VOLTAR

‘A mulher é a mais atingida com a crise climática’, afirma pesquisadora

A Crítica - acritica.com
Autor: Omar Gusmão
02 de Jun de 2026

Encontro sobre mulheres da floresta debate, a partir desta quarta, em Parintins, o tema: 'As mulheres, os feminismos e a questão climática'

(Foto: Divulgação)

Coordenadora do 9o Encontro de Estudos sobre Mulheres da Floresta (Emflor), que este ano tem como tema "As mulheres, os feminismos e a questão climática", a professora Iraildes Caldas Torres, doutora em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), acredita que as mulheres são as pessoas mais atingidas pela crise climática porque são elas que lidam com a água nos serviços domésticos, que cuidam dos animais domesticados que lidam com os resíduos sólidos fazendo o descarte, muitas vezes inadequados como a incineração e/ou despejo em terrenos baldios.

"São as mulheres que lidam com a limpeza da comunidade, mobilizando os moradores para evitar despejos de dejetos no meio ambiente, são as mulheres que carregam lata d'água na cabeça em grandes distâncias devido à estiagem e secas severas; enfim, são as mulheres que cuidam da família, especialmente as crianças, enfrentando grandes enchentes fazendo maromba na casa quando a cheia avança no assoalho, sendo ela, também, que reúne a família para deixar a casa e se refugiar na terra firme até a as águas baixarem", defende a professora e coordenadora do 9o Emflor.

"A mulher é, por todas essas situações, o grupo social ou o segmento humano que mais é atingido com a crise climática", defende Iraildes Caldas Torres. O encontro será realizado entre os dias 3 e 5 de junho, no auditório do Instituto Federal do Amazonas (Ifam), em Parintins (distante 369 quilômetros de Manaus). O evento nacional é apoiado pelo Governo do Amazonas, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).

"É a primeira vez que o Emflor sai da capital Manaus, para ser realizado no interior do estado. Isto porque nós do Gepos-Grupo de Estudo, Pesquisa e Observatório Social: Gênero, Política e Poder, grupo de pesquisa vinculado ao CNPq/Ufam, avaliamos que era relevante atender Parintins, tendo em vista que é um município que possui um índice elevado de violência contra a mulher e de feminicídio", justifica a professora.

De acordo com Iraildes, é alarmante a situação de violências que as mulheres enfrentam em Parintins. "Torna-se fundamental que a Academia ou a Universidade olhe para o interior do Amazonas, chamando as mulheres para o debate, para conhecerem os seus direitos e assim poderem sair do ciclo da violência. O Emflor tem conseguido exortar a sociedade, para que faça a sua parte".

A professora destaca que as pesquisas divulgadas pelo Emflor também têm mostrado ao Estado brasileiro, a realidade cruel para as mulheres, o que exige implementação de políticas públicas para elas. Amparado pelo Programa de Apoio à Realização de Eventos Científicos e Tecnológicos (Parev), o 9o Emflor tem como objetivo central a difusão da ciência e da tecnologia, por meio da divulgação das pesquisas, promovendo debates com foco nos feminismos, nas práticas sociais das mulheres da floresta, seus saberes e ancestralidades, além das questões climáticas e todas as formas de enfrentamento das violências contra a mulher.

Indagada sobre como temas como ecofeminismo, racismo ambiental e violência de gênero. s se conectam dentro da realidade amazônica atual, a coordenadora do Emflor declara que são temas que estão circunscritos às discussões realizadas na COP30 e, que, àquela altura, as mulheres que participaram de vários fóruns de debates preparatórios à COP30, levaram suas pautas à Cúpula dos Povos.

"Estes temas transpassam a questão amazônica e sua gente, cuja população enfrenta o racismo ambiental em seus territórios, sendo tangidos de suas moradias, para dar lugar às investidas do grande capital com os chamados projetos amazônicos, com criação de hidrelétricas, invasão às suas terras pelo garimpo ilegal, morte das lideranças por grileiros e madeireiros, dentre outras graves situações", denuncia Iraíldes.

