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Mulher joga futebol: jogadoras de São Gabriel da Cachoeira querem um campo e escola

Amazônia Real - https://amazoniareal.com.br
Autor: Cláudia Ferraz Wanano
11 de jul de 2019

Mulher joga futebol: jogadoras de São Gabriel da Cachoeira querem um campo e escola

Por: Amazônia Real | 11/07/2019 às 00:15
Por Cláudia Ferraz Wanano, especial para a Amazônia Real

São Gabriel da Cachoeira (AM) - O futebol é muito popular entre os povos indígenas da Amazônia. Entre as mulheres, é o esporte favorito. Na cidade de São Gabriel da Cachoeira, na região do Alto Rio Negro, no Amazonas, elas treinam em campo improvisado, sem gramado, de terra batida que, em dias de chuva forte, se transformam num lamaçal. Nada abala as jogadoras, que assim lutam contra a invisibilidade e a falta de apoio no futebol feminino: elas querem um novo campo para jogar e até uma escolinha para iniciar o treinamento com as meninas.

Hoje, há dez times na cidade: além do MAF, tem o ASA (Amigos de Schimarcher Adriel), Independente, Graciliano, DEC (Dabaru Esporte Clube), São Gabriel, Juventude, Rio Negro, Atlético Amazonas e Nova União

"A luta das jogadoras foi e está sendo, até nos dias de hoje um desafio conseguir um espaço para praticar o futebol feminino, pois o campo é precário", disse Edneia Teles, 38 anos. Ela é embaixadora da campanha Jogue com uma garota.

Atualmente, os times de futebol feminino treinam em um campinho de futebol no bairro Domingos Sávio, cedido pelo presidente da associação do bairro. Laura Cunha Cardoso, 35 anos, da etnia Baré, diz que, apesar de o campo ser pequeno e sem estrutura, dá para elas fazerem o aquecimento e os treinos. Ela é cabeça de área (volante) do time MAF (Mulheres que Amam Futebol).

A campanha Jogue como uma garota transmitiu pela televisão os jogos da Seleção Brasileira Feminina durante a Copa do Mundo da França, que terminou no domingo (7). Os eventos foram realizados também em Manaus e em outras 19 cidades do país.

Para Edneia, a campanha criada pela marca-protesto @peita, de Curitiba (PR), "abriu uma porta" para projetar planos para o futuro do futebol feminino.

"Demos visibilidade ao futebol feminino, que existe em todo canto, e mostramos que em São Gabriel da Cachoeira as mulheres também jogam futebol", disse ela.

As jogadoras dos times de futebol de São Gabriel da Cachoeira são de 23 etnias indígenas, entre elas, Baré, Tariano, Arapaso, Piratapuya, Dessano e Tukano. O motivo é que o município tem 90% da população (44.816 pessoas) formada por indígenas. É também o único município a ter cinco línguas indígenas faladas, além da portuguesa: tukano, nheengatu, baniwa e yanomami.

Para conseguirem os equipamentos como chuteiras, caneleiras, meiões, shortes e blusas, a jogadora Laura Cunha Cardoso conta que a maioria das atletas tira o dinheiro do seu próprio bolso. "Outras contam com pequenas doações de comerciantes, que apoiam o esporte", diz ela, que é mãe de três filhos, joga no time MAF e trabalha como Guarda Municipal.

Maria do Rosário Martins, conhecida como Dadá Baniwa, 39 anos, conta que para ajudar os times, os próprios amigos e familiares compram os equipamentos de futebol por meio de promoções como a venda de feijoadas e rifas. Ela foi goleira do time Nova União.

"Eles também acompanham os jogos, torcendo e prestigiando as partidas do futebol feminino", diz Dadá, que é atualmente estudante de mestrado em Linguística no Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Dadá Baniwa é uma das dirigentes dos bares oficiais, que transmitiram os jogos da Seleção Brasileira em São Gabriel pela campanha Jogue como uma garota.

Edneia Teles, que é da etnia Arapaso, gosta de jogar futebol desde criança. Por muitos anos foi meio de campo do time Nova União. "Pendurei as chuteiras por motivo de saúde em 2017", diz.

Por saber que o esporte exige uma base técnica, o projeto atual dela é que em São Gabriel tenha treinamentos em futebol no infanto-juvenil para as meninas.

"Temos várias atletas com potencial que podem sair daqui e mostrar o seu futebol para o mundo ver como joga uma mulher indígena da Amazônia", complementa Edneia, que foi sub-secretaria municipal de Juventude Esporte e Lazer, em 2014.

Dadá Baniwa vai mais longe na ideia: ela quer a criação de uma escolinha de futebol feminino. "Quem sabe alguma instituição ou organização poderia ajudar a criar uma escolinha de futebol feminino para ajudar ainda mais as nossas jovens da região? ", planeja.

Para ela, este projeto de investir na base seria o grande orgulho do movimento das mulheres indígenas do futebol de São Gabriel. "Acreditamos na garra e na força das mulheres da região. Apesar desses desafios que enfrentamos, não deixamos isso nos abalar! Continuamos seguindo firme e forte na luta pelo futebol feminino! ".

A embaixadora da campanha Jogue como uma garota, em São Gabriel da Cachoeira, Edneia Teles diz que foi uma das fundadoras do Campeonato de Futebol Feminino em São Gabriel em 2014. Mas os times começaram a ser formados por volta do ano de 2005, quando um grupo de mulheres fundou o Movimento de Esporte Feminino (MEF).

Erlange Figueiredo de Araújo, 36 anos - natural do município de Coari, no Médio Solimões, residente em São Gabriel da Cachoeira há 16 anos - lembra que, durante o primeiro campeonato, 11 times se inscrevam.

"Foi uma maravilha, porque a gente não esperava tanta inscrição de mulheres que queriam participar com os seus times no campeonato. Teve participação de times das comunidades da estrada, de sítios e tudo isso foi acima de nossas expectativas", disse Erlange, que foi zagueira do time São Gabriel. Ela é atualmente a coordenadora do Campeonato de Futebol Feminino.

Assim como as atletas dos times profissionais do Amazonas e até da Seleção Brasileira Feminina, a jogadora Jocinara Ventura de Oliveira, 21 anos, da etnia Baré, atacante do time do ASA, relata os casos de preconceitos contra as mulheres.

"Ocorre, principalmente, com as jogadoras casadas. Elas ouvem os homens dizerem para cuidarem dos filhos, para lavarem louça. Eles falam: 'Você é uma dona de casa e não é um homem'. É isso que ouvimos", conta a Jocinara.

Para Edneia Teles, as mulheres indígenas praticam e amam o esporte como qualquer jogadora do país e estão lutando para dar mais visibilidade ao movimento do futebol feminino. "Nosso objetivo é que futuramente se amplie esse movimento para os outros municípios do Amazonas e os outros estados. Sonhar não custa nada! É só acreditar e seguir em frente". (Colaborou Kátia Brasil)

Cláudia Ferraz é indígena da etnia Wanano, estudante de Letras e radialista da Rede Wayuri de Comunicação Indígenas de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas.

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