórcio de organizações não-governamentais (ONGs), a partir de uma rede de conhecimento que abrange quase 8 mil especialistas em todo o mundo. Tradicionalmente, é reconhecida como a mais importante e completa lista de espécies ameaçadas no cenário global.
Segundo a IUCN, 784 espécies foram extintas nos últimos 500 anos - 11 delas no Brasil. Outras 60 desapareceram da natureza e sobrevivem apenas em cativeiro - 2 no Brasil. Dentre as espécies ameaçadas, 7.266 são animais e 8.323, plantas e liquens. Mais de 700 são espécies brasileiras; 99 delas criticamente ameaçadas.
Por mais preocupante que seja esse diagnóstico, entretanto, pesquisadores concordam que ele representa só uma porção íntima da realidade. A lista é baseada na análise de menos de 3% do total de espécies já descritas pela ciência - cerca de 1,9 milhão, incluindo plantas, animais e microorganismos. E isso representa uma porção ainda menor do total estimado de espécies existentes, que varia de 10 milhões a 100 milhões.
Mesmo entre as espécies já descritas, o desconhecimento é enorme, o que dificulta muito a elaboração da lista. Para classificar uma espécie como extinta ou ameaçada podem ser necessários anos de pesquisa de campo, com informações detalhadas sobre população, distribuição e hábitat.
"Há um grau muito grande de subjetividade", diz o pesquisador Márcio Martins, especialista em répteis da Universidade de São Paulo (USP) e principal referência da IUCN para esse grupo no Brasil. "Mas é difícil evitar isso. O importante é manter o bom senso." Apesar das limitações, Martins vê a lista como um instrumento importante. "Considerada a quantidade de cientistas que há por trás, é uma lista muito séria."
O objetivo do relatório é servir de guia para a priorização de políticas e projetos de preservação da biodiversidade. "O dinheiro é pouco. E, se é pouco, precisamos de um foco", diz Paglia, da CI. H.E.

OESP, 18/11/2004, Vida, p. A18

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