A proposta metodológica do Emflor é interdisciplinar, focando na análise da crise climática, manifestada nas secas e cheias extremas, que impacta desproporcionalmente a vida das mulheres ribeirinhas, indígenas e quilombolas. O congresso busca dar visibilidade a essas realidades, unindo o rigor científico ao saber das comunidades tradicionais.

Iraildes Caldas Torres relata que o Emflor já abriu muitas portas para os estudos de gênero na Amazônia, principalmente estudos sobre as mulheres. Segundo ela, ocorreu inserção de gênero nos programas de pós-graduação; em vários currículos escolares, as pesquisas sofreram ampliação e, sobretudo, o Emflor retirou as mulheres Amazônidas da invisibilidade.

Hoje elas existem e são reconhecidas pelas suas práticas sociais (benzedeiras, parteiras, polimeliculturistas, quebradeiras de coco de babaçu, olheiras, ceramistas dentre outras) e pelo seu trabalho (agricultoras, pescadoras, roceiras, farinheiras e outros), revela a professora. "Hoje existem editais de agência de fomento que incluíram mulheres como sujeitas pesquisadoras e como objeto de estudo. É o caso da Fapeam e isso tem a ver com o Emflor e com a exortação da Unesco para inserir mulheres na ciência", diz.

Quanto às políticas para as mulheres, Iraildes Caldas afirma que o Emflor tem contribuído muito para esse debate, e em alguns casos, os resultados são facilmente percebidos. "No âmbito do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, por exemplo, passou a ter o Ater/Mulher que fornece uma bolsa para mulheres agricultoras que implementam um negócio próprio. Na política de alimentos também percebemos avanços, sobretudo, com a existência de editais para a aquisição de alimentos para a merenda escolar", enumera.

"Isso é muito positivo, é parte dos nossos debates. A política de ONGs para empoderamento das mulheres por negócios também cresceu muito. Projetos para as mulheres, enfim, são políticas cujos debates foram induzidos pelo Emflor. Ainda falta muito para as mulheres alcançarem a emancipação, mas estamos lutando sempre", conclui a professora.

Reunindo estudantes de graduação, pós-graduação, professoras e professores universitários e da educação básica, ativistas de movimentos sociais de mulheres e dos vários ecofeminismos, o Emflor conta com uma programação diversa.

Na abertura, a conferência "As mulheres, as ancestralidades e a crise climática", além de apresentações culturais e coquetel de recepção são os destaques. Ao longo da programação, serão debatidos temas como economia feminista e sustentabilidade, agroecologia, feminismo artístico, violência de gênero no poder e racismo ambiental.

O congresso também promoverá minicursos sobre ecofeminismo na Amazônia, violência doméstica, empreendedorismo feminino e movimentos de resistência das mulheres, além de grupos de trabalho que abordarão temas como mulheres indígenas, mulheres quilombolas, gênero e trabalho, memória, educação, saúde e expressões poéticas da floresta.

A programação completa pode ser acessada por meio do link: https://www.instagram.com/9emflor.

Criado em 2009, o Emflor vem se consolidando como um espaço significativo de troca e de debates sobre as pesquisas na temática de gênero e sobre a mulher, produzidas no Brasil, em especial na Amazônia. Organizado pelo Grupo de Estudo, Pesquisa e Observatório Social: Gênero, Política e Poder (Gepos), laboratório vinculado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e à Ufam, o encontro é realizado bianualmente com êxito e sucesso.

O evento recebe ainda o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e de dois importantes programas acadêmicos: os Programas de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia (PPGSCA) e em Serviço Social e Sustentabilidade na Amazônia (PPGSS).

https://acritica.com/a-mulher-e-a-mais-atingida-com-a-crise-climatica-a…

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.