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Na contramão do aquecimento

O Globo, Sociedade, p. 22
24 de Mar de 2015

Na contramão do aquecimento

Cesar Baima
Renato Grandelle

RIO - Apesar do aquecimento global registrado no último século, algumas áreas do planeta na verdade caminham na contramão desta tendência, experimentando uma queda nas temperaturas. Uma das mais destacadas delas é a região subpolar do Atlântico Norte, logo abaixo da Groenlândia, num fenômeno que os cientistas há algum tempo creditam à progressiva perda de sua cobertura de gelo. É que este derretimento estaria alterando os padrões de circulação das correntes marítimas responsáveis pelo transporte de calor dos trópicos para a região numa escala sem precedentes nos últimos mil anos, mostra estudo publicado ontem no periódico científico "Nature Climate Change". Com isso, as extensões de terra em ambos lados do oceano, na América e na Europa, correm o risco de enfrentar invernos mais rigorosos e duradouros e ver o nível do mar subir mais do que em outras áreas do mundo, ameaçando a sobrevivência de cidades costeiras, como Nova York e Boston.
- É evidente que esta área específica no Atlântico Norte vem se resfriando ao longo dos últimos cem anos enquanto o resto do mundo se aquece - diz Stefan Rahmstorf, pesquisador do Instituto de Pesquisa dos Impactos do Clima de Potsdam, na Alemanha, e principal autor do estudo, lembrando que outros estudos já sugeriam um enfraquecimento da principal dessas correntes, a Circulação Meridional do Atlântico (Amoc, na sigla em inglês). - Mas agora detectamos fortes evidências de que essa esteira de transporte (de calor) global está de fato ficando mais fraca, particularmente desde 1970.
Como outras correntes marítimas, a Amoc é alimentada por diferenças na densidade da água devido a sua salinidade e temperatura. No caso dela, a água mais quente, e assim mais "leve", do Atlântico Sul flui para o Norte, onde a água mais fria, e mais "pesada", desce para as camadas mais fundas do oceano e viaja no sentido contrário, num carrossel em que circula um volume maior que todos os rios da Terra somados. O problema é que, com os bilhões de litros de água doce despejados no Atlântico Norte pelo derretimento do gelo da Groenlândia, esta água fria fica menos salgada, e densa, e não afunda tanto. Como consequência, a temperatura da superfície do oceano na região fica mais baixa (daí os registros de resfriamento da área), e todo sistema de troca de calor entre os trópicos e as áreas temperadas do Atlântico, fundamental para a estabilidade climática global, é enfraquecido.
Esse cenário, há muito suspeito e agora verificado pelos cientistas, inspirou o sucesso cinematográfico "O dia depois de amanhã", de 2004, em que o colapso repentino da Amoc lançou a Terra em uma nova Idade do Gelo em poucas semanas. Apesar de ser um fã declarado do filme, Rahmstorf lembra que, diferentemente da ficção, na vida real uma mudança climática desse tipo levaria décadas ou até mesmo séculos para acontecer, mas destaca que isso não quer dizer que os resultados desse processo não serão graves.
- Se o enfraquecimento da Circulação Meridional do Atlântico continuar, seus impactos poderão ser substanciais - diz. - A perturbação dessa corrente provavelmente terá efeitos negativos no ecossistema oceânico, o que vai afetar as zonas de pesca e a vida de muitas pessoas que moram nas áreas costeiras. O enfraquecimento da corrente também vai aumentar a elevação no nível do mar na região, afetando cidades como Nova York e Boston. Por fim, as mudanças na temperatura também podem influenciar os sistemas climáticos em ambos lados do Atlântico, tanto na América do Norte quanto na Europa.
AÇÃO HUMANA AMEAÇA EQUILÍBRIO
Para o oceanógrafo brasileiro Heitor Tozzi, o estudo reforça a noção de como a ação humana ameaça o equilíbrio climático do planeta ao alterar sistemas poderosos como a Amoc. Ele lembra que indícios desta mudança já haviam sido observados no início dos anos 1970, quando a paralisação da circulação de parte da corrente quente na costa de Labrador, no Canadá, provocou um rigoroso inverno na região.
- O que está ocorrendo agora, e que muito preocupa os climatologistas, é a velocidade do fenômeno, além das mudanças decorrentes das ações humanas sobre esse equilíbrio tênue das interações oceano-atmosfera - diz. - O clima está "abrupto", pois muitos dos ecossistemas construídos pela natureza para fazer deste um planeta habitável e em equilíbrio estão sendo completamente dizimados pelo ser humano. O equilíbrio já não existe, e os cientistas estão buscando entender como o processo de derretimento da Groenlândia vai impactar o clima do planeta.
Embora o estudo publicado na "Nature Climate Change" tenha se focado no Atlântico Norte, processo parecido pode estar acontecendo na porção Sul do oceano com o derretimento do gelo na Antártica, mas infelizmente a base de dados para sua avaliação não é tão rica e diversa, lamenta Afonso Paiva, professor do Programa de Engenharia Oceânica da Coppe/UFRJ. Ainda assim, Paiva ressalta que qualquer mudança nos padrões de circulação das correntes marítimas é preocupante do ponto de vista do clima global:
- Grande parte do clima da Terra está associada ao transporte de calor pelas correntes oceânicas. Quando elas são alteradas, vemos mudanças nas precipitações, no regime de ventos e outros fatores, e o ser humano tem seu papel nisso.

O Globo, 24/03/2015, Sociedade, p. 22

http://oglobo.globo.com/sociedade/sustentabilidade/perda-de-gelo-na-gro…

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