CB, Política, p. 9
10 de Jun de 2008
Municípios sob investigação
Deputados gaúchos vão avaliar o desenvolvimento econômico e social das cidades beneficiadas com o plantio de florestas para a fabricação de celulose
Lúcio Vaz
Da equipe do Correio
A Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul vota nesta semana requerimento do deputado Dionilso Marcon (PT) que solicita a criação de uma comissão de representação externa para avaliar o desenvolvimento econômico e social dos municípios beneficiados com plantio de pinus e eucaliptos para fabricação de celulose. O requerimento tem a assinatura de 22 dos 55 deputados estaduais, representando sete partidos, sendo nove do PT. O governo do estado anuncia a criação de 816 mil empregos nos próximos cinco anos, a partir do investimento de R$ 10,7 bilhões pelas empresas papeleiras Aracruz, Votorantim e Stora Enso (sueco-finlandesa).
Como a fábrica de celulose de Guaíba já está instalada há 20 anos, Marcon quer levantar o número de empregos gerados e se houve melhoria na qualidade de vida das comunidades com a expansão industrial desse setor. Hoje propriedade da Aracruz, a fábrica de Guaíba já pertenceu à multinacional Borregard e passou pelas mãos da Riocel.
A Aracruz tem plantações próprias e terceirizadas de eucaliptos na região central do estado, principalmente nas proximidades de Porto Alegre. A Votorantin está se instalando na Zona Sul, ao passo que a Stora Enso está adquirindo terras na Fronteira Oeste. Juntas, as três pretendem alcançar 450 mil hectares de florestas na metade sul do estado.
Para justificar o requerimento, Marcon afirmou que no Uruguai, onde há um grande cultivo de árvores exóticas, os agricultores estão se mobilizando para evitar o plantio de novas florestas e para substituir as plantações de eucaliptos por alimentos. "A escassez de água, o aumento da miséria e a diminuição da área plantada de alimentos são parte do cenário dos desertos verdes. É preciso discutir esse modelo para ver se é isso mesmo que queremos para o Rio Grande do Sul", destacou o petista.
Falta de água
O Correio percorreu municípios da metade sul e do Uruguai, no final de abril, para apurar o impacto econômico e ambiental das plantações de eucaliptos. Em Candiota (RS), na fronteira com o Uruguai, distante 390 km da capital, a reportagem visitou a fazenda Aroeira, da Votorantim.
A escassez de água já é apontada por vizinhos como conseqüência da chegada dos eucaliptos há cerca de três anos. Marciano Rodrigues Santos, dono de um tambo de leite ao lado da fazenda Aroeira, da Votorantim, afirma que havia água na sua chácara nos anos anteriores. "Tentaram fazer um açude no ano passado, mas o trator atolava. Agora, com os eucaliptos, secou tudo." Ele mostra o que era um banhado próximo a sua casa. Está completamente seco.
No Uruguai, o Movimento de Agricultores Rurais de Mercedes, que reúne cerca de 150 produtores, já negocia com o governo uma pauta de reivindicações, em que exigem que nenhum eucalipto mais seja plantado, a desativação da fábrica de celulose local (Botnia), a solução dos problemas de água nas terras dos vizinhos das florestas e a revisão da legislação ambiental, que não impõe limites nem restrições à atuação das multinacionais do setor.
O Correio esteve no distrito de Cerro Alegre e registrou que a região sofre com a falta de água. Dezenas de agricultores já deixaram a localidade, ou porque venderam suas terras ou porque não conseguem mais uma boa produtividade.
Memória
Promessas e degradação
A série de reportagens "O preço da devastação" mostrou o impacto ambiental, social e econômico da indústria de celulose no Rio Grande do Sul e no Espírito Santo. O negócio está em expansão no Rio Grande do Sul, mas já é uma realidade há 30 anos no Espírito Santo, onde a Aracruz produz 2,3 milhões de toneladas de celulose por ano, com faturamento de R$ 2,8 bilhões. A empresa conta com 105 mil hectares de plantações próprias e mais 92 mil hectares de florestas terceirizadas.
Naquele estado, a Aracruz implantou parte das suas florestas em região de Mata Atlântica ou em terras ocupadas por indígenas e comunidades quilombolas. No município de Aracruz, distante 79 km de Vitória, o Correio registrou a degradação do meio ambiente provocada pelos maciços de eucaliptos. Rios, riachos e nascentes secaram ou foram represados para utilização exclusiva da empresa. Os índios tupiniquins e guaranis já recuperaram 18 mil hectares de terras, mas agora não sabem o que farão com os tocos de eucaliptos que vão herdar.
O Rio Grande do Sul vive a fase das promessas. O governo anuncia que as papeleiras vão investir R$ 10,7 bilhões. Com a injeção desse dinheiro na cadeia produtiva, o estado teria investimentos totais de R$ 24 bilhões em cinco anos, com geração de 816 mil empregos. No Espírito Santo, 40 anos após o início da plantação de eucaliptos, a Aracruz gera 12 mil empregos diretos e indiretos. Na Fronteira Oeste, a multinacional Stora Enso já comprou 46 mil hectares por intermédio de empresas subsidiárias, mas teve essas aquisições vetadas pela Procuradoria Federal do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Como é uma empresa estrangeira, não pode comprar terras na faixa de fronteira. (LV)
CB, 10/06/2008, Política, p. 9
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